Rodoviária


Arrumar as malas era o de menos. Já havia feito aquilo tantas vezes que completara a tarefa em um piscar de olhos. Dessa vez, porém, era diferente. As malas eram numerosas, espaçosas, formavam uma torre. Pareciam muito maiores que de costume. Algo na visão daquela torre o deixava inquieto. Ele não gostava do que aquelas malas representavam.

Mas o problema não eram as malas em si. O problema era o tempo. O tempo que se espera entre arrumar as malas e a partida do ônibus sempre lhe parecia inútil. Era um tempo curto demais para fazer algo que importasse e longo demais para não se fazer nada. Não havia nada a fazer senão esperar. Não importa quantas vezes fizesse isso, nunca se acostumava; já era inquieto por natureza, e estava mais que de costume. Toda a situação o desagradava, mas não podia fugir dela. Já havia fugido demais.

Mais uma hora e meia de espera até o ônibus. Em breve estaria na estrada. Lembrava que ela dizia que conseguia dormir nessas viagens. Ele não tinha a mesma sorte. Seria uma longa noite.

24.4.2014