Um momento


Acordei com os primeiros raios do sol. A janela, quando fechada, tinha uma pequena fresta entre os seus dois lados e esta pegava a luz do sol exatamente nos seus olhos assim que ele saía. Era o motivo pelo qual eu sempre evitava dormir do lado esquerdo da cama.

Tateei o outro lado da cama. Nem sinal dela.

“Cadê você?”

“Ah… tô aqui.”

Abri os olhos e tentei me acostumar à escuridão do resto do quarto. Ela estava sentada no chão, ao lado da porta, mexendo no celular. Meu quarto só tinha uma tomada e o carregador ficava ali. Eu estava sem óculos e só a via como um borrão, com seus grandes cachos, o rosto levemente iluminado pela tela.

“Tá fazendo o que aí?”

“Tô conversando com um amigo meu aqui.”

“Que horas são?”

“São… 5:20”

“Volta pra cá.”

“Pera. Agora não. Daqui a pouco eu volto.”

Me revirei de volta à minha posição original. Peguei a minha camisa, que estava jogada do meu lado da cama, e joguei ela por cima do rosto para evitar a luminosidade. Ainda estava meio grogue de sono. Dormi.

Não sei quanto tempo ela ficou ali no celular. Acordei um pouco mais tarde com o movimento que ela fez enquanto voltava pra cama e se ajeitava nos lençóis. Tirei a camisa do rosto. A essa hora o sol já tinha subido um pouco e já não batia diretamente nos meus olhos.

Ela me abraçou de lado, botando o braço direito por cima do meu colo. Segurou e começou a acariciar no meu braço, fazendo um gesto leve de cima a baixo com seu polegar. Instintivamente comecei a fazer o mesmo gesto no braço dela.

“Ótima ideia a minha de ter me convidado pra cá hoje”, ela disse.

“De fato. Melhor ideia”, concordei.

Ficamos em silêncio por um meio segundo.

“Você não quis dormir abraçado, não é?”, perguntei.

“Não, não quis.”

“Por quê?”

“Tava muito calor.”

“Entendi.”

E de fato, estava muito calor. Estava um calor desgraçado. Eu costumava dormir com a janela fechada e trancada, pois não tinha grades do lado de fora. A proteção na janela parecia transformar tudo ainda mais em uma estufa. Geralmente era um pouco mais fresco, com uma pessoa só, mas com duas pessoas virava um inferno.

Havia tentado abraçá-la durante a noite, mas percebi ela evitando o gesto com o corpo. Respeitei a vontade dela e só havia me virado de lado e dormido no canto.

O ventilador do outro lado do quarto só fazia ventilar a nós o bafo quente que pairava no lugar.

“Eu percebi que você não quis dormir abraçado”, comentei.

“Percebeu? Como?”

“Pela sua postura. Você se manteve afastada, meu braço quase precisava se esticar pra te alcançar. Eu… lembra daquela garota, que eu te falei outra hora?”

“Aquela que morava aqui perto, que você estava vendo?”

“Essa mesmo. A gente sempre dormia de abraçado. No último dia que eu a vi, antes da gente terminar, eu percebi que ela tava diferente. Na hora de dormir, eu notei que o corpo dela tava afastado, eu precisava me esticar para alcançá-la. Eu estranhei. Acordei já sabendo que tinha alguma coisa meio errada, como um pressentimento. Foi a última vez que dormimos juntos. Ela fez exatamente como você fez naquele momento, então… eu percebi pela sua postura corporal que você não queria que eu estivesse te abraçando ali.”

“…entendi.”

Ficamos assim em silêncio por alguns instantes. O quarto voltara a sua semi-escuridão habitual agora que o sol já havia levantado. O escuro fazia eu me sentir mais calmo.

Enquanto continuávamos em silêncio, ela continuava acariciando meu braço e eu continuava retribuindo o gesto. Com meu braço direito eu abraçava os ombros dela, enquanto a sua cabeça descansava no meu peito. Estávamos aconchegantes. Era bom. Era um momento tranquilo.

Pensei bastante antes de falar. Geralmente faço isso.

“Isso é bom, não é?”

“Sim. É muito bom.”

“Eu… estava tendo um pensamento meio viajado aqui.”

“O que? Fale.”

“Tipo… sobre esse momento, aqui. Sobre isso aqui que a gente tá fazendo junto. É algo tão bom, é algo tão simples, e… eu parei pra pensar em, sei lá, o quão esse momento pode ser tão inacessível pra algumas pessoas.”

“Hm.”

“Eu tava pensando em… não sei, quantas pessoas, quantas milhares de pessoas por aí não poderiam estar precisando de um momento assim? Quantas pessoas será que já viveram sem nunca saber como é um momento desses? Sabe? É algo tão bom, tão confortante, e que nesse momento parece tão acessível, mas a verdade é que algo assim não vem sempre na vida das pessoas. Isso não acontece sempre que a gente quer. Muita gente não tem a possibilidade disso.”

“Entendo…”

“Eu fico pensando o tanto de pessoas que não precisariam de algo assim nesse exato momento, para elas mesmas, e o quanto a gente se dificulta em tudo. O tanto de bem que isso não poderia fazê-las. Parece loucura que a gente consiga isso tão facilmente, aqui, agora.”

Ela parou por um instante.

“Você viajou mesmo aí.”

“É, eu sei.”

“Nunca havia pensado isso assim, acho.”

Ficamos em silêncio por mais um tempo trocando carícias, sem falar nada.

“Venha. Vamos dormir”, ela disse.

Ela virou de lado em direção ao ventilador e puxou meu braço para que eu viesse junto. Abracei-a de conchinha pela barriga enquanto descansava meu rosto nos cabelos dela. Ela pegou minha mão, tirou de sua barriga e a moveu para os seus seios. Dei um riso leve. Passei um tempinho brincando com eles, enquanto beijava seus ombros e pescoço e ela se contorcia levemente. Por fim abracei-os também, me aconcheguei em seus cabelos e ficamos lá, compartilhando o momento, dessa vez em silêncio. Dormimos.