Intravenosa

É a primeira vez em anos que me sento em frente de casa.
Um Prozac às 6. Um Buscopam às 18. Um Valium antes de dormir.
As crianças brincam e gritam com suas bicicletas, o vento úmido sopra do sul tempestuoso, mas o fim de tarde me permite ver por entre as nuvens Vênus poente e uma pequena fresta de céu azul.
Não sei o que tenho feito durante todo esse tempo. Não sei o que sou. Uma máquina de produção, um robô velho e enferrujado vazando solidão. Uma gravata amarrada, uma meia encardida. Nenhum abraço.
Um cadáver pútrido dilacerado aos poucos. Um sorriso forçado em desuso. Uma alma esgarçada e sangrenta. Engrenagens rangendo de dor. Medos. Raios. Trovões. Nenhuma mão pra agarrar. Completamente vazio.
Gastrite, Artrite e um American Express.