Olá!

Pedaços perdidos da história do Brasil #3

O contrário do oposto

Texto originalmente publicado no site Papo de Homem no dia 18/09/2012

O Deputado estava preocupado. Já estava na Casa havia dois anos e até então não havia sequer começado um pé de meia. Não conseguia desviar a verba da merenda, do leite, fraudar uma licitaçãozinha que fosse.

Até a ponte, que deu um jeito de construir junto com um prefeito pilantra ele levou a pior. Prefeito esse que foi cassado, apareceu até no Jornal Nacional. O deputado chorou copiosamente ao ver que seu nome não fora sequer mencionado no processo. Era um fracasso completo. Havia decepcionado todos aqueles que contam com seu sucesso.

“Vejam bem”, dizia ele a seus assessores, já à beira da depressão, “não é por falta de tentativa. Todo esquema em que eu entro dá errado. Já se foram obras sem um centavo a mais do orçamento. O estádio da Copa, que era minha grande chance, vai ser o mais barato de todos. Mas a pior de todas foi aquela da verba dos hospitais. Era o plano perfeito. E o que foi que aconteceu? Digam-me, vamos lá… não querem dizer? 24 milhões!! A verba toda foi desviada. E PARA QUÊ? DIGAM-ME! Para construir três creches e melhorar o saneamento de todo um bairro pobre daquela cidade esquecida por Deus. Tudo o que fazemos aqui dá errado, senhores. E não estou encontrando nenhuma solução.”

Mais tarde, naquele dia, o nobre Deputado, que tanto fazia para melhorar a vida do povo — uma grande vergonha, diga-se –, recebeu uma ligação. “Nobre colega, estamos a par de sua situação. Somos um grupo de cavalheiros que… bem… padecem do mesmo mal. Vamos nos reunir hoje à noite, o senhor está convidado a participar. Vamos virar o jogo.” Depois de receber o endereço, partiu para o encontro. Estava desesperado. Qualquer coisa seria bem-vinda. Fora convidado para um encontro secreto, devia ser algo importante. Poderia ser o mais novo escândalo da política brasileira, e ele participaria logo no início.

Lágrimas de emoção brotavam em suas bochechas bem barbeadas.

Quando chegou ao local do encontro, o Deputado viu quem seriam seus colegas nessa nova empreitada. Os maiores fracassados da câmara, do senado e até dois ministros. Até surgir aquele que era considerado o pior de todos. O homem mais odiado dos políticos brasileiros.

Nos últimos dez anos, todas as falcatruas deflagradas tinham o dedo dele. Ninguém sabia como ele fazia, mas era só ele tentar entrar em algum tipo de esquema que tudo era descoberto, e a mamata acabava. As pesquisas já o apontavam como o próximo Presidente. Todos diziam que era por causa do boneco. As crianças gostavam.

O senador sentou-se à mesa com seu famoso boneco. E o boneco começou a falar.

“Senhores, estamos aqui por um motivo. Somos um bando de fracassados — retrucou um deputado que uma vez, sem saber o que assinava, ajudou a triplicar a verba da saúde pública. Sim. Somos os piores políticos que este país já teve o desprazer de conhecer. Todos nós que estamos aqui temos uma habilidade quase sobre-humana de fazer coisas erradas darem certo. Nós somos uma piada. Eu sou um boneco de um ventríloquo muito sem graça. Temos aqui uma mulher fruta, um humorista que não sabe nem ler, nem escrever, um cantor de sertanejo universitário, ex-BBB, ex-jogador de futebol e o Caralho. Inclusive gostaria de cumprimentar o Sr. Caralho aqui pela extrema capacidade de ter sido o único de nós a conseguir desviar alguma verba pública para paraísos fiscais”.

Caralho sorria meio sem jeito, mas agradeceu.

O Deputado aplaudiu efusivamente junto com os colegas, estava emocionado de estar ali. Algo grande viria. Tinha certeza. Alguém conseguira desviar verba para uma conta em paraíso fiscal. Precisava urgentemente se aliar àquelas pessoas.

O boneco acendeu um charuto e continuou “Tudo bem que o dinheiro foi parar na conta secreta de um terrorista internacional, expondo ao mundo toda uma rede criminosa, que levou à prisão centenas de pessoas ao redor do planeta. Mas você é o melhor de nós até agora, Caralho!” O Deputado, não aguentando mais, perguntou. “E por que estamos aqui reunidos? O que estamos tramando aqui?” “Reuni todos nós para propor que usemos nossos poderes em conjunto.” Vários indagaram como iriam fazer aquilo e qual seria o propósito.

O boneco se levantou e foi caminhando pela mesa, enquanto explicava, com lágrimas nos olhos, o seu plano. “Todo objetivo que traçamos até hoje em nossas vidas resultou no extremo oposto. A ideia é simples: Passemos a fazer o contrário do oposto. Tentaremos, a partir de hoje, fazer o que pudermos em prol do Brasil e do povo. Fazer o que fazemos de melhor, mas querendo fazer o bem para o povo. Entendem o plano?” Agora foi a vez do Deputado se levantar “É CLARO! É genial. Se tentamos fazer tudo ‘errado’ e as coisas dão certo, é só inverter e fazer tudo certo para que tudo dê errado! Meu Deus, como não pensamos nisso antes?” “O óbvio é difícil de se ver, caro companheiro. E aí? O que acham? Do jeito que as coisas são, em poucos meses seremos os políticos mais eficientes do mundo.” O boneco voltou ao seu lugar junto ao ventríloquo e se sentou.

Discutiram por horas, traçaram metas, planejaram tudo. Encontravam-se semanalmente para não deixarem o projeto morrer. A cada dia que se passava, mais colegas se juntavam à causa. Mais tarde, formariam um partido. As coisas continuavam dando certo, erradamente. Mas eles sabiam que uma hora ia dar merda. Uma hora sempre dá merda.

E foi assim, sem querer querendo, que o Brasil tornou a maior potência econômica, social e cultural do mundo.