Um momento luminoso

Existe uma coleção de ensaios do Stephan Zweig que trata dos momentos luminosos da humanidade. São episódios históricos de enorme significado, que implicaram em grandes mudanças, mesmo que não fossem reconhecidos na época.

Em nossas vida, temos momentos assim. Por mais monótona e trivial que seja nossa existência, há alguns instantes que nos marcam, que nos impressionam com sua força definidora, abrindo-nos para caminhos que antes nos pareciam desconhecidos.

Um momento assim ocorreu-me há uns dez anos. Por circunstâncias do destino, acabei numa platéia para uma palestra sobre cultura, proferida, vejam só, por um General. Naquele momento de minha vida, no segundo ano de um mestrado em engenharia, eu tinha abandonado as leituras da juventude, prioritariamente de histórias de detetive e best sellers em geral. Praticamente passava meu tempo com séries de tv e programação esportiva. No entanto, fui obrigado a assistir aquela palestra naquele dia.

Eu até conhecia o General, um velho amigo de meus pais. Um baiano alegre, sempre com histórias divertidas. Confesso que estava um tanto curioso, embora de má vontade. Não era alguém que eu imaginaria falando sobre cultura. Como ele ocupava na ocasião um cargo de diretor cultural do Exército, explicava em parte sua presença ali.

Duas horas depois, quando sai do auditório, estava arrasado. Nunca em minha vida tinha me sentido tão vazio como naquela tarde. Era como se uma realidade que eu estivesse escondido de mim mesmo se mostrasse de uma só vez naquele momento: eu não tinha conteúdo. Era um ignorante ou, em outras palavras, um inculto.

Não me lembro exatamente do que ele disse, mas ele buscou mostrar como vivíamos em um estranho paradoxo. Ao mesmo tempo que tínhamos, como nunca antes, acesso a tantos bens culturais, de livros a monumentos, não tínhamos o menor interesse por eles. Lembro que falou muito do livro O Ócio Criativo, mas exatamente o contexto. E descobri que por anos passei por um monumento, no centro da Praça General Tibúrcio, na Praia Vermelha, sem me tocar que ali se encontravam os restos mortais dos heróis da retirada da Laguna e da epopéia de Dourados, entre os quais, do célebre Tenente Antônio João.

Cheguei em casa calado, troquei de roupa e fui correr. Nem prestei atenção nas músicas que estavam tocando no meu tocador de mp3; só pensava no que tinha escutado e no que isso implicava para minha vida.

Mais tarde, fui para uma livraria do shopping Rio Sul. Sai de lá com dois livros: Antologia Ilustrada da Filosofia e Irmãos Karamazovi. Não os recomendaria para iniciantes, mas foi um começo. De lá para cá, nunca mais parei de ler. Das coisas sérias às mais leves. Aprendi a gostar de jazz, soul, música clássica, ópera. Aprendia a ver filmes do Eric Rohmer, Kieslowski, mas sem nunca abandonar a cultura pop. Na verdade, acho que uma precisa da outra.

Muito se fala da educação e costumamos ostentar nossos cursos e diplomas com orgulho. Mas se me perguntarem, o que mais me impactou na vida não foram meus dois mestrados, meu MBA, minhas duas graduações. Com mil desculpas a meus professores, alguns até excelentes, mas foi uma palestra protocolar, mas muito inspirada, de um velho general baiano, nos idos de 2008. Aquele foi um dos momentos luminosos de minha vida.