Pragmatismo sexual

Um casal que tinha acabado de se conhecer pelo Tinder conversa enquanto fuma um cigarro, depois de transar:

— tá bom, o sexo foi ok… agora podemos passar para os próximos itens?

— oi? — diz ele.

— é que eu não tenho muito tempo, sabe? já estou com trinta e oito… e não tenho tantos períodos férteis (realmente férteis, sob o ponto de vista hormonal)… e até conhecer um cara bacana (que pode até ser você) e tudo se encaixar seguindo o fluxo, numa conta burra… demora um pouco, percebe?… então estou numa de abreviar o caminho, entende isso? Atalho? Então, vamos trocar umas ideias em uma lista previamente testada por mim e vejamos se a gente se encaixa em um tipo de algorítimo darwiniano… entendeu? Evolução da espécie, saca? Queimar etapas?! Então? consegue fazer isso?… dúvidas?

— entendi… quero dizer, claro… digo, tenho… dúvidas muitas… mas, para começo de conversa, será que (por enquanto) o que aconteceu com a gente (até aqui) não foi só (tipo) uma transa… apenas?

— claro… entendo essa questão que você levantou agora… mas, é neste momento que precisamos agir de forma pontual, pois podemos ser mais cirúrgicos e justos, percebe? Cortar na própria carne? Descartar sem piedade aquele candidato(a) que não tem nada a ver? Pela evolução da espécie, somente… nada pessoal (espero)…

— bem, ao menos o Tinder disse que somos compatíveis…

— esses aplicativos são uma bosta… os algorítimos que eles usam são primários, do século passado… além do mais, ninguém quer responder a um questionário de verdade, não é mesmo? quero dizer… a galera quer mais é ir direto aos finalmentes… mas você sabe que existe um app que funciona de forma mais assertiva partindo de um extenso questionário pessoal (ao mesmo tempo que é bacana sob o ponto de vista matemático, dos algorítimos e tal, a percepção do usuário é que o questionário torna o cadastro inicial do aplicativo muito chato)… lá na minha turma de pós-doc se fala que esse aplicativo aí tem uns setenta por cento de taxa de assertividade para encontrar (de verdade) a sua cara metade… eu ainda estou avaliando os metadados para minha tese… por isso não tenho certeza dos números… mas, o que qualifica a sua taxa de assertividade é que os algorítimos românticos que o app se utiliza foram criados por dois matemáticos renomados.

— você é uma aluna aplicada, parabéns. Mas, a ciência sem inteligência emocional, não ajuda muito, nesse nosso caso…

— claro que ajuda, até porque eu quero ter filhos… não posso bobear, não é? Daqui a pouco já estou com quarenta… é claro que existem mulheres por aí tendo filhos aos sessenta, mas os riscos são grandes e não acho certo colocar a vida do meu filho (nem a minha) em qualquer perspectiva de sucesso abaixo de cinquenta por cento, que é o numero mágico da natureza.

—pois eu só tô ampliando minha base de dados mesmo, viu? aumentando a amostragem, saca? olhando a vitrine?

— você trabalha com o quê?

— eu sou publicitário… e você?

— eu faço pós-doutorado em física quântica na federal…

— prazer, Pedro… desculpa, qual o seu nome mesmo?

— Clara… oi, Pedro…

— oi, Clara, tudo bem?… foi ótimo transar com você… e, na verdade… você gostaria de dar mais uma?… tipo, mais uma transada rapidinha?

— claro, deixa só eu ver aqui se estou ovulando, daí a gente já aproveita e faz tudo numa tacada só, não é não?

— ih, rapidinha cancelada, desculpa… tenho que ir… o celular acabou de me lembrar que eu tenho uma reunião agendada para daqui a dez minutos… e é lá na Barra…

— poxa, hoje é o último dia fértil… tem certeza? Tudo bem, deixa pra lá… sexo seguro por sexo seguro, podemos fazer depois… virtualmente, pelo periscope mesmo, não é?

— bom, eu acho que eu posso me atrasar um pouquinho… afinal, reunião na Barra sempre atrasa, não é verdade?