Criatividade — por Rodolfo de Salles

Rodolfo de Salles é Designer especializado em Motion, mas sua grande paixão sempre foi contar histórias. Criador desse espaço, dos pequenos contos em Paradoxo3 e autor das sagas Absolutos (publicando), Fractal e Apotheosis (em gavetas prestes a explodirem), ele mora em São Paulo, a cidade inspiradora, e é um imaginador de mundos, um construtor de universos e um escravo da criatividade… ou foi apenas programado pra acreditar nisso tudo.

Não dá pra falar sobre minhas criações sem falar um pouquinho sobre mim. Sou escritor desde criança, na época usava diversos cadernos de dez matérias (daqueles escolares) para escrever histórias. Eu adorava inventar todo tipo de trama, brincava com hominhos da Lego misturando com os da Playmobil e dos Cavaleiros do Zodíaco e criava sagas enormes que infelizmente nem me lembro mais, mas que contribuíram para gerar em mim essa necessidade de contar histórias.

Foi então que chegou às minhas mãos um exemplar de Senhor dos Anéis, que achei na biblioteca da minha cidade e comecei a ler sem pretensão nenhuma.

Foi a melhor coisa que eu já fiz. Aquela leitura me deu uma perspectiva completamente nova do tipo de história que eu queria contar. A partir daí, passei a investir na criação de histórias maiores, descobrindo as tais trilogias. Comecei a dedicar meu tempo pra criar a maior saga da minha vida, uma história medieval no estilo do que eu tinha lido chamada Dragon Sniper.

Além do fascínio por histórias medievais, outro gênero também me roubava a atenção: ficção científica. A vontade de criar algo do tipo veio quando assisti um dos Animes que moldou o que sou hoje: Neon Genesis Evangelion.

Assistir aquele Anime me fez entender o quão complexa poderia ser uma obra, e baseado nela, comecei a criar mais um genérico, o qual chamei de União de Almas, sobre uma moça que encaixava uma planta alienígena nas costas e conectava-se com a alma de sua mãe (pra quem assistiu Evangelion, vai notar as semelhanças).

Eu tinha agora dois gêneros sobre os quais eu queria escrever: fantasia e ficção científica. Desde então, isso nunca mudou, ainda que atualmente eu permeie pelos campos das ficções de cotidiano, histórias LGBTs e de terror de vez em quando.

O problema naquela época era que eu queria apenas criar por cima das coisas que me influenciavam, me fazendo criar genéricos do que já existia. Eu tinha poucas influencias, essa é que é a verdade. Porém, a minha salvação veio quando vi as primeiras imagens de Final Fantasy X, e novamente minhas perspectivas mudaram.

Primeira imagem que vi de Final Fantasy na vida…

Ver aquele mundo magnífico com mistura de Japão, Tailândia e a região do Pacífico Sul foi simplesmente incrível. Quando pude jogar então, além de ter aulas de inglês tentando traduzir a trama toda, eu descobri que era possível contar histórias incríveis, cheias de reviravoltas, e dentro de mundos praticamente vivos. Experimentei outros Final Fantasys depois como o VII, VIII e IX, mas até hoje o X me marca como preferido.

Surgiu assim minha necessidade de não reciclar mundos alheios — eu nunca tive interesse em contar histórias de Elfos e Anões — mas sim de criar minhas próprias raças, culturas e Universos.

Também sempre fui fascinado por cosmogonia, o que contribuiu pra que eu tentasse sempre me dedicar a origem do que eu criava, de forma que isso influenciasse nas minhas obras.

Dragon Sniper então evoluiu para Apotheosis, uma saga sobre humanos capazes de se elevar ao nível de Deuses.

Na época, eu desenhava minhas histórias depois de criá-las, mas como nunca fui bom com desenho, meus quadrinhos eram desastrosos, ainda que sirvam como guia pros livros que pretendo escrever deles.

Durante o processo de criação de Apotheosis, que agora já não era mais medieval, mas um mundo completamente novo, eu comecei a desenvolver uma nova ficção científica (dei união de almas pro meu irmão, que também desenhava na época, mas ele nunca terminou de desenvolvê-la) chamada Psico Field, que tinha muitas influencias de Matrix e algumas de Clamp com X — 1999.

Mas foi após ler Eram os Deuses Astronautas, imaginando as consequências de se viver em um mundo pós terrestre em que as pessoas não acreditassem na Terra como verdade, mas sim como mito, que nasceu minha nova obra Frozen. Inclusive, na faculdade, o TCC foi uma tentativa de quadrinhos animados de Frozen.

Com o surgimento da animação da Disney de mesmo nome, eu tive que mudar pra Fractal, e essa se tornou minha segunda maior obra. Nesse período, Apotheosis voltou pra gaveta, e passei a dedicar full time a Fractal.

Porém, Fractal foi uma daquelas obras que se tornou tão grandiosa e tão viva, que acabei tendo que engavetá-la também. Ela não me deixava criar mais nada, sempre exigindo mudanças, alterações. Eu perdi a conta de quantos arquivos de reescrita eu tenho da obra. Até mesmo leitura crítica foi feita em cima dela, e não resolveu todos os seus problemas. Eu estava preso nela, não conseguia criar mais nada.

E foi então que surgiu o Wattpad.

A plataforma de auto-publicação foi um achado pra mim, lembro-me de ser apresentado a ela pela minha amiga do serviço, Gabriela (saudades), e imediatamente, comecei a publicar contos de uma coletânea de um concurso que participei e não ganhei. Minhas primeiras obras começaram a ser lidas, o que foi bem empolgante. Porém, de início eu não levei o Wattpad muito a sério. Foi somente em 2015 que, fazendo um curso de Marketing Digital para Escrita na Casa das Rosas que entendi a necessidade de se criar um perfil na plataforma, pois diversos autores estavam saindo dela com contratos de publicação assinados com editoras. Eu precisava criar uma nova história pra testar a plataforma a sério.

Então, surgiram as primeiras ideias para Absolutos, a história de um rapaz que descobriria ser o futuro destruidor do Universo.

Absolutos foi o furacão que me tirou da prisão de Fractal. Baseando-me em Avatar (Legend of Aang e Korra) com pitadas de Star Wars, o jogo Rogue Galaxy de Playstation lançado em 2005 e mais algumas coisas que não me lembro, eu me desafiei a criar algo completamente novo, do zero, e até agora tem sido uma experiência incrível.

Além de ter diálogo direto com quem está lendo, ver os números de leituras crescendo aos pouquinhos é uma sensação bem bacana. Absolutos cresceu, e tornou-se uma trilogia. O segundo livro já está sendo publicado, enquanto nesse exato momento eu planejo o desfecho do terceiro (eu sempre começo a postar um livro após seu término, não gosto de começar a postar sem ter ele pronto, não resistiria a pressão).

Para criar histórias, eu procuro sempre misturar coisas improváveis, não só as óbvias. Apotheosis recebe influências não só de Final Fantasys, mas de outros jogos como Chrono Cross, Xenosaga, Mangás Shonen como One Piece, Naruto (antes de Shippuden, pelamor) e até mesmo o cenário de RPG brasileiro Tormenta. Fractal tem muito de Lost e de séries de cotidiano que eu via no SBT, embora seja uma ficção científica. Até mesmo a novela O Clone da Globo influenciou nessa história. Absolutos é permeado de elementos Shonen também, mas vai além com influências de Attack on Titan e Death Note.

Contei tudo isso pra explorar um pouco meu processo de criação. Na faculdade, tive o prazer de assistir esse documentário Everything is a Remix, que elucida muito bem como criar sobre ideias. Vejo muitos autores angustiados com travas, sem saber para onde ir com suas histórias. É simples, na minha opinião: cerque-se de tudo que lhe faz lembrar-se de sua história. As respostas estão sempre ali. É o que eu faço e tem dado certo até o momento.

Para o futuro, depois do fim de Absolutos, irei retomar os projetos de Apotheosis e Fractal, então muitas histórias ainda estão por vir, e espero que cada vez mais venham.