Satoru Iwata: da revolução nos games ao adeus

Entenda porque Satoru Iwata, presidente da Nintendo, deixa um legado de valor inestimável na indústria de games e de entretenimento em geral.

Originalmente publicado no blog Criativo Interativo em 14/07/2015.

Talvez você não saiba, mas o nome original do video game Wii era Nintendo Revolution. Em 2004, durante a E3, a mais importante feira internacional de games (e que ocorre anualmente, nos EUA), a Nintendo apresentava, pela primeira vez, não só ele, mas também o portátil Nintendo DS. Depois de lançados, eles se consagraram como os mais bem-sucedidos consoles da empresa na última década, não só posicionando a Big N de volta ao topo das vendas mundiais, como também serviram de importantes pilares de uma revolução que estava ocorrendo em toda a indústria de entretenimento interativo. Era apenas a segunda aparição de Satoru Iwata naquele evento como presidente da companhia japonesa, cargo que ele tinha assumido em 2002.

Infelizmente, a edição de 2015 da E3, ocorrida no mês passado, acabou marcando a primeira ausência (desde 2003) de Satoru Iwata no evento. Na ocasião, a Nintendo lançou um comunicado de que Iwata não poderia estar presente em Los Angeles devido a problemas de saúde, o que não impediu de ele aparecer na conferência digital que a empresa fez para o evento, dublando uma simpática versão sua (foto abaixo) em marionete produzida pelo Jim Henson Studios (dos Muppets). O que realmente ninguém esperava era a notícia de seu prematuro falecimento no último dia 11 de julho, aos 55 anos de idade. A indústria de entretenimento interativo perde uma de suas figuras mais relevantes e carismáticas, mas é preciso conhecer um pouco da história do Sr. Iwata para entender o profundo legado que ele deixa.

De desenvolvedor e game designer à executivo

Iwata começou sua relação com a Nintendo como freelancer, nos anos 80, enquanto ainda era estudante de ciência da computação no Instituto de Tecnologia de Tokyo. Mais especificamente, ele prestava serviço como programador para o estúdio HAL Laboratory (grande parceiro da Big N), onde foi contratado interinamente assim que concluiu sua graduação. Importantes games para o Nintendo de 8-bits, como Balloon Fight e NES Open Tournament Golf, foram desenvolvidos por Iwata. Desse ponto em diante ele começou a galgar seu caminho literalmente ao topo dessa empresa desenvolvedora de jogos.

Iwata parecia ter um tino especial para reverter situações adversas. O clássico EarthBound (ou Mother 2 no Japão), do Super Nintendo, por exemplo, teve um desenvolvimento complicado que se estendeu por 5 anos, quase sempre sob o risco iminente de cancelamento. Mas foi a partir do momento que Iwata assumiu tanto a produção quanto a programação do projeto, que o game, enfim, foi finalizado. Aliás, o próprio Hal Laboratory se encontrava à beira da falência quando Iwata foi promovido a presidente e CEO. A forma como ele salvou a empresa ajudou a reposicioná-la como uma das mais significativas parceiras da Nintendo e, com certeza, também serviu para dar uma noção mais concreta a respeito de seus talentos, não apenas como um programador ou um game designer, mas principalmente como executivo.

Outro grande feito de Iwata como presidente do Hal Laboratory foi produzir, para o Game Boy, o primeiro jogo do Kirby (personagem criado por Masahiro Sakurai, que se tornaria o mascote do próprio estúdio e uma franquia de grande sucesso para a Nintendo). A ideia original de Iwata era criar um game específico para iniciantes, que fosse tão simples, curto e acessível para qualquer nível de jogador. Além disso, Iwata também teve papel importante no começo da série de jogos Pokemón: intermediou a relação da Game Freak (estúdio que desenvolvia esses games) com a Nintendo; ajudou a formatar a Creatures Inc. (que produziria jogos de cartas e brinquedos dessa marca); e chegou até a trabalhar diretamente na localização e programação de algumas produções da franquia enquanto já atuava como principal executivo da Hal.

"Esse cara é um programador? Ou ele é o presidente?"
Shigeki Morimoto, game designer da Game Freak, relembrando da colaboração de Iwata

Levando a Nintendo de volta ao topo

Tamanha habilidade com os negócios e conhecimento profundo da indústria, desde o ponto de vista de desenvolvimento, acabou levando Iwata oficialmente para a Nintendo em 2000, como diretor de planejamento corporativo. Apenas dois anos mais tarde, com a aposentadoria de Hiroshi Yamauchi, que era presidente da companhia desde 1949, Satoru Iwata foi promovido para o cargo máximo da gigante japonesa de games. Veja bem como sua escolha, por si só, já foi uma revolução dentro da empresa: ela foi fundada em 1889 (fabricando um tipo bem específico de jogos de cartas, chamado Hanafuda), só teve 3 presidentes antes de Iwata (todos via sucessão familiar) e, obviamente, nenhum deles oriundo da indústria de games.

O fato é que Iwata foi promovido quando a Nintendo não estava em seu melhor momento. Há duas gerações de consoles que ela não conseguia fazer frente a marca PlayStation, da Sony, e com a chegada da gigante Microsoft no ramo, a concorrência ficou ainda mais acirrada. Mas por que continuar mergulhando em um mar vermelho infestado de tubarões lutando pelas mesmas fatias de um mercado condenado a estagnação? Publicamente inspirado pela Estratégia do Oceano Azul, Iwata promoveu uma mudança de paradigmas dentro da Nintendo. A aposta era priorizar a busca por novas e mais acessíveis formas de se jogar e interagir com os video games, para tentar não só agradar aos gamers mais entusiastas, mas tentar atrair até mesmo quem nunca demonstrou interesse por jogos eletrônicos.

Tanto o Nintendo DS quanto o Wii, com suas interfaces inovadoras para a época e custos mais acessíveis que seus competidores, foram não só líderes em seus segmentos específicos, como bateram recordes de vendas, ampliando, e muito, o mercado de jogos eletrônicos, com um público totalmente novo. E a revolução promovida por Iwata não foi só a nível de hardware, mas também de software, onde outros tipos menos tradicionais de games (como jogos musicais, de exercícios físicos e para treinar a capacidade mental) passaram a ganhar espaço entre esses jogadores novatos e mais casuais. Praticamente toda a industria de entretenimento interativo foi beneficiada por essas mudanças, de produtores de games à fabricantes de smartphones. Foi um câmbio cultural junto a pessoas que antes não se importavam com video games, fruto da ousadia do Sr. Iwata em trilhar caminhos diferentes da concorrência.

Um CEO que não tinha problemas em virar meme

Mas há um outro fator que tornava Satoru Iwata tão especial: seu carisma. Veja essas 3 imagens de algumas apresentações oficiais da Nintendo e lembre-se que ele era presidente e CEO de uma empresa com valor de mercado acima de 85 bilhões de dólares!

É bom reforçar que Iwata nunca foi extravagante, por mais que essas imagens sejam perfeitas para memes dos mais variados tipos (o que, de fato, ocorria sempre). Ele não era daqueles “showman”, com síndrome de “nunca sei qual o meu limite”. Iwata era, sim, muito simpático, de uma forma bem serena e, talvez até humilde (no sentido de nunca se colocar em um nível acima de outros profissionais da indústria). Mais importante é que ele entendeu, desde cedo, que a linguagem da Nintendo deveria ser leve, inteligível e divertida, totalmente de acordo com seus games e personagens mais marcantes. E é um tom adotado por toda a companhia, desde Reggie Fils-Aimé, presidente da unidade americana da empresa, ao lendário designer Shigeru Miyamoto e todo o time de desenvolvedores e produtores que costumam aparecer publicamente.

Além de principal porta voz da Nintendo, Iwata mesmo também fazia uma série regular de entrevistas com desenvolvedores de games lançados para seus consoles, chamada “Iwata Asks”, onde ele, com toda sua experiência como desenvolvedor e game designer, transformava cada bate-papo em um extenso case super detalhado do processo de desenvolvimento de cada jogo. Fora isso, como presidente, ele assumia publicamente a responsabilidade por qualquer fracasso que a Nintendo tivesse. Por exemplo, depois do lançamento super mal sucedido do portátil Nintendo 3DS, sem um número considerável de jogos nos primeiros meses de vida do console e um consequente prejuízo financeiro acarretado pelas poucas vendas, Iwata assumiu a culpa e cortou em 50% o seu próprio salário como uma forma de pedir desculpas ao público e aos investidores. E mais, ele recompensou todos aqueles consumidores iniciais do 3DS com vários games clássicos gratuitamente para download.

A Nintendo perde Iwata em um delicado momento de transição. O Wii teve um sucesso estrondoso nos primeiros anos mas um final agonizante, algo que ficou ainda mais evidente pelo pouco interesse que o público tem demonstrado com seu sucessor, o Wii U. A empresa também acabou cedendo, de uma certa forma, a uma pressão antiga de investidores e parte da imprensa: o desenvolvimento de games para outras plataformas que não sejam da própria companhia. Em março, Iwata anunciou o desenvolvimento de games para smartphones e tablets, que devem chegar ao mercado já a partir do final de 2015. No entanto, a Big N continua comprometida no desenvolvimento de consoles, já tendo anunciado o Nintendo NX (nome provisório), com a garantia de que ele está sendo projetado sob um conceito, até então, inédito no meio dos video games. Não poderia ser diferente, como o maior legado que Satoru Iwata deixa para essa empresa e para o mundo: de que a inovação continue permitindo novas e surpreendentes experiências para qualquer tipo de jogador.

Obrigado Sr. Iwata!

Referências do artigo: Flipboard


Atualização: Ainda não é game-over para a Nintendo!

O blog da consultoria Strategyzer, responsável pelos excelentes livros Business Model Canvas e Value Proposition Design, publicou um vídeo bem interessante em que analisa o modelo de negócios da Nintendo e sua cultura baseada em inovação como características que demonstram o quanto a empresa não deve ser subestimada e ignorada. Confira abaixo (em inglês):


Originalmente publicado no blog Criativo Interativo em 14/07/2015.