A Noite Que Não Teve Fim

Eu não queria sair àquela noite. Estava frio, em torno de uns 18 graus e iria chover, eu sabia disso. Pegar um táxi pra ir até aquele bar me parecia a pior opção a ser feita naquela noite. O melhor plano? Desligar as luzes, procurar algo decente para se assistir no netflix e adormecer enrolado nas cobertas enquanto isso. Sabe aquele sentimento de quando algo está diferente, mas você não sabe o que? Era como eu me sentia naquela noite. Algo naquela noite não estava como deveria estar, não me pergunte o porquê. Vesti a primeira jaqueta que avistei, uma camiseta antiga quadriculada e calcei minhas botas, sem pensar, quase que de forma automática. Vontade de cancelar aquele táxi não me faltava, mas ainda assim, eu entrei no táxi e segui caminho até onde todos estavam. Levei vinte minutos para chegar ao bar. Era um bar de tamanho razoável, com uma clara inspiração nos pubs ingleses. Entrei e procurei a mesa em que todos os meus amigos estavam e me sentei distraído, como sempre. Comecei a observar os rostos que estavam na mesa, alguns conhecidos, outros nem tanto. E eu vi você, sentada do outro lado da mesa, conversando com sua melhor amiga, que por alguma coincidência era minha colega de trabalho. Eu sabia que algo iria acontecer, eu não tinha certeza, mas algo aconteceu dentro de mim quando pus meus olhos em você. E eu podia jurar que você também sentiu a mesma coisa ao me olhar. Havia uma ponte entre nós dois. Eu podia sentir a nossa química antes mesmo de ter trocado uma única palavra com você. Ainda me lembro da sua jaqueta escura, do seu suéter branco em combinação com a cor da sua pele. Você tinha aqueles lindos olhos castanhos que transbordam sentimentos e palavras, mas só para as pessoas que sabem lê-los.
E eu sabia.
E como sabia.
Havia milhares de detalhes em toda aquela noite e eu poderia enumera-los a você um a um.
Mas eu não podia me esquecer de quando sua bolsa caiu no chão e eu te ajudei a juntar todos os seus pertences. Maquiagem, carteira, celular, carregador, e o mais importante objeto daquela noite: O livro. Um livro em capa dura, um pouco surrado e de espessura considerável. O grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald. Foi o primeiro momento em que descobrimos algo em comum entre nós. Sem aquele livro é provável que nunca nenhum destes acontecimentos houvesse ocorrido.
A partir daí eu puxei uma cadeira e sentamo-nos juntos, perto um do outro. Começamos a beber um pouco de vinho enquanto você me contava sobre a sua vida. Eu me dediquei como nunca a te ouvir durante aquela noite. Seu nome, sua cor favorita, suas manias, seus medos.
Tudo.
Eu te observava atentamente, como se agora eu te enxergasse em resolução total. Eu estava completamente impressionado com a sua beleza, no jeito que a sua boca se mexia, como as palavras saiam de forma mais límpida, com mais clareza, como se o seu sotaque desse um tom diferente a tudo que eu já ouvira antes. Como seu cabelo negro estava lindo, preso em um coque, com uma mecha caindo pelo lado direito, enquanto eu cuidadosamente colocava-a atrás da sua orelha.
Eu não tentei te conquistar aquela noite, pelo menos não da forma como eu tento sempre. Não tentei te impressionar, não tentei te fazer rir ou nada do tipo. Tudo que ambos sentimos naquela noite, era autentico, era único, livre de qualquer intenção ou jogo de conquistas.
Mas aconteceu.
Uma a uma as pessoas da mesa foram indo embora, até que só restávamos nós dois. Enquanto nós bebíamos varias taça de vinho, uma atrás da outra, o tempo passava.
E passava.
E passava.
Mas não da mesma forma. O tempo àquela noite tinha se transformado. Como se os milésimos, os segundos, os minutos e as horas tivessem se tornado uma coisa só. Como se agora ele fosse dividido entre os momentos ao seu lado e os momentos em que estava sem você. Como se o tempo sem você, fossem apenas horas e minutos desperdiçados com outras coisas e pessoas que não valessem a pena.
E você também sentiu isso.
O bar estava pra fechar e você roubou duas taças enquanto eu carregava o que restava da garrafa de vinho, rumo a lugar nenhum. Saímos apressados, rindo, como dois adolescentes idiotas, você segurando minha mão, guiando o caminho.
Gostei de sentir meus dedos juntos aos seus, de como aquela sensação me trazia uma ideia de paz instantânea no peito.
Lembro-me do momento em que chegamos ao parque que ficava próximo ao bar em que estávamos. De você com toda aquela animação, me contagiando com toda aquela felicidade. De como as nuvens daquela noite supostamente chuvosa, haviam sumido, revelando o céu mais estrelado que já havia posto os olhos. De como você subiu nos degraus da estatua central e começou a cantarolar, “If i ain’t got you”. Sua voz era espetacular.
E ai tudo parou.
Foi a primeira vez em toda minha vida que eu senti, de verdade, o tempo parar.
Você estava alguns degraus acima de mim, alguns centímetros mais alta do que eu. Encarando-me com aqueles olhos, com um sorriso simples, aquela linha simples com os lábios delicados. Eu com as mãos enfiadas dentro dos bolsos da jaqueta te observava da mesma forma.
Eu me aproximei de você, enquanto seus braços me envolviam acima dos meus ombros, quando minha boca lentamente encontrou a sua.
Foi o melhor beijo de toda a minha vida.
No momento que tudo aconteceu, naquele segundo, naquele instante.
Eu estava apaixonado por você, ali, naquele único momento em que o tempo parou para nos admirar.
E eu te convidei para ir a minha casa. Temendo pela sua resposta. Não que fosse a primeira vez que eu convidava alguém para ir a minha casa ou coisa do tipo. Mas pelo fato de eu querer que você fosse lá e resolvesse não ir embora nunca mais.
E você disse, “sim”.
O “sim”, mais feliz que eu já haveria de ter escutado de qualquer pessoa.
Nos beijamos varias vezes até o caminho da minha casa, andamos abraçados, colados um no outro, como se aquela fosse a melhor e única forma de se estar com alguém. E ai a gente entrou na minha casa e tudo fluiu como um rio que segue seu fluxo de forma contínua e regular.
As botas caíram no hall. Seu suéter ficou no corrimão da escada. Eu te carregava nos braços escada acima enquanto você me beijava e me entrelaçava com as pernas. Nossas calcas ficaram na porta do quarto. Minha blusa jogada ao pé da cama. Ate que enfim estávamos os dois na cama. Cada aperto, cada suspiro, cada beijo. Eu nunca havia sentido algo nem parecido.
Eu te amei aquela noite como nunca amei ninguém.
Caímos no sono, com você encostada no meu peito. Acordei momentos depois buscando onde você estava, preocupado, pensando que você havia me deixado. Visualizei todo o quarto e pus meus olhos na janela, te avistando.
Sentada, vestindo minha blusa de botão quadriculada, com as pernas nuas encarando o sol nascer aos poucos. Os raios de claridade iluminavam sua face e seu cabelo. Até hoje eu sinto seu perfume todas as vezes que visto essa mesma camiseta. Que aliás, se tornou a minha favorita. Eu sorria feito um idiota ao ver aquela cena. E você sorria de volta ao me ver te observando.
Inocente, tranquila, quase como um anjo.
O dia havia chegado.
Mas eu nunca vou esquecer aquela noite. A noite que eu jamais ousarei deixar morrer. Porque eu tive todos os motivos pra não pôr os pés pra fora de casa naquela noite. Mas você de alguma forma me colocou ali na sua frente, pronto para amar você.
E eu não posso deixar de imaginar quantas mesmas pessoas perdem essa chance.
A noite que não teve fim.
Momentos extraordinários a acontecer somente uma vez na vida de cada pessoa.
Momentos em que o tempo vai além.
Que as pessoas se transformam em uma só.
Onde os sorrisos são feitos para serem usados e as conquistas são deixadas de lado.
Onde o amor acontece.
E quanto a você?
Aonde anda sua noite infinita?
TRILHA