CAPÍTULO 4:Nada a Perder

Conversamos durante uma hora ao telefone. Era fácil conversar com ela. Combinei de levá-la até uma exposição de filmes. Não tinha como errar nessa, era a escolha perfeita. Tinha tudo que ela poderia amar. Assim que desliguei comecei a me arrumar. Olhei-me no espelho e vi como estava acabado. Fiz a barba e tomei um banho. Agora sim, agora eu estava apresentável. Abri o guarda roupa e busquei a roupa mais bonita que poderia ter ali. Basicamente um suéter azul e uma blusa de botão branca por baixo, completei com uma calça bege. Eu não me acho o cara mais bonito do mundo, mas quando quero, consigo ficar apresentável e de certa forma até charmoso. O segredo é esse. Quando você não for muito favorecido, esteticamente falando, você precisa compensar de alguma forma, por isso, se vista bem, fique apresentável. Você precisa chamar atenção de alguma forma. Ok, chega de dicas de moda.

Calcei minha bota e peguei meu celular. Encontrei minha mãe e meu pai na sala. Até eles tiveram que admitir como estava elegante. Sobrou tempo para batermos um papo. Meu pai era um homem de negócios, dono de uma empresa de sucesso, tinha muito dinheiro. Minha mãe também tinha sucesso, só que em outra área. Ela era dona de algumas lojas Starbucks na cidade. Eu venho de uma família rica e poderosa. Não se engane, não somos metidos ou coisa do tipo. Tive a sorte de ter uma família presente e com valores. Vocês se surpreenderiam com a quantidade de pessoas babacas que tem a mesma sorte que eu e encaram isso como uma divindade. Basicamente qualquer um que estudasse na faculdade que eu frequento precisa ser rico e babaca, as exceções eram raras. Perguntei a meu pai como andava a empresa e como andava o mercado, como sempre, ele deu uma aula de economia. Odiava fazer essas perguntas, mas as fazia porque sabia que ele amava responde-las. Minha mãe como sempre tentava descobrir aonde eu iria, com quem iria, se já tinha passado perfume e escovado os dentes. Ela nunca perdia essa mania de conferir se eu já tinha feito tudo antes de sair de casa.

Despedi-me deles e desci para o meu carro. Um Dodge Classic todo preto. Eu não era um cara que fosse ligado a bens materiais, mas aquele carro era exceção. Meus pais me deram quando completei 17 anos e eu lembro desde o primeiro dia que segurei aquela direção e passei a primeira marcha. Era algo indescritível a sensação de dirigi-lo. Entrei nele e me dirigi até a casa de Valentina. Ela morava a uns 15 minutos de onde eu morava. Cheguei antes da hora e fiquei esperando-a fora do carro, peguei o celular e conversei um pouco com Simon enquanto ela não descia. Às 7 horas em ponto ela desceu. Ela estava linda, exatamente como antes mais cedo, exceto que estava mais bem vestida. Eu não cansava de olhar para aquela visão. Ela era linda demais. Provavelmente vocês vão cansar de ler isso, mas é a verdade. Abri um sorriso para ela e ela me cumprimentou, abri a porta do carro para que ela pudesse entrar. Não havia nem dado a partida, quando ela falou:

-Onde será o encontro ‘lendário’ que você havia mencionado?

Não olhei pra ela, mas ri da piada. Respondi com sarcasmo:

-Vou te levar até uma exposição de filmes. Filmes. Tenho a impressão que você gosta dessas coisas. Cê gosta né? Já mencionei que vamos ver filmes?

Ela riu um pouco sem graça. Não entendi e tive que perguntar:

-Algum problema?

-Não, nenhum — ela respondeu

Ela não me passou segurança. Insisti:

- Valentina, o que houve?

Ela hesitou de inicio, mas acabou revelando:

-É que, bem… Eu já fui nessa exposição. Não fique chateado, eu vou adorar ir contigo novamente.

Ora gênio, é claro que já havia ido à exposição. Ela estuda cinema seu puto. Fiquei totalmente desconcertado. Precisei agir rápido:

-Vamos fazer assim, eu sou um completo idiota quando se trata de cinema. Que tal se você me explicasse um pouco sobre o que vamos ver hoje à noite, assim quando você falar qualquer coisa relacionada eu não vou precisa fingir que entendo. Esse foi o meu primeiro vacilo. Tenho alguns ainda pra gastar não?

Ela sorriu e concordou com a ideia. Liguei o som do carro para quebrar o constrangimento da situação. Tocava a música Let it go do James Bay. Ela aumentou o volume assim que percebeu a música. Tive que perguntar:

-Gosta dessa música?

-Amo. Escuto sempre que vou dormir. Essa entre outras.

-Que tipo de música você gosta?

-Eu gosto de algo mais calmo sabe? John Legend, Coldplay, John Mayer…. Também gosto do Maroon 5. Tem mais músicas que gosto, mas se eu começar a falar aqui não acho que vou parar hoje.

Você pode dizer muito sobre alguém, somente pelo seu gosto musical. Valentina tinha o gosto apurado. Parecido com o meu. Em minha opinião música é uma questão de humor, não há musica ruim. Há música incompreendida. Tudo bem, existem músicas ruins. Mas música varia do gosto da pessoa, por exemplo, eu não consigo me ver gostando de heavy metal, mas há uma incontável quantidade de pessoas que se identificam com aquela música.

Ela gostava de algo mais produzido, mais calmo, algo que continha sentimento nas notas e letras. Eu e ela tínhamos uma sintonia musical, o que era bom. Passei a música. Agora tocava Your Body is a Wonderland do John Mayer. Ela olhou pra mim e deu uma risada. Sorri para ela também. Me senti conectado a ela, por mais tolo que isso soe. Demorou pouco até chegarmos. Desci do carro e abri a porta para ela. Um cavalheiro né? Me deem crédito por isso. Caminhamos lado a lado até a entrada do evento. Ela envolveu o braço dela ao meu e eu não me importava. Gostei de ficar perto dela, quase colado. Eu sentia o perfume dela, o hálito gelado quando ela falava. Tantos detalhes para um observador como eu. Eu amava observar, de verdade. E Valentina tinha tanta coisa para eu me dedicar. Entender. Era envolvente mesmo quando não queria ser.

Deixei que ela me conduzisse pela exposição. Ela começou pela parte de filmes antigos, e me mostrou os clássicos que ela gostava. Começou mostrando-me ‘E o Vento Levou’, explicando a importância do filme até os dias de hoje nas produções atuais. Os olhos brilhavam quando ela falava, não brincou quando disse que amava aquilo. Eu podia ver claramente a paixão transbordando. Era gostoso aprender cinema com ela. Decidi que iria aprender pra valer aquilo. Em seguida ela me falou as curiosidades de ‘O Poderoso Chefão’, sobre sua trilha sonora e seu elenco. Dizia que a trilha sonora era uma obra prima e eu tive que concordar com ela. Eu não entendia muito sobre as técnicas de cinema, mas era inegável o peso que aquele filme tinha para a história do cinema. Seguimos nessa por um tempo, passamos por todas as grandes obras que vocês possam imaginar, desde ‘Jurassic Park’, ‘Star Wars’ até ‘O Clube dos Cinco’. Ela se empolgava e eu entrei na onda dela. Resolvi me aventurar e discuti com ela sobre as melhores trilhas sonoras do cinema. Finalmente discutimos sobre os romances:

-Na minha opinião não temos grandes filmes como antes. Faltam Clark Gable, Judd Nelson, John Cusack, Marlon Brando, Al Pacino, entre outros. Faltam personagens marcantes, faltam atos marcantes. Não se pode citar uma única cena marcante dos últimos romances que atingiram Hollywood. — Ela falava

-Eu vou ter que concordar com você nessa. E olha que eu sou o tipo de cara que assistiu ‘Quarteto Fantástico’ e gostou.

Rimos juntos nessa. Pensei no que ela tinha dito. Fiquei com aquilo na cabeça, toda a conversa sobre romances e trilhas sonoras, resolvi sugerir:

-Sei que não tem muito a ver o que vou dizer agora, mas eu vou criar a trilha sonora dos nossos encontros.

Ela me olhou e pareceu gostar da ideia.

-E como vou saber que vou gostar dessa trilha? Eu tenho um gosto apurado. E também não quero que você estrague as músicas que eu gosto. Nem os meus locais favoritos.

-Com isso você pode ficar tranquila. Vamos fazer assim, seis encontros. Você fica responsável por organizar três deles, enquanto os outros três eu cuido. Assim você também pode estragar minhas músicas e locais favoritos. Parece justo pra mim.

Ela parou e olhou pra mim, olhei pra ela de volta. Colocou as mãos nos bolsos e pensou uns segundos. Depois disse:

-Você é bom nessas coisas né? Caramba não consigo ver como uma ideia dessas possa ser ruim.

-Eu faço o meu melhor, senhorita.

Peguei a mão dela e beijei como num gesto daqueles filmes de época. Ela riu junto comigo. Sai caminhando ao lado dela e envolvi-a em meu braço. Ela olhou pra mim com um sorriso no rosto e eu não pude parar de pensar como seria acordar e dar de cara com um sorriso daqueles. Sentia vontade de beija-la, mas me contive. Não queria apressar as coisas com ela, decidi que caminharia devagar até que desse o primeiro beijo nela, antes eu conquistaria ela. Queria mostrar a ela que valia a pena estar comigo.

Saímos de lá tarde da noite, mas as ruas continuavam movimentadas pelos bares e boates que se localizavam nas ruas ao lado. Pensei em sugerir que fossemos beber algo, queria ouvir mais sobre ela. Mas desisti da ideia antes mesmo de falar. Ela teria que voltar para casa cedo, pois tinha uma reunião do clube de cinema que ela fazia parte, logo cedo no outro dia. Me senti frustrado, mas deixei pra lá. Entramos no carro e comecei a dirigir. Ela pegou um cabo na bolsa e conectou ao meu som. Mexeu um pouco no celular até encontrar o que buscava. Deu play e começou a tocar uma música que eu reconhecia. Mat Kearney, Nothing Left to Lose. Sem olhar ela disse:

-Aqui vai a primeira música da nossa trilha sonora.

Recostou o rosto em meu ombro todo o caminho e eu percebi que a trilha sonora tinha um significado. Entre notas e versos eu compreendi. Não havia nada mais a perder. Não com ela. Não com Valentina.

Trilha:

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CAPÍTULOS ANTERIORES:

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Capítulo 2: O Pingente

Capítulo 3: Escolhas

Nota do autor: O presente romance é um trabalho em andamento. Uma experiencia, postando um capítulo por vez e com um feedback daqueles que se aventurarem por aqui. Eu quero saber o que você gosta, o que você odiou, o que te fez sorrir, e o que te fez revirar os olhos ao ler cada capítulo. Qualquer critica é bem vinda. E se você quiser ler os próximos capítulos, é só clicar no botão recomendar no final.

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