Dois centímetros mais leve
Só agora senti na pele o poema de Carlos Drummond de Andrade. "No meio do caminho tinha uma pedra. Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida". Uma pedra de dois centímetros de diâmetro, situada dentro da minha vesícula.

O local em que me encontrava era o mesmo em que nasci. As pessoas, inclusive, poderiam ser as mesmas ali. Já o ritual, não. Apesar de se caracterizar como um rito de passagem, nenhum deles se dá de forma igual. Mas lá estava: minha mãe, uma vizinha antiga (que foi a enfermeira de parto) e eu. No mesmo hospital, em que resolvi nascer no dia 15. Há pouco mais de 28 anos. Diz minha mãe que no grande dia, a bolsa estourou um pouquinho antes da hora e pegou todo mundo de surpresa. Inclusive eu. Estava lá, sob as pressas, pronto para ser parido. Agora, depois já crescido, me encontro aqui novamente. O retorno [não mais para um trabalho de parto], mas para um procedimento mais simples, porém com nome complicadíssimo: colecistectomia. Ou a retirada de um cálculo biliar. Mais conhecido como a famosa pedra na vesícula, cujo o tratamento mais indicado, na maioria dos casos, é a sua retirada total.
Para quem não conhece, a vesícula é um pequena bexiga localizada pouco abaixo do fígado. Sua função principal? Dizem não ter muita serventia. E que se tiver, é para funcionar como um saquinho de lixo do ser humano. Na prática, a teoria é outra. Por isso, fui saber: é um órgão que armazena uma espécie de emulsão, que é lançada no intestino quando precisamos quebrar algum teor de gordura nesse processo digestivo. Esta não é a explicação mais científica, eu sei, mas é a forma mais compreensível que eu guardei pra mim. Junto com todas as outras possibilidades psicossomáticas, livros sobre a metafísica da saúde e alguns videos de depoimentos no YouTube.
Eu creio em tudo. Até mesmo numa pedra que fora calcificada por todas as coisas não ditas no decorrer da minha vida. E que por essa razão, se acumulam em algum cantinho do nosso organismo. De resto, o diagnóstico é quase-sempre o mesmo: tudo culpa da genética, que vem incluso nesse pacotão de dados via DNA, que vai se passando como um meme no próprio sangue. Geração após geração. Já até ouvi de uma dermatologista: às vezes não ganhamos nenhum pedaço de terra que aquele tataravô lá atrás um dia deixaria pra gente. Mas o seu código genético com alguns traços de calvície, nós herdamos sim.
Mas como todo problema de saúde, com a vesícula também é assim. Você só repara nela, quando por algum motivo a mesma deixa de funcionar. Não desejo pedras na vesícula pra ninguém, viu? E o pior é que, provavelmente seja um mal que você já tem. Só não está apto a sentir neste exato momento. Já ouviu aquela, tem que ter estômago pra aguentar? É do tamanho de uma azeitona, cristalizada de puro colesterol e inquebrável feito uma bolinha de gude. Mas deixa só ela doer. Pesa uma tonelada. Segundo o médico, a minha vesícula já não operava, podia inflamar e se complicar ainda mais.
Que peso morto no meu corpo.
Melhor tirar a pedra do caminho. E que com ela, se vá toda as crises de cólica e sofrimento sem fim, pelo simples fato de respirar.
É incrível. Há vinte oito anos pensava que estava tudo intacto, que dá até aquela impressão de sermos imune aos enfermos da vida, né? Ledo engano. Com o passar do tempo, você descobre que para se sentir menos saudável, basta ir ao médico fazer qualquer consulta de rotina, ou sem motivo aparente. Ninguém está tão bem quanto demonstra por fora ou por dentro. Foi assim, inclusive, que conheci o termo assintomático (o mesmo que sem sintomas perceptíveis). Já temia isso desde pequeno, sem saber. Nessa falta de coisa ruim que me acometia, morria de medo de ser um paciente carregando alguma ou outra doença silenciosa. Aquelas que nem se manifestam, mas que estão ocorrendo. Ou que não demonstram um real problema. Mas que fatalmente quando se dá conta, pode ser a pior delas.
Que sorte, a minha não era. Foi só remover o menor sinal de perigo. Imagino que como tudo, deve ser tipo um grãozinho de areia, que se estranhando ali ou havendo desequilíbrio, vai rolando cautelosamente até virar uma bola de neve e se alojar em alguma passagem dentro do nosso corpitcho. E se tornarem, por fim, incalculáveis pedrinhas.
Por isso faz tanto sentido a medicina preventiva. Melhor do que remediar, é prever os riscos. Sempre que possível, leve bem uma boa vida. Antes que seja logo providencial: uma bateria de exames, o diagnóstico e aquele puta frio na barriga.
Daqui já escuto a maca sendo trazida pelos enfermeiros. Pensei, deve ser a minha vez. Mas era só mais um paciente chegando para se internar no mesmo quarto que eu. O que será que ele tem? Será que ele também foi contemplado pela loteria genética da família? Com a cabeça imóvel, só podia se comunicar com o movimento dos olhos. Mais tarde descobri quem era. Um sargento policial que tinha feito uma cirurgia no meio da bunda. Perguntou meu nome e disse que a equipe médica falava sobre minha pessoa. Que eu seria o próximo paciente a ser atendido. Perguntei se falavam bem e fui respondido que sim. Que eu podia ficar tranquilo, pois ele me garantia que eu estava diante do melhor profissional do centro cirúrgico, afinal, quem ia me operar era seu irmão mais velho. Vai saber o que significava ter essa notícia. Se isso era bom ou ruim. Um médico metido com as mãos no ânus do seu irmão caçula na sala de operação, agora manipulando o umbigo de um semi desconhecido. Dizem que é preciso coragem. Mas fui sem ela e com medo mesmo. Não tinha escolha, fui com o cu na mão. Da-lhe injeção de ânimo, antes que tome conta a adrenalina. De resto, alguma quantidade de morfina alivia a bronca pós-cirurgia. Seja lá em dose de veneno ou de medicamento. Ainda assim, é dose. Não importa. Tudo vale para lidar com esse pesar descabido. O que importa é que sairei dessa. Pelo menos dois centímetros mais leve. E claro, sem nenhuma pedra no meio do caminho.

