A história dos olhos azuis e dos cabelos anelados
Ou: da aliança de amor que minha avó não tira dos dedos e da alma

Era mês de agosto e as coisas estavam indo bem. Inverno quase acabando, guerra virando História, mundo se refazendo e a mocidade vivendo o amor. Não foi diferente com ela. Não deveria de ser, pois, como disse, estava indo tudo bem.
Destino é assim, de repente você precisa consertar um par de sapatos e, logo ali na sapataria do centro, está o amor de sua vida. Eu posso até imaginar o olhar dela, algo estranho acontecendo em seu corpo jovem, de menina de família nos antigos anos 1940 e 1950. Ele era tão bonito, de olhos azuis, enormes faróis que indicavam um mundo inteiro a se percorrer, uma vida toda longa, uma promessa de família unida. Olhos azuis quase sempre baixos, talvez para encontrá-la… Porque ela é tão pequenininha.
“Você viu, que moço bonito da sapataria?”. Assim começa a aventura da vida desta pequena apaixonada.
Agosto e a vida ia calma, ia devagar com o andor, como sua mãe gostava de dizer, para garantir que o santo de barro ficasse inteiro. A vida em uma cidadezinha do interior de Minas Gerais. “Eta vida besta, meu Deus”.
O vento de inverno faz carinho nos cabelos anelados do grupo de amigas que passeiam pela noite, na praça da Matriz. A excitação das jovenzinhas é possível de ser sentida de longe. Afinal, é dia de festa, casamento de menina próxima na vizinhança.
“Hoje a gente vai aproveitar muito! A festa vai ter muita fartura e está cheio de bebidas gostosas!”, dizem animadas.
A noite “vai indo” e o destino, costurando sorrisos futuros, lágrimas necessárias e tudo aquilo que vem no pacote do “deve ser”. Sim, naquela noite de agosto, finalmente, os olhos azuis dançaram com a pequena de cabelos arrumados durante o baile. E tanta dança, tanto calor compartilhado, mas, no final, só os dois souberam, ninguém percebeu…
Todo o tempo do mundo coube naqueles olhares. Todas as promessas de amor couberam naquela valsinha. Toda uma história coube naquela noite de agosto.
Então, o mês de setembro chega. Tempo perfeito para flores e amores brotarem, florescerem. Os tempos são outros, as pessoas respiram romance. Assim, na pracinha do Rosário, abaixo do padroeiro da cidade, a mocinha e o rapaz se encontram e se sentam no banco, dividem o espaço e o tempo. Mãos dadas.
Não existem muitos clichês, tudo cabe na história do recém-chegado do tiro de guerra e para uma jovem de cabelos anelados. Nada é demais piegas, nem o amor, para os filhos das Marias Augustas. Sim, descobrem-se compartilhando não só o espaço e o tempo, como também o nome de suas mães.
“Será o destino?”, pensam quase em prece.
Sim. Depois disso, uma vida inteira aconteceu. Três meses após decidirem dar-se mãos, entrelaçar dedos, Jair Soares da Silva e Benedita Porto subiam ao altar permitindo que histórias sem fim viessem ao mundo.
Essa é a história da minha família. Uma parte da minha história. Foi assim que começou o amor entre meus avós maternos. História que eu ouvi pela primeira vez esses anos atrás, enquanto conversava (como todos os dias fazia) com a minha avó Didi, ao celular, durante um intercâmbio a Londres.

Esta minha vó tão pequena, mas tão querida, que, tantos filhos e tantos netos depois, encontrou-me sentada, mãos no queixo, pronta para ouvir o infinito que cabe em seus anos vividos.
Demorei 21 anos para descobrir como e quando tudo começou. Como o amor surgiu na vida da minha avó que, mesmo após 20 e tantos anos da morte do meu avô, ainda carrega em seus dedos envelhecidos — não só um anel, mas também muita saudade. Uma aliança de amor.

