A história dos olhos azuis e dos cabelos anelados

Ou: da aliança de amor que minha avó não tira dos dedos e da alma

Vão da porta
Jul 26, 2017 · 3 min read

Era mês de agosto e as coisas estavam indo bem. Inverno quase acabando, guerra virando História, mundo se refazendo e a mocidade vivendo o amor. Não foi diferente com ela. Não deveria de ser, pois, como disse, estava indo tudo bem.

Destino é assim, de repente você precisa consertar um par de sapatos e, logo ali na sapataria do centro, está o amor de sua vida. Eu posso até imaginar o olhar dela, algo estranho acontecendo em seu corpo jovem, de menina de família nos antigos anos 1940 e 1950. Ele era tão bonito, de olhos azuis, enormes faróis que indicavam um mundo inteiro a se percorrer, uma vida toda longa, uma promessa de família unida. Olhos azuis quase sempre baixos, talvez para encontrá-la… Porque ela é tão pequenininha.

“Você viu, que moço bonito da sapataria?”. Assim começa a aventura da vida desta pequena apaixonada.

Agosto e a vida ia calma, ia devagar com o andor, como sua mãe gostava de dizer, para garantir que o santo de barro ficasse inteiro. A vida em uma cidadezinha do interior de Minas Gerais. “Eta vida besta, meu Deus”.

O vento de inverno faz carinho nos cabelos anelados do grupo de amigas que passeiam pela noite, na praça da Matriz. A excitação das jovenzinhas é possível de ser sentida de longe. Afinal, é dia de festa, casamento de menina próxima na vizinhança.

“Hoje a gente vai aproveitar muito! A festa vai ter muita fartura e está cheio de bebidas gostosas!”, dizem animadas.

A noite “vai indo” e o destino, costurando sorrisos futuros, lágrimas necessárias e tudo aquilo que vem no pacote do “deve ser”. Sim, naquela noite de agosto, finalmente, os olhos azuis dançaram com a pequena de cabelos arrumados durante o baile. E tanta dança, tanto calor compartilhado, mas, no final, só os dois souberam, ninguém percebeu…

Todo o tempo do mundo coube naqueles olhares. Todas as promessas de amor couberam naquela valsinha. Toda uma história coube naquela noite de agosto.

Então, o mês de setembro chega. Tempo perfeito para flores e amores brotarem, florescerem. Os tempos são outros, as pessoas respiram romance. Assim, na pracinha do Rosário, abaixo do padroeiro da cidade, a mocinha e o rapaz se encontram e se sentam no banco, dividem o espaço e o tempo. Mãos dadas.

Não existem muitos clichês, tudo cabe na história do recém-chegado do tiro de guerra e para uma jovem de cabelos anelados. Nada é demais piegas, nem o amor, para os filhos das Marias Augustas. Sim, descobrem-se compartilhando não só o espaço e o tempo, como também o nome de suas mães.

“Será o destino?”, pensam quase em prece.

Sim. Depois disso, uma vida inteira aconteceu. Três meses após decidirem dar-se mãos, entrelaçar dedos, Jair Soares da Silva e Benedita Porto subiam ao altar permitindo que histórias sem fim viessem ao mundo.

Essa é a história da minha família. Uma parte da minha história. Foi assim que começou o amor entre meus avós maternos. História que eu ouvi pela primeira vez esses anos atrás, enquanto conversava (como todos os dias fazia) com a minha avó Didi, ao celular, durante um intercâmbio a Londres.

Não estão todos, mas parte da família construída pela Didi e pelo Jair ❤

Esta minha vó tão pequena, mas tão querida, que, tantos filhos e tantos netos depois, encontrou-me sentada, mãos no queixo, pronta para ouvir o infinito que cabe em seus anos vividos.

Demorei 21 anos para descobrir como e quando tudo começou. Como o amor surgiu na vida da minha avó que, mesmo após 20 e tantos anos da morte do meu avô, ainda carrega em seus dedos envelhecidos — não só um anel, mas também muita saudade. Uma aliança de amor.

CRÔNICAS

Crônicas para instigar. Contos para envolver. Ficção para entreter.

Vão da porta

Written by

Crônicas, contos, resenhas e rabiscos. Por Ana Lis Soares.

CRÔNICAS

CRÔNICAS

Crônicas para instigar. Contos para envolver. Ficção para entreter.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade