Achados e perdidos

Leandro Marçal
Jul 23, 2017 · 2 min read
Esse caminho é estranho, mas é um caminho. Foto: Meu sonhar.

Faço parte daquele grupo de seres humanos completamente desengonçados, que não consegue andar dez ou vinte metros sem tropeçar, esbarrar em alguém ou derrubar algo. Cansei de perder dinheiro e objetos na rua, como meu RG em sua quinta ou sexta via.

Já gastei algumas boas horas de vida — e por que não dias? — procurando algo que estava na minha cara, irritando completamente quem chegou para ajudar e encontrou o que buscava em menos de dez segundos.

Foi em um desses tropeços que deixei por aí minha capacidade de torcer. Não falo de futebol, mas sobre a vida mesmo.

Não consigo esperar nada de bom que possa vir pela frente. Também não falo de fé ou crenças individuais, mas do vazio que deixa meu olhar cada vez mais oco de perspectivas.

Se o otimista vê o copo meio cheio e o pessimista meio vazio, não olho para o copo. A desgraça e a tragédia não me surpreendem mais. As dádivas tampouco são esperadas.

Sinto como se estivesse em um lugar todo preto ou branco, sozinho e sem nada ao meu redor, apenas olhando.

Esperar pelo melhor virou ilusão e o pior é indiferente para mim. Nada parece me surpreender, tudo é possível e deve ser ponderado.

Na linha reta que liga dois caminhos, virei um ponto em meio a tantos outros, desses que ninguém repara, pois há algo de melhor passando do outro lado da rua.

Ignoro boatos, desprezo status, não me preocupo com o que pensam. Só pego uma mochila invisível e vou caminhando sem saber o destino, numa jornada que não me satisfaz, nem decepciona.

Decepção, aliás, algo inerente a nós, seres humanos. Qualquer uma, vinda de todos os lados dos que me cercam, é encarada com naturalidade.

Fui me conformando com minha irrelevância dia após dia. Apenas ocupo meu lugar aqui, no meu canto, na minha, sem incomodar ninguém, sem ferir meus princípios. Vou buscando tomar atitudes que gostaria que tomassem comigo, mas sem contar com isso. Faço minha parte, nada mais.

Vejo a realidade ácida, nua e crua como ela é. Só sei observar.

Não há ilusão de otimistas ou carência de atenção dos pessimistas. Não há torcida contra ou a favor de nada. Só há vazio.

Vou caminhando aos tropeços, como de costume. Tomo cuidado para não quebrar nada enquanto espero o próximo estrago que farei.

Se alguém achar essa minha capacidade de torcer por aí, favor entrar em contato.

CRÔNICAS

Crônicas para instigar. Contos para envolver. Ficção para entreter.

Leandro Marçal

Written by

Um escritor careca e ansioso. Autor de “De Letra: o futebol é só um detalhe” e “No caminho do nada”. Cronista no Tirei da Gaveta (www.tireidagaveta.com.br).

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