Aqui, adjunto adverbial de intensidade
Ou: se estamos ou não, tudo é apenas um modo de pensar

Foi ele quem havia lhe ensinado que “aqui” não era adjunto adverbial de lugar. Mas de intensidade.
Brincavam com essa coisa de ser leve, livre e solto na vida, na ideia de uma leveza sustentável e de ser peso apenas quando eram mais corpos do que alma, coisa animal de se amarem, dividirem o suor da vontade.
Nunca quiseram estabelecer rótulos para si nem para o mundo, viviam numa espécie de embriaguez consciente, escolhida. Somos aqui. Não sentiam a real necessidade de assinarem em lugar algum que, sim, eles escolheram que sim. Não encontravam sentido em confirmarem para o mundo o mundo que se passava entre seus olhos, suas mãos, seus sexos. Somos, apenas somos, e estamos aqui.
Aprendera muito com ele, com sua magreza de gente, seu corpo esguio, longas pernas em jeans surrados, camisetas sempre largas. Observava-o com vontade, amava o modo como estalava os dedos longos, longuíssimos, as unhas sempre cortadas a roçar pela barba, sempre a fazer. Sentia prazer em vê-lo arrumar os óculos redondos no rosto masculino, acreditava que era seu melhor modo de pensamento. Era algo natural, os longos cabelos jogados, desfeitos pela vontade de criar alguma coisa.
Ela também sabia o que lhe agradava, fazia tudo como um modo de vê-la refletida em suas lentes arredondadas: andava de camiseta e calcinha, lavava os cabelos e os deixava lentamente a secar com a noite, com as mãos dele que acariciavam as madeixas molhadas. Também sabia como lhe agradava admirá-la feminina, passando o hidratante de morango nas pernas, enquanto ele quase tirava todo o creme com a língua.
Se amavam, mas não cabiam tais palavras na rotina. Estavam e eram ali. Apenas isso. E tudo isso.
Não gostavam de se encaixar no mundo. O mundo tão doido, tão doído. Deveriam ser diversidade, passaram por muita coisa antes de, sim, dizerem sim um ao outro com o desejo suficiente para dividirem a cozinha, a sala, o quarto, a cama.
Da leveza do sono que tinha, um dia acordou assustada. Ele a chacoalhava com um olhar fundo, a espera que não pode existir. Não sabia o que acontecia, não soube dar nome. O coração, de repente, batia milhares de vezes por segundo, a cabeça explodindo numa dor constante. Do pouco que lembra, saiu gritando pelo corredor do prédio, portinhas se abrindo na madrugada gelada.
Gelada? Ou seria o medo que a consumira? Os pés descalços no piso de porcelanato, o cabelo ainda úmido. O rosto molhado. Então, tudo foi um furacão. Ela foi sendo levada pelos passos apressados de vizinhos despertos. Tinha certeza de que estava acordada, de que gritava, de que chorava, de que tinha medo e de que sentia dor. Mas não sabia dar nome àquilo. Não ouvia nada, era puro silêncio que a consumia, subindo pelos dedos dos pés e caminhando para o corpo trêmulo. Sentia como se sonhasse, se não conseguisse chegar a lugar algum.
Alguém a puxou para um sofá estranho, a cobriu, pois era uma quase nudez no corredor. Revelada, sangrando. Pediram para que colocasse uma calça de moletom rápida, ao alcance, um chinelo. Foi sendo transportada para um novo lugar.
Agora, lembrava de tudo isso sem poder abrir a boca, dar uma palavra. Nem escrevê-las conseguiria. Respirava o ar do apartamento vazio, sem seu corpo magro e seus óculos redondos.
Desse modo, pensava: o que é aqui? Tentava se lembrar dele, de sua boca carnuda dizendo: aqui não é lugar, é intensidade. Então, ele sempre será aqui.
Passou a mão na barriga redonda. Sentiu, assim, que ele vinha caminhando para perto, bem perto, dentro.
“Estamos aqui, meu bem”, pensou rápida. Ela, grávida de sua existência.

