Eu Só Existo às Terças-feiras 15
Capítulo 15: Joia Epifânica

Meditar se provou produtivo nas minhas últimas tentativas.
É por isso que estou outra vez sentado, com as pernas cruzadas e controlando minha respiração, agora na grama do pequeno jardim de casa.
A manhã está bem tranquila e agradável, com um cheiro de mato e sereno remanescentes da madrugada, mas com um céu azul e um sol morno de começo de dia. Isso facilita bastante a difícil tarefa de tentar me desligar do mundo externo e me focar em mim.
Quando buscava Quinta, o que fazia era tentar fisgar emoções e memórias de minha contraparte das quintas-feiras. Era um avanço, comparado com a mureta mental absoluta com a qual nos habituamos; mas o que eu quero buscar agora é ainda maior do que isso.
Se a tal da epifania que Segunda me contou for verdadeira, talvez represente nosso único pensamento absolutamente saudável: a única linha de raciocínio que tivemos que, sem que tenhamos sequer percebido, passou por cima de todas as nossas muretas mentais. A única criação conjunta de todas as sete personalidades. A única amostra do que seríamos se fôssemos todos juntos.
É muito mais difícil do que pensei (e já tinha sido pessimista no que pensara) buscar por isso. O maior desafio que enfrentei até então, ir atrás das memórias de nossa ruptura, agora parece pouca coisa. Antes, ao menos sabia o que estava procurando. Agora, só o que tenho são as muito vagas instruções de um Segunda sonhado que não tenho nem mesmo como garantir com absoluta certeza que seja Segunda de fato.
Três dos dias parecem estar mais intimamente ligados com esta questão. O primeiro deles é Sábado. “Foi Sábado quem fez a pergunta, mas aquele que achou a resposta nunca levou de volta para ele”, Segunda havia me dito. O segundo deles é Sexta. “Quem sabe melhor, por enquanto, é Sexta”, foi como minha contraparte das segundas-feiras havia descrito, sem dar maiores explicações.
E o terceiro sou eu. “Agora você entra. Você vai levar aquilo lá de volta para o Sábado”, Segunda garantira. O que diabos é “aquilo” ou como eu posso levá-lo de volta para Sábado, isso Segunda não se deu ao trabalho de me contar.
Não faço ideia do que buscar. Uma emoção? Um pensamento? Uma memória? A única referência que tenho é um gigantesco Sol sonhado pairando sobre uma campina. Engulo seco, considerando que talvez minha loucura esteja se acentuando mais e mais, dados meus novos objetivos. Agora escuto seriamente conselhos dados por sonhos…
“Ele fazia a mesma coisa”, escuto uma voz grossa dizendo atrás de mim. Abro meus olhos, viro a cabeça e vejo o Pai apoiado no vidro da porta que dá para a cozinha de casa. Ele está com uma caneca de café na mão. Eu suspiro fundo, um pouco contrariado por ter meu sossego e minha meditação interrompidos.
“Ele quem?”, eu me permito perguntar já imaginando a resposta. E por isso complemento, com uma ironia amarga: “seu filho favorito?”
“Meu filho único”, o Pai responde, deixando um sorriso entristecido escapar.
A resposta me atinge como se fosse um murro. Não consigo evitar a revolta por ter minha existência tão absolutamente ignorada, considerada simples sintoma de doença. O que Sábado fez para merecer essa predileção toda?
“Por que você é assim tão parcial?”, eu pergunto, subindo um pouco o tom de voz.
O Pai sai da cozinha, caminha lentamente e se senta na grama ao meu lado. Sorve um gole de café e solta um “ahh” de satisfação. E só daí me responde:
“Ele se sentava todos os sábados no jardim e ficava horas sozinho, atormentado e pensando. Eu percebi que algo estava errado e foi quando começamos a conversar mais, até ele acabar admitindo a situação mental em que vocês vivem. Foi o único que foi sincero e foi o único que quis buscar ajuda.”
“Porque queria matar todos os outros!”, respondo indignado.
“Ele quer matar seis. Você quer matar sete”, o Pai retruca. Engulo seco. Tenho tanta raiva que gaguejo, incapaz de encontrar resposta. Antes que consiga desenvolver algo para devolver, ele me corta e prossegue:
“Você nunca vai entender. Você não estava lá, não é mesmo?”
Não, eu não estava. Mas começo a ser capaz de ligar os pontos. Sábado é a compensação de medo em resposta às máscaras de mentirosa autossuficiência de Viktor. Enquanto todas as outras versões simplesmente seguiram suas vidas e se viraram sozinhas, acostumando-se ao novo contexto de nossa doença e ruptura, Sábado não foi preparado para tudo isso: como eu, ele nasceu por acidente. Não fosse ele e sua existência desesperada, Domingo não teria nascido como organizador para compensá-lo e superá-lo, também sem possuir o egoísmo supostamente autossuficiente e independente de todos os outros. Sem Sábado não haveria Domingo e sem Domingo não teria sequer existido uma comunicação entre os dias da semana.
Para mim, Sábado pode parecer um vilão. Para o Pai, ele é mais uma vítima. O único que demonstrou fragilidade. O único que foi aberto com a própria família sobre nossa difícil condição. O único que buscou ajuda externa.
Mas isso não o coloca na posição de ser o Viktor original. Nem lhe dá o direito de matar todos os outros seis.
Eu refletia introspectivo e o silêncio havia crescido enquanto Pai me encarava sorridente e sorvia de sua xícara de café. “Você esta errado” é o que digo, com convicção, mas em voz baixa, para quebrar o silêncio.
“É mesmo?”, o Pai me responde com seu rotineiro tom condescendente. “Então prove”, conclui, e me fita profundamente com seus olhos bondosos.
“Só posso provar se você me ajudar também”, consigo rapidamente devolver, ríspido.
“Como?”, o Pai pergunta, arqueando as sobrancelhas.
“Conversando comigo. Contando para mim sobre Sábado. Eu quero ajudar ele também, sabia? Você não leva em consideração, nem por um segundo, que talvez ele esteja errado?”
O sorriso do Pai se desarma. Achei um ponto fraco para explorar: ele também está tomado de incertezas, do mesmo jeito que todos nós. Que bom.
“E se você estiver cometendo um engano terrível?”, eu emendo. Ele franze o cenho. Vejo que fecha a mão com um pouco mais de força ao redor da sua caneca.
“Está bem”, concorda, finalmente se dando por vencido. “O que você quer saber?”
Vitória. Não deixo a alegria por isso ser demonstrada. Firme e sério, sei exatamente do que quero que ele me conte:
“Do que é que você e Sábado conversavam quando ele admitiu que estava em crise?”
O Pai repousa sua xícara, já seca, no gramado. Ajeita sua posição, virando para olhar novamente, ainda mais intensamente, no fundo dos meus olhos.
“Ele queria descobrir como se curar. Tinha medo da loucura que estava vivendo… da proporção que a doença estava tomando. Tinha medo de como sua vida podia ser afetada por tudo isso. Tinha medo de não ser levado a sério quanto contasse para os outros. Estava sofrendo com uma crise existencial horrorosa e se perguntando quem era, se ele era mesmo real. Não conseguia se identificar com vocês, as maluquices que invadiram sua vida nos outros dias da semana, mas não conseguia também se identificar com quem tinha sido antes disso tudo começar.”
É claro que não conseguia, pensei, mas não disse. Só o Viktor original conseguiria fazer estas duas coisas. Sábado não conseguia se identificar com quem fora antes disso tudo começar simplesmente porque ele não era esta pessoa: era apenas uma fração dela. Percebo que, após entender o processo de nossa cisão, compreendo agora que Sábado ter memórias pré-ruptura não é nada demais. E se ele também conhece nosso processo de cisão, sabe disso tanto quanto eu. Nesse caso, sua vitimização com o Pai se torna mais manipuladora e mentirosa ainda.
Mas preferi não dizer nada disso. Ao menos, não ainda. Espero que o Pai continue.
“Teve um dia específico que foi a última gota. Ele ficou sentado aí, exatamente como você está, a tarde toda. Quando começou a anoitecer, começou a chorar. Levantou, foi para o quarto, escreveu sobre os seus questionamentos. Voltou para o jardim depois disso, aparentemente aliviado. Mas na semana seguinte, quando a situação ameaçou piorar de novo, ele sabia como ia se sentir horrível se deixasse isso acontecer. E foi então que ele me contou tudo e pediu ajuda.”
É isso. Consegui o que precisava. Agradeço ao Pai pelo que disse e me levanto. Ao abrir a janela de vidro que dá para a cozinha, viro e vejo o homem sentado na grama, reflexivo, encarando com seus olhos castanhos o fundo vazio de sua xícara.
“Você ganha de qualquer jeito quando aposta nos dois times em campo”, é como me despeço dele antes de ir embora; vejo ele sorrir por detrás de seu bigode. Prefiro não me comprometer arriscando contar mais daquilo que sei. Aprendi com meus erros antigos.
Subo para meu quarto correndo. Abro o nosso notebook e digito a senha. Ignoro os registros diários adulterados de Fim de Semana: já estou grandinho demais para me preocupar com eles. Dessa vez, estou aqui para buscar outra coisa. Muito mais antiga e muito mais importante.
Demoro muito tempo para encontrar o que quero. Duas horas, dezenas de pastas e centenas de arquivos de texto depois, eu grito “Arrá!” ao me deparar com o texto de desabafo de Sábado, seu primeiro grito por ajuda, escrito muito tempo atrás.
Sinto pena verdadeira do que vejo. É um ajuntado de umas dez páginas repletas de desespero, dúvida e pessimismo. “O que posso fazer agora que encontrei todas as mais profundas questões da minha vida, mas não sou capaz de sequer imaginar um caminho para responder qualquer uma delas? Sobra viver assombrado por não saber…”, dizia um dos trechos menos cansativos.
Passo o resto da tarde sozinho no quarto, olhando para o teto e pensando sobre o que achei. A única distração que tenho de minha cabeça é uma rápida conversa com Bia por mensagens, mas ela é curta nas respostas. Eu a tranquilizo garantindo que estou bem e estranho um pouco seu comportamento distante, apesar de compreendê-lo: imagino que tenha alguma relação com a difícil conversa que ela prometera ter com Quarta em nosso encontro da semana anterior. Sei que quando estiver pronta para conversar comigo sobre isso, ela o fará.
Só tomara que até lá eu ainda esteja aqui. Entristecido, suspiro lembrando com saudades de minha vida anterior a este nosso tempo de guerras internas, quando conseguia ter dias normais e tranquilos e me divertir com coisas banais como ver filmes e ler revistas em quadrinhos. Agora, todo momento consciente para mim é uma corrida contra o tempo. A cada segundo acordado, estou imerso em nosso conflito. E é assim seguirei, tentando lidar com nossa crise, até morrer e ser substituído por Fim de Semana ou conseguir nos curar. Daqui para frente, é tudo ou nada. Por bem ou por mal, a única certeza que tenho é de que nada nunca mais vai voltar a ser como era.
Fico perdido em pensamentos sobre isso até o início da noite, quando volto para o computador e ligo para meu psicólogo. Vejo seu rosto redondo e barbado sorrir para mim no vídeo no canto da tela quando atende a chamada.
“Olá, Viktor”, é como David me cumprimenta, bondoso.
Respondo com certa secura, ansioso para contar tudo que descobri. Pergunto da última semana e descubro que, exceto o sucesso de Segunda no dia anterior, pouca coisa mudou no resto do cenário.
Digo para o psicólogo que quero buscar a epifania. Ele diz que a escolha deve ser minha e sei bem porque não me aconselha abertamente: fazê-lo é extremamente perigoso.
Aceno a cabeça garantindo que vou tentar. Coloco o notebook de lado, deito na cama e tento relaxar, começando a respirar lenta e profundamente.
Muito bem. A pergunta que Sábado fez eu já achei. Sei exatamente qual memória buscar.
Fecho os olhos. Minha espinha arrepia por um segundo. Não seria muito arriscado? Se estiver errado e essa memória não for parte da epifania que une a nós todos, estarei somente invadindo Sábado e me tornando ainda mais frágil. É quase suicida. Posso acabar exatamente como Domingo.
Mas se a memória for verdadeiramente um fluxo que liga nós todos, terei a chance de criar um vínculo com algo extremamente poderoso, uma linha de raciocínio que ligou a todos os dias da semana. Se a epifania do sonho for real, entender o que aconteceu é o primeiro passo para levar a resposta de volta para Sábado e fechar este ciclo. E é o mais perto que já chegamos depois da cisão de falar com o Viktor de verdade. É minha única e melhor esperança para lidar com Sábado. É a única chance que tenho de levá-lo a me ouvir e entender, de fazê-lo colaborar conosco.
Pois é, é bem importante. Não tenho como deixar essa chance escapar.
É pensando nisso que consigo tomar coragem para me arriscar de verdade e mergulhar na tentativa, perdendo o referencial de espaço e barulho, esquecendo que David me observa do notebook, esquecendo do mundo inteiro. Medito intensamente a respeito do que ouvi do Pai e do que li, tentando buscar não as memórias de Sábado, mas seus sentimentos. Sua agonia, sua crise existencial, seu conflito interno, seu medo.
Encontro tudo.
Sou afogado pelas emoções. Sinto falta de ar, sinto meus músculos enrijecerem, sinto meus olhos lacrimejarem, sinto minha nuca arrepiar e sinto frio. Tanta dor, tanto medo, que a emoção parece física: sinto quase como se estivesse imerso em um lago congelado.
E essa é só a primeira camada. Encontro a razão pela qual toda essa dor tomava Sábado: um vazio, um horrível vazio, um desolador e absoluto vazio, um buraco negro de vácuo no fundo de nossa alma. Uma indiferença apática de morte, pior que qualquer dor.
Mas…
De repente, mudo de posição. Não estou mais vivenciando tudo isso. Agora sou um observador que entende o conflito visto de fora, com calma e neutralidade. Sou Domingo, vendo no dia seguinte o horrível estado mental da crise existencial de Sábado no dia anterior.
Sou a postura analítica de Domingo, tentando lidar racional e civilizadamente com o problema. Sou sua mente afiada buscando respostas para o vazio da alma como se lidasse com equações matemáticas. Sou Domingo tentando organizar o caos mental de alguma maneira. Tentando transmutar pânico em ordem, tentando extrair alento e raciocínio da mais pura, caótica e terrível emoção.
Sou Segunda, logo depois, desprezando tudo isso. Desprezando a tentativa de Domingo de simplesmente raciocinar o caos e as emoções. Se Sábado se aterrorizava com o vazio, Segunda se identifica com ele. Sou Segunda desprezando a postura analítica, a impessoalidade racional, sou a revolta de Segunda para com toda a dinâmica imatura que permeia os outros dias. Sou Segunda sentindo coisas que mente que não sente. Sou sua negação ao fato de que a linha que o separa de Sábado é tênue. Sou sua apatia tanto para a dor de dois dias antes quanto para com a tentativa de compreendê-la do dia anterior.
E então sou eu, Terça.
Lembro-me, com excitação eufórica, do exato dia em que acordara estranho. Um desconforto pouco usual que parecia não ser meu. Uma canseira mental, uma amargura, uma série de raciocínios tentando domá-la e, enfim, um niilismo absoluto. E deixo minha contribuição para a linha inteira: esperança de que aquilo passaria. Esperança de que pudesse ser resolvido, de que aquele sentimento fosse embora. Esperança de outros dias bons do porvir. Ingênuo, sim, mas poderosamente esperançoso. Onde havia amargura, raciocínio e niilismo, eu adicionei o ingrediente da esperança.
E daí passo a ser Quarta, com o amor para tratar a questão com todo carinho na busca por resolvê-la. Se sentira frio ao encarnar Sábado, sinto agora uma onda de calor tomando meu corpo e meu coração batendo mais rápido no peito, suor descendo da testa. Sou sua ação para solucionar a crise, feita pelo desejo de se curar para os outros. Sinto-me inundar inteiro com sua compaixão. Onde eu só fui esperançoso e passivo, é Quarta quem inicia verdadeiramente a ação de desenlaçar os complexos laços do raciocínio. É ele quem começa a esboçar as respostas para as perguntas da crise existencial de Sábado.
E então sou Quinta. Poderoso, sei que sou capaz de qualquer coisa. Invencível. Sou Quinta resolvendo o conflito como se não fosse nada demais, dançando por entre os pensamentos e palavras como se fosse fácil. Sou sua força e talento inato, sua capacidade e inteligência. Sinto meus músculos enrijecerem, sinto vontade de gargalhar, sinto orgulho e desejo.
Enfim, sou Sexta eufórico pela sua epifania que não sabe de onde veio. Sexta, o rebelde, que acredita ter chegado a tal beleza sozinho. Sou Sexta que recebeu de bandeja a mais linda das emoções e o mais completo dos pensamentos que todos os outros seis irmãos contribuíram para construir, mas que nada fez além de tomar posse de todo esse esforço e julgá-lo seu. Sou um sortudo Sexta, um deslumbrado Sexta, chorando e gargalhando ao mesmo tempo pela beleza que vê, desejando guardar tudo isso como o que lhe faz especial bem no fundo do peito, como se uma confirmação divina de meu papel de herói. Sou um Sexta que rouba para si a epifania e a conclusão. Que pretende usar dessa joia para incitar uma revolução entre os dias e tornar-se líder dessa mudança.
E então volto para mim, indignado.
É por isso que Sexta sabe da solução que sabe a respeito de nós todos termos que nos juntar. É por isso que Sábado rejeita tudo isso e é como é.
Gaguejando e tremendo de euforia, conto tudo para David me atropelando de ansiedade.
“E agora, o que você pretende fazer com tudo isso?”, o psicólogo me pergunta.
E eu sei exatamente qual é a resposta. Estou mais convicto, esperançoso e animado do que nunca.
“Escrever tudo e dar pro Fim de Semana ler. Devolver para ele a resposta que nunca conseguiu para a pergunta que fez.”
David sorri e acena com a cabeça, satisfeito. Eu me despeço dele, desligo a chamada e abro um documento de texto.
“Joia Epifânica” é o título que dou para a epopeia que estou prestes a escrever. Sei que será um texto bem grande.
É bom começá-lo logo. Quanto mais cedo Sábado puder ler, melhor.
Mãos no teclado. Começo a digitar freneticamente.

