Eu vi a sua foto no Instagram.

Sentimentos e relações são coisas estranhas. Às vezes você fica sem contato ou sem pensar na pessoa por dias, meses, anos; até que no momento em que menos se espera, algo bate fundo na sua alma — ou no seu cérebro — e um tornado de emoções aflora de repente. Tudo por conta de uma foto no Instagram.

No poema “Scars”, Ruddy Francisco diz:

“You wanna know how I got these scars?
I ripped every last piece of you out of my smile.”

E mais adiante completa:

“I got these scars the day I fell in love with you.
I landed face first.”

Se apaixonar é estar preparado e aberto a novas cicatrizes e para cair de cara primeiro. E quebrar a cara primeiro.

A minha maior luta interna depois que eu amadureci o suficiente pra entender como as coisas funcionam, foi com o meu ego. A maioria dos caras simplesmente acredita que apenas o fato deles estarem “afim” de uma mulher e serem legais com ela, automaticamente deveria significar que elas lhes devem fidelidade sexual e emocional. Sempre tentei, e acho que consegui, fugir disso ao máximo. É uma luta interna e silenciosa que eu travo diariamente na esperança de um dia conseguir entender que a outra pessoa passou; que ela escolheu outro rumo, outro amor, outra vida. Tudo longe de você (de mim, no caso).

E não foi por mal.

Vocês não brigaram, vocês não discutiram, vocês não se xingaram, vocês sequer discordaram se foi golpe ou não (claro que foi). O problema foi que, simplesmente, a vida de um de vocês dois era incompatível com o momento em que se conheceram. Ou algum dos dois queria algo além do que o outro queria.

Seja lá o que isso for.

Relacionamentos passados podem ter moldado aquela outra pessoa do seu lado de forma diferente que moldaram você e, por isso mesmo, feito aquela pessoa enxergar a vida com outro filtro.

Acontece.

Ninguém tem culpa.

Mas basta uma olhada naquela foto no Instagram que você sente o coração acelerar e a boca secar. E é assim: sem mais nem menos. Você “dá like” na foto, vê o coração surgir na tela e vai dormir pensando nela.

Acontece.

Deitado você pensa que podia ter aproveitado mais aqueles poucos momentos juntos, que poderia ter feito isso ou aquilo de outro modo, que poderia ter se apegado menos, quem sabe, e tornado o esvanecer de toda a (as vezes micro) relação menos traumático.

A questão final, porém, permanece: não é tristeza, não existe raiva ou mágoa, muito menos ódio. Apenas vontade de estar junto de novo; uma vontade que cede aos poucos ao sentimento de nostalgia de algo que passou e que foi sim muito bom, ainda que tenha terminado sem que alguém tivesse dito isso de forma cabal (muitas vezes não precisa, a distância das respostas, a falta de contato e o próprio esvanecimento das conexões torna isso claro para ambos) mas que terminou e que agora será uma lembrança no fundo da memória (e que as vezes vai ser reativada por uma foto, um perfume, uma música).

CRÔNICAS

Crônicas para instigar. Contos para envolver. Ficção para entreter.

Paulo Pilotti Duarte

Written by

@paulo_pilotti

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