Homem ao mar!

Homem ao mar é seguramente o momento mais estressante da navegação em geral, pelo que é necessário preparar-se para essas situações e ensinar a equipagem a reagir em consequência.

Anderson Carvalho
Aug 9, 2017 · 3 min read
Photo by Jonny Clow on Unsplash

Essa é uma carta para escritores, essas criaturas meio esquisitas e observadoras, que de todas as inutilidades escolheram a literatura como predileta.

Nunca fui bom em matemáticas, portanto acredito que dividindo minhas angústias é possível que se multipliquem as conclusões. Se é que há tempo suficiente nessa vida para qualquer coisa ser concluída, além da própria.

Entendam, por favor, que nenhuma destas perguntas é retórica. Levem o tempo que precisarem, mas não deixem sem amparo esse sr. Kappus pós-moderno que vos fala.

Para começo de conversa quero falar sobre ela, talvez nossa companheira mais fiel, que, ciumenta, fica a puxar nossas mangas sempre que nos envolvemos em qualquer situação social. Falo da Solidão, essa entidade que altera todas as dimensões. Depois que nossos encontros com ela se tornam diários passamos a ver e ouvir as pessoas próximas como se estivessem a quilômetros de distância.

A solidão nos arrasta anos-luz para dentro de nós mesmos e lá nos entupimos dos vácuos Dela e da nossa própria existência. Passeamos por jardins espalhados em cumes além das nuvens onde nos encontramos com as sabedorias infinitas de todos esses personagens que imaginamos com a ajuda de grandes escritores com as mãos tão bem treinadas na arte da escrita que nos deixam embasbacados.

Ao retornar desses jardins, meus caros, trazem a alma leve ou como algo de chumbo que pesa nos ombros? Ou em nada lhes transforma? Se leve, como caminhar depois de experimentar o voo? Se de chumbo, como não disparar tudo isso em quem estiver mais perto e pintar a realidade de cinza? Ou, o que me parece ainda mais difícil, como encenar para conhecidos ser aquela pessoa que éramos antes desses passeios?

Para além da solidão me deparo com a vida em sociedade. Esse emaranhado de histórias que se repetem infinitamente. Labirinto de ações e reações que estamos sujeitos e que somos produto. Pintura barroca de opiniões, ideais, times de futebol, belezas, prazeres, injustiças, privilégios e pontos de vista.

Como explicar, numa dessas conversas não planejadas e instantâneas com rostos cheios de veias saltadas, que o farfalhar das asas de um pássaro qualquer é mais significativo do que qualquer discurso feito por engravatados em palanques sobre pecuinhas políticas que vem se alongando desde o senado romano? Como deixar claro que todas as leis que obedecemos e que todos os livros sagrados no final das contas são palavras escritas em papéis assim como as inúteis literaturas que perdemos nosso tempo? Qual a diferença entre poetas e burocratas?

Por fim, que já vou me alongando demais nesse texto, reparei que floresceu em mim um sentimento desconhecido, um que não encontrei em dicionários. De tanto ler e captar sentidos, de tanto olhar e enxergar padrões, fui regando sem saber o que fazia essa coisa que agora vai me rasgando peito afora. É uma urgência criadora, uma gana de insistir nessas alquimias do verbo. Um desejo diário de por as palavras para caminhar pelo papel, reorganizar, mudar, mexer, revirar sujeitos e predicados do avesso. Uma ânsia de criar, juntar os pedaços e dar vida a esses verbetes.

Que sentimento é esse? Que nome tem isso? Já chegaram a estar satisfeitos com seus produtos ou, mesmo que de leve, imperceptivelmente o nariz se torce e brota na psiquê aquele “até que tá bom, mas ainda não tá do jeito que eu quero que fique” ?

Paro por aqui por receio de não conseguir parar nunca mais, já que as dúvidas aumentam em quantidade e todas as minhas certezas já estão sitiadas.

Enviem suas equipes de resgate e rabisquem o céu com sinalizadores, homem ao mar!

CRÔNICAS

Crônicas para instigar. Contos para envolver. Ficção para entreter.

Anderson Carvalho

Written by

Porto Alegre | Brasil | heyimanderson@gmail.com

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