Lamento de um blue

Chorei. Chorei mesmo. Chorei muito. Não sou de guardar sentimento, não. Não prendo choro. Quem prende o choro acaba aguando o bom do amor. Me afastei daquela cena. Aquela que me fez chorar. Fui pra longe e fiquei observando. Você, seus amigos. Sua namorada. Sentei num murado e fiquei pensando se você viria. Mentalizei: “vem atrás de mim, vem atrás de mim, vem atrás de mim”. Olhava pra você através daquela vidraça, e parecia que você olhava pra mim também, mas não dava pra ter certeza. E então você veio. Fiz que não era comigo. Você passou direto. Discretamente olhei o que você tava fazendo. Resposta: comprando não-sei-o-quê na vendinha. Tentei aplacar meus soluços, pensei em chá de camomila. Você veio pra mim. Sentou ao meu lado.
“Ô, minha menina, por que você tá assim?”, você perguntou, transbordando doçura. Passou os polegares pelos meus olhos e bochechas, enxugando minhas lágrimas. Foi aí que eu chorei com mais força. Eu tentava me explicar, mas parecia uma criança que acabara de levar uma surra da avó. Apenas balbucios saíam da minha garganta. Você me ofereceu um biscoito amanteigado, o tal não-sei-o-quê que comprara na birosca. Peguei um e dei uma mordida microscópica. “Só isso?”, você indagou. “Sim… E-eu não tô conseguindo comer”, respondi com dificuldade. Os soluços atravessavam as palavras.
Ainda com as mãos carinhosamente repousadas nos lados do meu rosto, você perguntou: “Vai me dizer porque você tá assim?”. Seus olhos estavam fixos nos meus e, através da cortina de lágrimas, vi que você estava genuinamente preocupado. Nossos rostos estavam a centímetros de distância. Estranhamente, “ Where Did You Sleep Last Night?”, no original de Leadbelly, saía da caixa de som daquele pé-sujo. Quais as chances?
“Eu… Eu não posso falar.” Aquele momento de vulnerabilidade — chorando, com suas mãos em meu rosto — simplesmente não me pareceu o mais oportuno para dizer que: dou o cavaco por você. Que tenho certeza de que somos a mão e a luva. Que nossas vivências e opiniões não são similares por acaso. Que abomino o dia em que começou a namorar e arruinou todas as esperanças que um dia eu nutri.
“Vai… Me diz”, você insistiu. “Não, não posso.” Você se aproximou mais ainda e beijou minhas lágrimas. Cada ponto do meu rosto embebido. Bochechas, olhos, queixo. Eu continuava dizendo não, não, não, não, não. Minhas negativas cessaram quando senti o gosto dos teus lábios, salgados pelas minhas lágrimas. Fiz menção de me afastar, mas não tinha ímpeto o suficiente. Ou caráter. Chorei mais e mais. Isso é errado, eu pensava. Mas minha boca e língua não ousavam desgarrar-se de você. Era tão exato quanto eu imaginara por todo aquele tempo.
Rios de água salgada despencavam dos meus olhos. Nós nos afastamos. Eu não conseguia dizer nada, chorava cada vez mais alto. Você me beijou novamente. O sublime encaixe de novo me assombrou. Mais tarde, já em casa, sozinha, pus pra tocar “My Man O’ War”, de Lizzie Miles. Acendi um baseado e contemplei sua foto na tela do celular. Levanto minha bandeira. Eu me rendo.

