Música Emoldurada
Um relato sobre minha paixão por colecionar discos de vinil

Tudo começa com uma ideia. Você vai à livraria para comprar algo e na parte dos CD’s e fones de ouvido, vê as enormes capas em um canto, isoladas. Isso chama a sua atenção e você vai conferir por uma curiosidade ingênua, pela capa ou por não saber que, ainda hoje, eram vendidos discos de vinil. O preço assusta. 80 Reais por uma música e você nem tem onde tocar. “Acho que na casa do meu avô tem uma ainda” — ter esse pensamento já é um indício de vício.
Em um outro canto, você vê a vitrola. Linda, vermelha, com seu interior branco e a marca bordada. Paixão à primeira vista. Até ver o preço. Mais do que um salário mínimo! “Dá pra alimentar uma família com isso”. Mas, depois desse primeiro encontro, aquilo não sai da sua cabeça. “Cara, como ia ser legal ter uma coleção de vinis”.
O tempo passa e, numa zapeada pelos canais de TV, em um sábado monótono, eis que aparece num programa de entrevistas, daqueles com famosos mostrando sua casa, a coleção de vinis do cara — era o Ed Motta ou o Kid Vinil. Ele tem uma vitrola ainda mais interessante do que a da loja e uma coleção de dar inveja. O famoso fala nomes e aspectos técnicos até então desconhecidos. Você se encanta, mais uma vez, pelas capas, e lembra que já as viu por aí. “Cara, ele tinha um dos Beatles atravessando a rua” (É o álbum Abbey Road, de 1969). Estrago feito. Assim nasce um colecionador de vinis. No meu caso, ainda tive a ajuda do meu pai. Ele se empolgou com a ideia e iniciamos o projeto juntos — apesar da maior parte das aquisições serem minhas.
Todas as nossas vitrolas foram ganhas — sim, temos mais de uma. Porque, sempre que falávamos sobre o assunto, alguém dizia ter, ou conhecer alguém que tinha uma, jogada no canto da casa, ou uma pilha de discos. Na maioria das vezes, as vitrolas não estavam em perfeitas condições e os discos eram ou temas de novela ou do Roberto Carlos. Mas, sempre aceito essas doações pois muitas vezes a vitrola é facilmente consertada — uma das partes mais legais — e os discos são possíveis de trocar por outros.

Na minha opinião, a grande magia dos discos de vinil é, primeiro, a capa. É quase um quadro, sendo possível ver os detalhes da foto ou ilustração. Além disso, tenho a impressão de que os artistas caprichavam mais nessa parte, na era das bolachas.
A segunda é a ideia de pertencimento. Aquele álbum é meu. Se eu quiser que ele funcione sempre, preciso tomar cuidado com ele. Não deixar cair, arranhar, nem nada do tipo, senão corre o risco de ouvir uma versão remixada das músicas. Tal necessidade de manutenção é boa pois, o ato de limpar meus discos virou uma terapia. Sempre quando estou com a cabeça cheia, coloco um disco para tocar enquanto vou limpando os demais. Calmante, sem nenhuma contra indicação.
O bônus disso é que a maioria dos meus discos foram encontrados em sebos, lojas de vendas de usados. Muitos dos quais vieram com alguma dedicatória, uma declaração de amor. Acho muito interessante esses recadinhos. Marcam um amor antigo ou uma amizade. Ao mesmo tempo, é um pouco triste, porque, se esse objeto chegou em mim, algo deve ter dado errado no caminho. O namoro chegou ao fim, a amizade foi desfeita, ou alguém partiu dessa pra melhor.

Agora, tem a famosa questão: “o som é melhor?” Olha, pra dizer a verdade, eu não acho melhor, acho diferente. Colecionar vinil está além de somente ouvir música, como expliquei. É uma relação diferente. Músicas baixadas, você não tem apreço nenhum por elas. A velocidade em que chegam ao seu computador ou smartphone, é a mesma na qual desaparecem. Não existe um vínculo. Nos vinis esse apreço é maior. Sua relação com eles vai durar um longo tempo. Podendo extrapolar até a sua permanência na terra, com alguém comprando aquela sua declaração de amor num disco da Marisa Monte, em um sebo qualquer.

