O Deus certo
O sol se pôs, como é de habito. A lua, em todo seu esplendor, retoma o lugar no firmamento. A mãe, à meia-luz, apoiada no marco da porta, observa sua pequena à beira da cama, de joelhos, mãos unidas, cabeça baixa, murmurando palavras inaudíveis, rezando. Deixou a pequena terminar a oração e a colocou na cama.
- Mãe?
- Sim?!
- Porque rezamos?
- Para agradecer.
- Agradecer o que?
- Nossa existência, à quem amamos…
- E a quem?
- Deus.
- Hum, Deus. E onde ele mora?
- Lá no céu, onde pode proteger cada um de nós.
- E mesmo no céu ele consegue me ouvir?
- Sim.
- Então ele usa aparelho, igual a vovó?
[segura o riso]: -Quase.
Beija a testa da filha.
- Boa noite, querida.
A pequena não responde.
- Algum problema?
- Mãe, e se a gente estiver orando para o Deus errado?
- O Deus certo vai ouvir, não te preocupa.
(a pequena adormeceu tranquilamente; as dúvidas todas pairavam sob a cabeça da mãe)