O dia em que morreu o amor

Não consigo fugir do questionamento: quando foi que tudo acabou? Penso e repenso em todos os “eu te amo” que me disse para tentar definir o dia, a hora, o segundo em que eles passaram a ser apenas uma frase de efeito cômoda, repetida totalmente desprovida de sentido.
Também não vou dizer que foi surpresa. Não foi. Se o pior cego é o que não quer ver, o pior amante é aquele que não percebe que a reciprocidade já se esvaiu pelo ralo e, mais triste ainda, se contenta com isso. Por semanas eu soube que o toque não era o mesmo, que o beijo era mecânico e que nossos corpos já não dançavam na mesma sintonia. Mas como um náufrago, que luta para prender a respiração mesmo que saiba que a escuridão do mar está prestes a engolir sua vida, eu fiquei. Insisti no toque, me entreguei no beijo e dancei conforme a cadência do seu samba, enquanto meu pop empoeirava na prateleira, ao lado do meu amor próprio.
Mas a pergunta fica, martela, tortura. Alimento em mim uma necessidade autoflagelada de encontrar o erro, o glitch, o turning point: o momento em que seu amor virou fachada e eu, cego e surdo, não notei. Não é arrependimento. Não é ciúme. Cá entre nós, a verdade é que dói num ego leonino — admitidamente inflado — saber que o que eu enxergava como raro, único e especial foi tão rapidamente substituído e deixado para trás. Que aquilo que eu vi como sólido, como eterno, foi — do seu lado — tão efêmero que passou voando na primeira rajada de vento sobre a lagoa ensolarada.
Não era pra ser. Em algum momento, fomos de “sonhei que estava exatamente aqui” para “we’re not forever, you’re not the one” e a raiva que sinto é toda de mim mesmo— por ter deixado passar. Sei que não há razão nessa fixação por uma data — tampouco há razão no amor. Meu apego em um marco no calendário é vão, fútil, desnecessário e assustadoramente humano. Preciso de uma hora da morte, uma causa mortis, algo que me permita sepultar em paz esse sentimento que jaz na pedra dura há meses: nosso Quincas Berro D’água, com o qual insistimos em passear por aí, frio, falso, cadavérico, até que o mar o levou de vez para sua segunda — e definitiva — morte. Que descanse em paz.
Este texto foi escrito ao som de Hard Feelings/Loveless — Lorde.

