Orquestra de bipes

Kalew Nicholas
Jul 21, 2017 · 3 min read
Fotografia: Erkan Utu

Respirava — disso tinha quase certeza. Não fossem os sons externos, o burburinho, o falatório, os bipes dos aparelhos, o som das macas passando pelo corredor, o ruído baixo de uma televisão e a chuva, acharia o contrário. Duas vozes distinguiam-se das outras — eram mais altas e claras que as demais. Conversavam sobre a chuva. Uma das vozes era grave e aveludada; a outra, aguda e estridente, feminina. Devia ser um enfermeiro e uma enfermeira. Fizeram silêncio.

— Ouviu isso? — perguntou a voz grave.

— O quê?

— Acho que ele se mexeu.

— Não vi.

— Tenho quase certeza.

— E daí?

— E daí que é melhor chamar um enfermeiro.

— Deixa ele aí. Tá assim há meses, não vai acordar do nada.

— Ele não acordou, só se mexeu. Estranharia se ele levantasse. É aos poucos.

O barulho forte, grave e irritante de um helicóptero voando deu a impressão de que havia um parado defronte à janela. O som da televisão foi elevado.

A Polícia ainda não tem informações sobre o paradeiro de João. Tudo que sabe, por enquanto, é que desapareceu a duas quadras de sua casa.

— Deixa ele aí, deixa isso quieto.

— Então o que a gente tá fazendo aqui?

— Tô aqui só pra ver se esse velho não morre logo. Tô precisando de grana.

— Olha como tu fala do teu pai. Tu devia ser menos insensível.

— Ele tá assim há meses! Não serve mais pra nada. Tá morto, mas ocupando espaço no hospital.

— Mais respeito com ele.

— Tu não é filho dele.

— Pra tu ver.

— Não adianta nada ele aqui, sofrendo.

— Agora se preocupa com o sofrimento?

Talvez não fosse uma televisão, mas sim um rádio. Ou qualquer outro aparelho que emitisse som.

Bom Dia Rio volta já.

Era tevê, teve certeza. As vozes se calaram e na televisão passava um comercial da TIM.

— Ele tá respirando mais rápido. A gente tem que chamar o enfermeiro.

— Ele não tá respirando mais rápido.

— Tá sim, olha aí.

Fizeram silêncio mais uma vez. Em um esforço vão, tentou mexer qualquer parte do corpo e se esforçou para mexer todas simultaneamente, não conseguindo nenhuma.

— Ele se mexeu, garota, olha lá. Fica olhando.

— Que horas essa chuva vai parar?

— Cara, a gente tem que chamar o enfermeiro!

— Esse helicóptero é o da busca pelo menino?

— Olha pra mim!

Ouviu um som alto de um tapa. As vozes se elevaram.

— Você tá ficando maluco?!

— Seu pai pode estar vivo e você tá cagando pra ele! Só pensa em dinheiro!

— Se pensasse só em dinheiro não tava namorando contigo!

— Vou chamar o enfermeiro.

— Tu não vai chamar nada! Se esse velho acordar ele vai ficar gritando de dor igual tava antes de entrar em coma. Tu quer ver ele sofrendo?

— Você ainda não entendeu que tu é filha dele, né? Não dá pra acreditar numa coisa dessas, cara. Você prefere ver teu pai sofrendo?

— Sofrendo é se ele acordar.

— Então tu quer fazer o quê? Matar tu não pode.

Houve silêncio. Ele tentou se mexer mais uma vez. Os bipes estavam mais altos e frequentes.

— O coração dele tá batendo mais rápido, a gente tem que fazer alguma coisa.

— Não tem que fazer nada! Vamo embora daqui.

— Eu vou chamar o enfermeiro.

— Não vai chamar ninguém! A gente vai meter o pé daqui!

— Olha essa chuva, sua maluca, tá achando que meu carro é canoa?!

— Vambora!

— Você não pode deixar seu pai aí sofrendo, chama logo o enfermeiro! Não tem mais nada pra fazer!

— Claro que tem!

— Para com isso, Laura! Para com isso!

O homem berrou com Laura. Laura não disse mais nada.

— Laura, você não sabe o que tu tá fazendo! Enfermeiro! Enfermeiroooo! Emergência aqui, merda! Alguém! Para com isso, Laura! Para!

Houve uma correria e então os sons diminuíram gradativamente. O helicóptero foi embora. As vozes cessaram. A chuva, também. Por último, um bipe longo.

CRÔNICAS

Crônicas para instigar. Contos para envolver. Ficção para entreter.

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