Orquestra de bipes

Respirava — disso tinha quase certeza. Não fossem os sons externos, o burburinho, o falatório, os bipes dos aparelhos, o som das macas passando pelo corredor, o ruído baixo de uma televisão e a chuva, acharia o contrário. Duas vozes distinguiam-se das outras — eram mais altas e claras que as demais. Conversavam sobre a chuva. Uma das vozes era grave e aveludada; a outra, aguda e estridente, feminina. Devia ser um enfermeiro e uma enfermeira. Fizeram silêncio.
— Ouviu isso? — perguntou a voz grave.
— O quê?
— Acho que ele se mexeu.
— Não vi.
— Tenho quase certeza.
— E daí?
— E daí que é melhor chamar um enfermeiro.
— Deixa ele aí. Tá assim há meses, não vai acordar do nada.
— Ele não acordou, só se mexeu. Estranharia se ele levantasse. É aos poucos.
O barulho forte, grave e irritante de um helicóptero voando deu a impressão de que havia um parado defronte à janela. O som da televisão foi elevado.
A Polícia ainda não tem informações sobre o paradeiro de João. Tudo que sabe, por enquanto, é que desapareceu a duas quadras de sua casa.
— Deixa ele aí, deixa isso quieto.
— Então o que a gente tá fazendo aqui?
— Tô aqui só pra ver se esse velho não morre logo. Tô precisando de grana.
— Olha como tu fala do teu pai. Tu devia ser menos insensível.
— Ele tá assim há meses! Não serve mais pra nada. Tá morto, mas ocupando espaço no hospital.
— Mais respeito com ele.
— Tu não é filho dele.
— Pra tu ver.
— Não adianta nada ele aqui, sofrendo.
— Agora se preocupa com o sofrimento?
Talvez não fosse uma televisão, mas sim um rádio. Ou qualquer outro aparelho que emitisse som.
Bom Dia Rio volta já.
Era tevê, teve certeza. As vozes se calaram e na televisão passava um comercial da TIM.
— Ele tá respirando mais rápido. A gente tem que chamar o enfermeiro.
— Ele não tá respirando mais rápido.
— Tá sim, olha aí.
Fizeram silêncio mais uma vez. Em um esforço vão, tentou mexer qualquer parte do corpo e se esforçou para mexer todas simultaneamente, não conseguindo nenhuma.
— Ele se mexeu, garota, olha lá. Fica olhando.
— Que horas essa chuva vai parar?
— Cara, a gente tem que chamar o enfermeiro!
— Esse helicóptero é o da busca pelo menino?
— Olha pra mim!
Ouviu um som alto de um tapa. As vozes se elevaram.
— Você tá ficando maluco?!
— Seu pai pode estar vivo e você tá cagando pra ele! Só pensa em dinheiro!
— Se pensasse só em dinheiro não tava namorando contigo!
— Vou chamar o enfermeiro.
— Tu não vai chamar nada! Se esse velho acordar ele vai ficar gritando de dor igual tava antes de entrar em coma. Tu quer ver ele sofrendo?
— Você ainda não entendeu que tu é filha dele, né? Não dá pra acreditar numa coisa dessas, cara. Você prefere ver teu pai sofrendo?
— Sofrendo é se ele acordar.
— Então tu quer fazer o quê? Matar tu não pode.
Houve silêncio. Ele tentou se mexer mais uma vez. Os bipes estavam mais altos e frequentes.
— O coração dele tá batendo mais rápido, a gente tem que fazer alguma coisa.
— Não tem que fazer nada! Vamo embora daqui.
— Eu vou chamar o enfermeiro.
— Não vai chamar ninguém! A gente vai meter o pé daqui!
— Olha essa chuva, sua maluca, tá achando que meu carro é canoa?!
— Vambora!
— Você não pode deixar seu pai aí sofrendo, chama logo o enfermeiro! Não tem mais nada pra fazer!
— Claro que tem!
— Para com isso, Laura! Para com isso!
O homem berrou com Laura. Laura não disse mais nada.
— Laura, você não sabe o que tu tá fazendo! Enfermeiro! Enfermeiroooo! Emergência aqui, merda! Alguém! Para com isso, Laura! Para!
Houve uma correria e então os sons diminuíram gradativamente. O helicóptero foi embora. As vozes cessaram. A chuva, também. Por último, um bipe longo.

