Portas em automático

Metido a Cronista
Aug 24, 2017 · 4 min read
Foto: Reprodução

Estou escrevendo no meu voo entre Goiânia e São Paulo. Sim, estou em modo avião, comissária. Relaxa. É que esqueci meu Kindle em casa e me recuso a pagar essa pequena fortuna que custa um livro em uma dessas livrarias de aeroporto. Tédio. Já tentei me distrair com a revista da companhia aérea. Mas, sei lá, entrevista com o Neymar? Passo. Prefiro dormir. Mas é um voo tão rápido. Uma horinha. E não tem nada pior que acordar em pânico confundindo a aterrisagem com desastre. De tão sem o que fazer, resolvi escrever. Quando percebi, as palavras começaram a brotar dos meus dedos que digitam freneticamente no celular. Sim, está em modo avião, comissária.

Viajar é uma das experiências mais maravilhosas que existem. Mas ir pra sua cidade natal não é viajar. É trânsito. É deslocamento. É tráfego pesado pra chegar ao aeroporto. Embarcar (por favor Deus, livrai-me de voos que sejam no piso inferior de Congonhas). Desembarcar. Pegar mala. Se ela não tiver ido parar no meio do Azerbaijão. Pega Uber. Ou Cabify. Ou 99. Tantas opções agora. Ou táxi, caso você seja meio masoquista. Mais trânsito. Até que você finalmente chega em casa. É uma versão estendida do busão nosso de cada dia.

Não me entenda mal. Amo minha cidade. Sou paulistano de coração, mas Goiânia ainda tem um grande território nesse músculo involuntário que pulsa noite e dia em meu peito. Mas toda vez que eu ouço a palavra aeroporto, sinto calafrios. Viajar seria incrível se não houvesse os aeroportos. Esses locais que nos torturam em esperas intermináveis. Que mudam nosso portão de embarque do 12 para o 612. 612 do outro terminal, claro. Aeroporto é um mal necessário entre você e seu destino. E até que inventem o teletransporte, nos sucumbiremos aos arcaicos modelos de transporte que nos são impostos.

Talvez toda essa antipatia por voar venha do fato de ter 1,90m e ter que viajar como uma sardinha em poltronas que obviamente não foram pensadas para pessoas da minha estatura. E se quiser um pouco mais de espaço, eu tenha que pagar por isso. Talvez tenha a ver com minha sorte de sempre ter uma criança chorando na poltrona ao meu lado, cujo choro perfura qualquer isolamento de fones de ouvido. Ou talvez pelas tarifas que crescem na velocidade da luz enquanto a qualidade dos serviços decaem na mesma proporção. Falaram que os preços das passagens iam cair com essa ladainha da franquia de bagagens. Bullshit. É só o Brasil sendo Brasil mais uma vez. Passagens nas alturas. Mais que os próprios aviões. A real é que não sei. Não preciso saber. Só sei que se aeroportos existissem na Idade Média seriam usados como método de tortura.

A minha sorte é que não tenho medo de avião. Se eu tivesse, aí, caro amigo, seria um desastre completo. Aliás, nem fale em desastre porque vai que você tem medo de avião e feche esta crônica antes de terminar de lê-la. Calma. Vai ficar tudo bem. É só uma tremidinha. Uma turbulenciazinha. Vai passar. A gente vai chegar inteiro. Não dizem que avião é o transporte mais seguro que existe? Come esse amendoim super nutritivo aí que não vai dar nada não. Ou prefere essa deliciosa barrinha de cereal seca?

Mas viajar é preciso. Transitar é necessário. Deslocar-se do ponto A ao B, como aprendemos nas nada saudosas aulas de física do Ensino Médio. Aeroportos, por pior que sejam, é uma concentração de emoções. De gente que vai. De gente que vem. Da esperança de reencontrar um ente querido. Ou do coração partido ao se despedir da pessoa amada. No aeroporto, as lágrimas se confundem entre a alegria e a tristeza. O adeus e o oi. Aeroportos são hubs de expectativas. De possibilidades. De almas que decolam e sabe-se lá onde aterrissam. De busca de sonhos. De enfrentamento de medos. De encontro de novas verdades. E especialmente de se sentir vivo. Conectado. Em trânsito.

Estranhos que passam correndo pra chegar a tempo. Malas de rodinhas de um lado. Mochilas de outro. Anúncios de embarque imediato. Última chamada. Voos cancelados e expectativas adiadas. Aeroportos mexem com a gente. Tocam os sentimentos mais profundos porque é o tato dos meios de transporte. A mão que toca aqui e te coloca de lá. Um teatro real e em tempo real. Sem cortinas. Mas com seus dramas e protagonistas.

Sabe, comissária, pensando bem, aeroportos talvez não sejam assim de todo ruim. Há males que vêm pra bem. E sim, relaxe: continuo em modo avião.

CRÔNICAS

Crônicas para instigar. Contos para envolver. Ficção para entreter.

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