Saber falar, saber calar

Não deve ter sido por acaso que nascemos com dois ouvidos e uma só boca, mas há quem prefira falar em dobro e não ouvir nada além da própria voz.
Se é verdade que ouvimos o som de nossas bocas de uma forma diferente do que ela emite, devia existir algum botão ou mecanismo que nos indicasse os momentos-chave em que calar fosse mais importante do que vomitar palavras. E eles são a maioria.
Numa discussão besta em que nos preocupamos mais em vencer do que ter paz, por exemplo. Como um desses robôs futuristas da ficção, um alerta vermelho apareceria mentalmente, sem que alguém percebesse.
“Perigo! As palavras, expressões e começos de frase a seguir não devem ser pronunciadas, sob risco de ampliar a discussão com consequências drásticas. O software não se responsabiliza em caso de uso de: aquela segunda-feira, o dinheiro que você não me emprestou, eu nunca te traí, sexo anal, a sua mãe, não tem mais nem menos. Último alerta!”
Em alguns casos, haveria um mecanismo que iria se sobrepor às nossas vozes, emitindo sons previamente gravados e nos impedindo de falar o que realmente sentimos naquele momento, priorizando a paz entre casais, familiares, colegas de trabalho e outras invenções humanas.
Já que o diabo não mora no inferno cristão, mas nos detalhes, são eles os responsáveis pelas grandes tretas que assolam a humanidade desde o nascer até nosso último suspiro.
Lembro um casal que jogou pela janela mais de cinco anos de matrimônio depois que o marido posicionou o papel higiênico para o lado da parede. A esposa, que perdoara um caso de adultério anos antes, não seria capaz de suportar uma ofensa tão grave. E o solitário instante de deixar um pouco de nós no vaso virou briga das feias, com direito a roupas arremessadas pela janela e latidos de cachorros acordando vizinhos curiosos.
Houvesse um botão no qual ela pudesse controlar o quê e quando falar, talvez percebesse que um item do banheiro é mais fácil de reposicionar do que a confiança quebrada, mas aí já não é problema meu.
É sempre assim, não muda. Sorte a nossa ainda não existir uma tecnologia capaz de apresentar em um telão os melhores momentos desses nossos piores momentos, em que vomitamos palavras desnecessárias e ofensivas a quem amamos. O intuito é atingir e sair com a vitória nos debates em que não há vencedor — até porque em nenhum debate há vencedor, quando muito uma troca de ideias, mas isso é coisa de seres racionais.
Nos dias em que esquentava as cadeiras da escola, não foram menos que dez as vezes em que minha mãe recebeu bilhetes que não eram de admiradores secretos, mas de diretoras reveladoras da minha ânsia por opinar e falar alto, cada vez mais alto como sonham as crianças.
O medo de minha voz ir minando a audição cresce ano após ano. A falta de disposição por discutir com quem muito sabe falar e pouco calar também. Em seu interior, o sentimento de glória de quem arremessa perdigotos sobre minha face por ter vencido um debate pueril é maior do que minha disposição por gastar neurônios enquanto um macaco descontrolado bate bumbo no interior de minha mente.
Deve ser por isso que pouco me enquadro em grupos, rótulos, relacionamentos e panelas. Sou desencaixado, torto e perdido por aí, mas é melhor se perder do que se achar.
E vamos seguindo numa comunidade em que todos estão surdos, mas não perdem tempo em falar para as paredes ou na sua página de rede social. Ninguém lê, ninguém liga, ninguém se importa. Mas faz bem para o ego falar para o mundo, ainda que nem as paredes nos ouçam.
Depois de me especializar no espanhol e quando terminar mais um curso de inglês, pretendo estudar francês, alemão e italiano. Queria mesmo era desaprender a falar o desnecessário pela voz de uma vaidade surda às vozes do outro, pura perda de tempo.
Posso até me expressar em vários idiomas, mas vou aprendendo a me calar dia após dia e ouvir como se minhas orelhas se multiplicassem feito as vozes de quem tanto grita ao meu redor.
Elas ainda não aprenderam a se calar.

