Sobre fé e o silêncio de quem fica

Hoje resolvi ir à missa. Gosto de estar nos templos, sentir que de alguma forma aquelas paredes se erguem para além. A sacralidade do silêncio nas igrejas me comove e o internalizo em minhas inquietudes cotidianas. Também acho a ritualística da missa algo belíssimo. A contrição, especialmente das senhorinhas, também me comove. Sempre acreditei que a fé é algo essencial pra se criar humanidade em qualquer ser. Depositar a esperança no intangível é reconhecer os limites materiais da nossa condição. É lançar âncora em águas desconhecidas onde o horizonte além mar se realiza na contemplação. Missa também me traz nostalgia, me transporta para um tempo em que a fé ditava meu ritmo cotidiano dentro dos muros de um seminário. De quando em vez me leva mais fundo ainda ás raízes, onde o som da liturgia ecoava da televisão e pelas paredes da velha casa entre bougainvilleas coloridas; onde a maior benção vinha do colo de minha avó.
Outro ponto da celebração que me comove é a lembrança aos antepassados. Ouvir àqueles nomes de quem mais não habita neste plano, é evocar o desconhecido pós mortem e confirmar o estado primeiro de fé. Em missas como a de hoje não foi diferente, havia o sétimo dia. Como em todas as missas em dia de semana; escrevo o “como sempre”, porque sempre há e sempre haverá um sétimo dia, tão certo como o meu e o teu. Pois bem, após a benção final pouco mais da metade dos fiéis ali presentes se aproximaram de um senhor. Um homem de aparência simpática de traços bem marcados pelo tempo a que julgo estar no alto de seus quase noventa anos. Acredito ser um italiano, destes que devem sempre falar ás pampas e ser muito querido aqui pela comunidade do Bixiga. De pé, fez o sinal da cruz para receber a benção, e ali continuou amparado por aquele que parecia ser seu único filho no meio daquela gente. O rosto simpático daquele senhor estava mudo, só conseguia abraçar fragilmente a quem o cumprimentava. De seus olhos escorriam lágrimas, não compulsivas mas ininterruptas. Beijava o rosto de alguns que lhes pareciam muito próximos. A missa em sétimo dia era de Dona Letícia. Eu não a conhecia, mas pude concluir que aquele homem havia há sete dias perdido sua alegria. Eu também não o conhecia, parado ali observando a sua dor simpática e silenciosa o cumprimentei com o pensamento e fui cúmplice de sua dor. A julgar pela idade Dona Letícia deve ter sido sua companhia por anos e talvez a última. Ou não, que Letícia tenha apenas sido um desses romances do bailinho da saudade. Não importa. O que importa era a tristeza na postura daquele senhor. Importa é que talvez eu os esqueça amanhã, mas nessa noite vou rezar por Dona Letícia enquanto a memória guarda a tristeza de quem fica.

