The boy who stared at the moon

Eu tava num tédio danado. Pegava o celular e não tinha nada pra ver. Ninguém falava comigo, eu não falava com ninguém. Já tinha visto todos os stories do Instagram. O Facebook tava modorrento como sempre. Twitter, nem se fala. Não tinha nem um joguinho baixado pra me distrair.
Não queria pegar o livro que tinha na mochila. “A Mão Esquerda da Escuridão”, de Ursula K. Le Guin. Simplesmente não me empolgou. Odeio ficar me forçando a ler. Então eu só fiquei ouvindo música enquanto olhava a cidade passar a 70 quilômetros por hora através da janela do ônibus.
Lá pelo Grajaú, reparei que, no banco à minha frente, havia um menino. Ele olhava fixamente para algum ponto lá fora. Segui seu olhar e a vi. A lua cheia. Tão bonita quanto raramente fica. Quando a gente se depara com uma lua dessa, até começa a achar que alguma coisa boa vai acontecer.
Alternava meu olhar entre a lua e o menino que olhava fixamente para ela. A lua, eu via em sua completa e orbicular beleza. O menino, só de perfil. Ele tinha um daqueles narizes cheios de personalidade. Cabelo baixinho, castanho escuro. Ele não fazia nada além de admirar a lua.
Que estaria pensando?, me perguntei. No quê ou em quem o menino que olhava fixamente para a lua estaria pensando? “Cemetary Gates”, dos Smiths, saía do meu fone de ouvido. Essa situação daria uma boa música dos Smiths. Ou de The Cure. “The Boy Who Stared at the Moon”.
Chegando no Cachambi, me levantei pra descer e lamentei parar de observar o menino que observava a lua. Estava em frente à porta de saída, esperando o ônibus chegar ao ponto, quando, pela minha visão periférica, vi o menino dar sinal e se aproximar. Não tive coragem de fazer ou dizer nada.
Descemos e nos encaminhamos para a mesma rua. Interpretei isso como um sinal e recolhi o máximo de coragem de que dispunha: “A lua tá bonita hoje, né?” Eu nem pensei muito, só falei a primeira coisa que me veio à cabeça. Ele ficou um pouco surpreso com a abordagem.
“Sim, tá linda demais”, disse ele, com um sorrisinho de quem tá com a mente longe, longe. “A lua entrou em virgem, sabia?” Não, eu não sabia. O máximo que eu sei sobre signos é sou de escorpião. De resto, só sei que a lua tá no céu. Respondi: “Não sabia! E o que isso significa?”.
“Significa que nós estamos propensos a fazer as coisas acontecerem, ir à luta, sem depender de nada nem de ninguém”, afirmou, olhando diretamente pra mim. Ratifiquei o que eu já desconfiava: ele tem olhos que poderiam abrir buracos no concreto.
“Gosto disso”, afirmei. Ficamos em silêncio por um momento. Sem querer perder o timing, disse: “Já que a lua tá em virgem e nós estamos fazendo as coisas acontecerem, você quer ir no Cachambeer comigo?”. Temi ter cruzado algum limite invisível, mas minha indagação foi recebida com um sorriso.
“Vamo! Acredita que eu moro aqui desde sempre e nunca fui nesse ponto turístico do bairro?”, ele falou com uma expressão no rosto que dizia “olha que absurdo!”.
“Pois essa falta está prestes a ser aplacada.”
“Que bom que a lua tá em virgem.”

