True love will find you in the end

A música de Daniel Johnston sai do alto-falante do celular. Está no repeat há horas. Faz eco naquele conjugado quase vazio na Rua da Glória, 220. João está esparramado no colchão, só de cueca. Não há roupa de cama. Tampouco cama. Há apenas um colchão de solteiro que trouxera de seu quarto juvenil na casa dos pais — trazer a cama de super-herói seria humilhação demais.

O colchão soma-se aos outros seis itens que compõem toda a mobília do lugar: uma arara que abriga suas parcas roupas (herança da ex-companheira), um sofá de três lugares (presente do tio Moacir), mesinha de centro de madeira maciça (vó Lourdes quem deu), geladeira, fogão e máquina de lavar — esses comprados por João em 10 vezes sem juros no Ponto Frio do Rio Sul.

É a tarde de um domingo ensolarado, mas o conjugado está um breu. A única janela do lugar está fechada. Ela dá para outros prédios, o que faz com que o sol só adentre o espaço nas primeiras horas da manhã. Além disso, João contribuiu substancialmente para a escuridão. Na falta de uma cortina, foi improvisada uma manta marrom na janela. O ventilador de teto roda vagarosamente, dispersando a fumaça que sai do cigarro e da boca de João.

“‘Cause true love is searching too, but how can it recognize you, unless you step out into the light?”

Esse trecho está há horas na cabeça de João. “Porque o amor verdadeiro está à procura também, mas como ele poderá te reconhecer se você não aparecer na luz?”, canta Johnston. Desde que Roberta, a ex-dona da arara, o deixou, João não se esforça para sair de seu templo além do estritamente necessário — leia-se ir ao trabalho. Passara o fim de semana inteiro esparramado no colchão, ora lendo, ora maratonando qualquer série de comédia na Netflix.

As três canecas de café que tomou aquela tarde pesam e João se levanta para ir ao banheiro. Após urinar, vê seu reflexo no espelho pequeno. Barba de dias, pele macilenta, olhos fundos. Ele se observa por cerca de meio minuto. “Preciso pegar sol”, pensa. Em um daqueles momentos que depois se provam pequenas revoluções pessoais, João decide sair de casa.

Põe uma camisa azul, calça jeans, calça os chinelos e sai de sua caverna moderna. Caminha cerca de 10 minutos até um de seus lugares favoritos na cidade: os jardins do Palácio do Catete, no bairro vizinho, de mesmo nome. Só lembrara de pegar o maço de cigarros e o isqueiro. O celular ficou tocando “True love will find in the end” até a bateria acabar.

CRÔNICAS

Crônicas para instigar. Contos para envolver. Ficção para entreter.

Ana Carolina Santos

Written by

Leitora e escrevedora de transporte público.

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