Um dia tu acorda e tá tudo diferente

Aí um dia tu acorda e tá tudo diferente.
Como assim?
Tudo.
Tudo o quê?
Você acorda atrasado, escova os dentes, toma café, escova os dentes de novo e vai pra loja que você trabalha. Quando você chega na loja tu descobre que ela não existe mais.
Como assim, não existe?
Sei lá, não existe. Não tá mais lá. Como se nunca tivesse existido. Aí você procura uma placa anunciando a mudança, olha o celular pra ver se o patrão ligou. Tenta falar com o patrão pra pedir explicações. E nada.
Pera. Isso aconteceu contigo?
Caso contrário eu não taria te contando.
E o que tu fez?
Eu fui embora.
Como se nada tivesse acontecido?
Se a loja nunca existiu eu também nunca trabalhei lá.
E por que teu patrão não avisou?
Qual patrão?
Teu patrão.
Eu não tenho patrão.
O dono da loja.
Qual loja?
A tua loja, ué. A que você trabalha.
Qual loja? Não tem loja nenhuma.
Acho que eu sei onde tu quer chegar.
Onde eu quero chegar? Eu não sei.
O que tu fez depois?
Fingi que nada tinha acontecido. Não tinha mesmo.
Não aconteceu nada nos outros dias?
Eu fiquei andando. Não soube da loja. Não sei o que abriram no lugar. Nunca mais passei por ali.
Isso não faz o menor sentido.
O que não faz sentido?
A loja sumir do nada.
E se não tivesse sumido? Eu ia trabalhar. Ia trabalhar o dia todo e voltar pra casa no final do dia. Trabalhar o mês todo pra receber no comecinho do outro. Acho que isso faz menos sentido ainda.
É. Quer dizer, não sei. Você é meio pessimista.
Eu, não. A vida que é péssima. Não joga a culpa em mim.
Eu não tenho culpa se a tua loja sumiu.
Qual loja?
A tua. A que você trabalha.
Qual loja? Não existe loja.
Isso não faz sentido.
A minha vida não faz sentido.
É o nome da peça do Felipe Neto.
Quem?
É uma piada.
Sou.
O que você vai fazer agora?
Eu não vou fazer nada. Por que eu preciso fazer alguma coisa?
Sei lá, cara. A loja que tu trabalha sumiu. Não faz o menor sentido. Tu vai ficar agindo como se nada tivesse acontecido?
E o que eu posso fazer? A loja sumiu. Não tenho onde trabalhar. Não posso fazer nada.
A inexistência da loja não te impede de procurar outro emprego.
Pra enriquecer outro patrão e continuar vivendo essa vidinha de bosta? Não, obrigado.
Ué.
Você acha isso bom? Isso te faz feliz? Digo, trabalhar pra nada. Sabendo que você vai morrer e só vai ter beneficiado seu patrão.
Você vai pagar suas contas, que não se pagam sozinhas. Vai ter seu dinheiro pra gastar com você. Não vai passar fome.
E isso contribui com o quê, no final?
O que tu prefere fazer, então?
Ser feliz.
Como se isso fosse possível.
Viu? Você diz isso porque se contenta com sua própria vida medíocre. Você tá preso nisso.
Não tô preso em nada.
Você precisa sair dessa pra ser feliz. Fazer coisas que contribuam pra sua felicidade. Nada mais, nada menos. Como se não houvesse consequências. Abandonar seu trabalho igual eu fiz.
Você não abandonou seu trabalho, seu trabalho que te abandonou.
E daí?
E daí que você devia parar de pensar em forma de diálogo e ir logo trabalhar.
Trabalhar onde?
Na loja.
Qual loja?
Se gostou, deixa aí suas palminhas. Pode deixar uma, dez, vinte ou cinquenta. Mas cinquenta é só se tiver gostado muito mesmo, o que não acredito que seja o caso.

