Rancor

Sempre me disseram:

Se você quer que cicatrize, pare de cutucar.

Admitir nossos defeitos é uma forma de lidar com mais maturidade com as nossas fraquezas. Eu, por exemplo, sou incapaz de perdoar. Incapaz de deixar para trás, incapaz de esquecer. Tudo o que eu tento fazer é apenas… seguir em frente.

Cada um tem sua história, cada um é movido por algo que antecede o que sente hoje. Eu digo a mim mesmo que o tempo não é algo linear. É um círculo feito de começos, finais e recomeços. E nesse movimento circular das nossas vidas, o presente ou o futuro sempre acaba por refletir um pouco das coisas que aconteceram. E tudo é sentimento. Algumas lembranças trazem alegria e risadas, outras ainda machucam ou causam algum sentimento. São como um osso quebrado que incomoda vez ou outra.

Eu digo a mim mesmo que o tempo não é algo linear. É um círculo feito de começos, finais e recomeços.

Todas as minhas decepções geraram muito mais tristeza que ódio. Embora seja algo aparentemente bom, enquanto o ódio é como um combustível que queima rápido e se desfaz, a tristeza é como um veneno que corre aos poucos pelo corpo.

Posso entender o motivo pelo qual alguém fez algo que me magoou, mas, para mim, essas atitudes só revelaram características inerentes daquela pessoa. Em outras palavras, essas atitudes só me mostram como as pessoas são na realidade. E isso sempre me frustrou. Sempre procurei, digamos, o "alguém perfeito". Alguém incapaz de me magoar.

Um fracasso.

Seguindo em frente, o que eu faço é guardar tudo para mim. Dizer que perdoei, que quero deixar para trás. Mas, lá no fundo, eu sou incapaz de esquecer. Incapaz de perdoar e de deixar aquela ferida cicatrizar.

Eu sou incapaz de perdoar

Como qualquer outra pessoa que tem uma longa história, eu tenho e trago comido muitas mágoas do passado. Sejam elas de décadas ou de meses atrás. Por várias vezes assisti a mim mesmo destruindo relacionamentos, amizades e ferindo pessoas que eu gosto, movido por uma chama de mágoa e ressentimentos que são acendidas por memórias e sentimentos rancorosos. Por várias vezes lutei comigo mesmo tentando deixar tudo para trás, mas os sentimentos que brotam em mim sempre foram tão intensos que sou incapaz de controlar.

Em mim, o rancor gerou a falta de confiança no mundo.

Com apenas alguns dedos de uma única mão eu conto a quantidade de pessoas em quem confio. Confiança para mim é uma palavra delicada, pois sempre foi quebrada e mal cuidada pelas pessoas a quem eu dei.

Pior ainda quando eu dei parte de quem eu era de bom grado, e em troca presenciei coisas que não podem ser desvistas ou esquecidas. Por vezes eu tentei esquecer, relevar e perdoar.

Não existe uma resposta certa ou uma receita de bolo para apagar coisas do passado, muito menos para me livrar do rancor.

Nos últimos dias o que eu tenho tentado fazer é identificar a origem dessa dor, o que a desperta e o que fazer para não permitir mais que ela aflore.

Talvez com um pouco de tempo, ou com alguns textos como esse.