Três mitos sobre o financiamento coletivo

Há quatro anos, quando perguntávamos em uma palestra quem conhecia o crowdfunding, poucas mãos se levantavam. Hoje é raro quem fica com a mão abaixada.

O crescimento do financiamento coletivo no Brasil popularizou o modelo, mas também ajudou a espalhar alguns mitos, inconsistências e inverdades. Já , que ganhou os corações dos realizadores com a promessa de dinheiro garantido, mesmo que uma análise mais aprofundada mostre que esse não é o caso.

Agora, vou falar sobre três perguntas que muita gente ainda faz, mas que não passam de mitos.

1. Financiamento coletivo é só para projetos sociais?

Cada vez mais a gente vê empreendedores utilizando o crowdfunding para o lançamento de novos produtos ou serviços no mercado. É o caso de projetos como , , , e outras centenas de campanhas. As vantagens são muitas e claras:

  • Independência: ao levar o financiamento de uma ideia para centenas ou milhares de pessoas, o empreendedor não fica amarrado aos caprichos de um único patrocinador ou investidor.
  • Pouca burocracia: quem já ganhou um edital ou captou um grande patrocínio sabe como o processo de inscrição e a prestação de contas podem ser muito complicados. A vida no crowdfunding é mais simples.
  • Baixo risco: o modelo Tudo ou Nada cria uma válvula de segurança para que se possa testar o mercado. O produto ou serviço só sai do papel se a campanha captar o suficiente, então, não existe chance de o empreendedor fazer um investimento inicial e ver o barco afundar.

As categorias mais relevantes por aqui são relacionadas a cultura e arte (música, cinema e teatro, principalmente), mas existe muito espaço a ser explorado por pequenas empresas que querem se conectar diretamente com o seu público.

Isso também é verdade nas plataformas gringas, como o . Tanto lá quanto aqui, música é a principal categoria, seguida de perto por cinema & vídeo. O , outra plataforma baseada nos EUA, acabou se especializando mais nessas campanhas de lançamento de produtos, mas mesmo assim as campanhas de artistas e geradores de conteúdo ainda formam um volume gigantesco.

Campanhas de produtos nessas plataformas ficam famosas por aqui por chegarem à marca dos milhões de dólares captados. Muita gente acha que essas campanhas milionárias são maioria, mas a verdade é apenas que o volume de campanhas é gigantesco. De todos os projetos do Kickstarter que alcançaram a meta, apenas 0,2% passaram de US$ 1 milhão. Aqui no Brasil ainda não temos casos desse tamanho, mas podemos chegar lá.

2. É dinheiro fácil na internet?

Absolutamente não. O maior erro de uma campanha de financiamento coletivo é achar que basta colocar uma página bonita de projeto na plataforma — com um vídeo bacana e recompensas legais — que o dinheiro vai magicamente aparecer.

Isso passa longe de ser verdade. Campanhas que não atingem a meta demonstram mais falhas de comunicação para chegar ao público-alvo (muitas nem conhecem direito seu público alvo) do que problemas com a ideia em si.

Mais de 90% do valor que gira nas plataformas vai para campanhas que atingem a meta. Apenas 10% das campanhas que passam de 30% da meta não a alcançam. Isso significa que os projetos que falham acabam arrecadando pouquíssimo.

Financiamento coletivo dá trabalho. Muito trabalho! E o planejamento é fundamental.

3. Quem me garante que o realizador não vai pegar meu dinheiro e fugir?

Ninguém te garante. Mas essa é a beleza do financiamento coletivo. É um jogo de credibilidade e reputação.

É uma escala de confiança dos círculos mais próximos para os círculos mais distantes. Ninguém pega o dinheiro de toda a família e dos amigos e desaparece. Seria um suicídio social.

Existe um mecanismo de denúncia dentro das plataformas para que a própria comunidade identifique fraudes. Isso já aconteceu diversas vezes no Kickstarter, mas por aqui é bem menos comum.

No Brasil, tivemos alguns casos de campanhas que demoraram muito para entregar e tiveram alguns problemas de comunicação no processo. Enquanto eu trabalhava na Benfeitoria, houve uma campanha que nós consideramos perdida. O realizador se enrolou, não entregou e parou de responder. Três anos depois, eis que surge um e-mail anunciando que o CD estava pronto e seria enviado.

Um estudo independente da universidade da Pensilvânia sobre os projetos do Kickstater mostrou que 9% dos projetos não entregam o que prometeram — deixam de entregam alguma recompensa ou reduzem o escopo inicial. Outro estudo da mesma universidade mostrou também que 75% dos projetos atrasam a entrega. Vale tomar cuidado com as promessas!

Conclusões

Têm muito mito se espalhando por aí! É bom tomar cuidado, pois o ecossistema do financiamento coletivo no Brasil ainda é um bebê e precisamos deixar que ele evolua no tempo certo. Isso é muito difícil na presença do Venture Capital, que quer retorno no curso prazo, mas a nossa missão é trazer a reflexão para criar a cultura e o conhecimento tão necessários para que essa dinâmica poderosa se estabeleça de forma robusta e séria.

Crowdfunding Brasil

Discussões sobre Financiamento Coletivo no Brasil

Téo Ferraz Benjamin

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