Estudo sobre Descargo

Até agora, Descargo é o menor conto de Cruel — Estudos Sobre o poder, e também é o primeiro texto imaginado para integrar este livro. Na época em que eu o escrevi, estava de ressaca por um romance que havia finalizado há poucos meses.

Toda vez que encarava este romance, fosse para revisá-lo ou prepará-lo para envio em editoras, percebia as potencialidades de uma voz literária que gostaria de assumir, mas ainda assim se destacavam travas e problemas estruturais que me impediam de me orgulhar genuinamente do seu conteúdo.

Nesse ínterim, dei a sorte de conseguir vagas em dois Sescs para participar de oficinas com os escritores-monstros João Anzanello Carrascoza e Evandro Affonso Ferreira. Enquanto João ministrava uma oficina com forte caráter didático sobre a composição dos microcontos e a aplicação desta técnica em textos criados em sala pelos alunos (alguns resultados destes encontros podem ser vistos aqui), Evandro incendiava a turma com provocações e pequenos escândalos sobre os textos lidos — sempre criados a partir de temas que ele passava na aula anterior.

A oposição entre os dois autores me fez ficar atento às minhas próprias demandas enquanto escritor. João me fazia ter atenção rítmica e estética aos textos, enquanto Evandro extraía o que havia de mais latente em mim. Um era a calma, o outro a urgência.

Pois bem, numa das ofertas temáticas mais comuns das aulas de Evandro (sei que ele já partilhou esse mesmo tema com diversas outras turmas suas), tive a estranha sensação de que dali conseguiria escrever com as melhores-piores coisas de mim.

- Não use o primeiro vaso. O rapazinho que cuida aqui do banheiro foi atrás do funcionário da manutenção. Eles vão chegar logo, logo. — E o homem entrou na segunda cabine acanhado.
O segundo usuário chegou.
- Use o segundo vaso. — Disse o gerente.
- O segundo vaso. — Para o terceiro.
- Segundo vaso. — Pro quarto.
- Segundo. — Quinto.
- 2º.- 6º.

“O homem do conserto não vem?”, disse Evandro. “É sobre isso que vocês vão escrever”. A proposta parecer ter alcançado espaços oportunos nas minhas novas buscas. Refleti sobre esse ponto de partida insólito e percebi que é deste lugar que melhor aproveito o impulso para a criação literária.

Iniciar um texto a partir do genérico “o homem do conserto não vem?” me lembrou de que literatura também é despropósito e pode partir sem prejuízo do nonsense sem dever nada a ninguém. Evandro e seu homem do conserto me fizeram me lembrar da beleza simbólica dos absurdos.

Entreguei um texto curto: 21 linhas, sendo 8 delas destinadas a diálogos bem pequenos. A historieta se passa em uma cabine de banheiro em manutenção que está sendo supervisionada por um funcionário deslumbrado pela chance de dar ordens.

Para compor os traços deste pequeno general com concisão, recorri à marcha decidida e selvagem dos soldados da Segunda Guerra Mundial. A imagem da marcha circular e a sua associação com o andar de uma hiena foram suficientes para a entrega de um texto que reinaugurava na minha escrita um humor feroz que me habituei a desprezar. Também sinto que foi ali que o interesse literário pelos animais foi assumido como tema e pesquisa de muitos textos que vieram em seguida (vocês verão como há bichos em Cruel!).

Talvez essa nova obsessão tenha surgido por perceber como a nossa racionalidade trai a inteligência óbvia dos instintos que os animais eternizam no andamento das suas vidas. A etologia é um grande parâmetro para nos questionarmos sobre os lugares sociais e afetivos que damos à família, à empatia, ao ego, ao amor, aos cuidados, à monogamia e muitas outras condições e comportamentos sociais que seguem conosco do nascimento à morte.

Após ler Descargo publicamente e me atentar às leituras dos colegas e de Evandro sobre o texto, duas palavras dele não me deram paz desde que foram ditas: “É cruel”.

Daí eu refleti.

Sim, é Cruel.