Estudo sobre Punir os Errados
A vida selvagem é impiedosa? Basta ligar a TV no National Geographic, Animal Planet ou algum similar para entender como a lógica de sobrevivência dos animais nos agride frontalmente. Maniqueístas, por vezes achamos que os leões são os vilões e, as gazelas, vítimas que devemos torcer até o final do programa (e sim, algumas edições colaboram para que nos guiemos nessa direção).
Pensando nas nossas fragilidades de tentar compreender o selvagem, elaborei uma história em que o governo norteamericano entendeu esse gap e soube utilizá-lo para exterminar imigrantes refugiados.
A ideia do governo foi fundir duas espécies letais de cobra e criar uma nova mais discreta e potente que seria colocada em pontos estratégicos para, sob a aparência de praga urbana, exterminar as pessoas que não são bem-vindas no solo governado pera era pós-Trump (aqui vale lembrar que os contos de Cruel tendem a se passar em futuros próximos).
Com um representante brasileiro envolvido na operação, a ideia toma outra proporção e esse homem também pretende trazer para o Brasil alguns exemplares da cobra a fim de “resolver” a “problemática” dos imigrantes, começando por São Paulo, para testar a eficácia da arma biológica.
Neste conto, a vítima direta da cautelosa operação é Denes, um haitiano em situação de rua que conseguiu emprego oferecendo aulas de francês.
Após uma semana da picada, Denes instaurava-se oficialmente entre os 3% de sobreviventes ao ataque da balam. Ele conheceu nesta semana mais hospitais do que frequentou a vida inteira, mas não encontrava uma só solução plausível para o problema. Passou de clínica em clínica e não recebia nada além de anestesias que cessavam a dor por três horas, se tanto. A ferida no alcançou sua boca e prejudicou a fala. Quem passava por Denes se assustava e se questionava se havia visto pus ou ossos. Não daria mais para dar aulas. Também não daria mais para comer pão de queijo e tomar café com leite.
O conto é um convite a pensarmos nos processos de desumanização que são tão frequentes nas gestões políticas atuais em diversos países (e também estados e municípios, fatalmente).
Humilhado, invisibilizado e atacado por camadas sociais que estão sempre presentes em sua história, Denes sintetiza com o corpo um país (países?) que não permite a ascensão e que encontra, no extermínio, o caminho da conservação - do conservadorismo.
Sendo assim, entendo Punir os Errados como um conto feito por personagens-lógicas que invadem o caminho uns dos outros sendo apenas aquilo que seus estados presentes o permitem ser, como se não houvesse espaço para a nova informação ou, minimamente, para o respeito.

