Estudo sobre Vou Te Não Contar Uma História

Uma discussão sobre poder dentro da própria ideia do texto literário: essa é a síntese de Vou Te Não Contar Uma História. Um (ou uma) narrador(a) em primeira pessoa conta uma situação aparentemente banal, mas as frases se negam logo após acontecerem, como se uma informação anulasse ou distorcesse a outra.

Negação após negação, inverdade após inverdade, o leitor é colocado em um lugar frágil e avesso ao que se espera de uma conversa com alguém.

A suposta história conta da relação entre duas pessoas de idades distantes e tem a forma de uma conversa desinteressada e espontânea — um papo começado apenas para passar o tempo. A sucessão de mentiras escancaradas é o recurso que pretende dar uma nova camada ao texto.

Estava passando na rua e olhei para o rapazinho, para o rapazote, e eu com 40 anos. Ele também olhou para mim. E depois da fixação, nos falamos. Ah, que vem sempre aqui, ah, que você é bonitão, ah, ah, ah, ah. Fizemos sexo a noite inteira, nem nos tocamos a noite toda porque o rapazote tinha é papo, ficamos conversando e escovando os dentes com copos de whisky, eu não bebo álcool, então ele me ofereceu suco de tangerina da casa da mãe dele, que ele não tinha como morar fora da casa dos pais ainda. Emprego pagando pouco, blá blá, 19, 20 anos. Ah, ah, para de lamentar.

A proposta é de que se veja um narrador que confunde a si próprio ou que pretende confundir o outro. Sendo assim, o conto rompe com a verossimilhança e busca traçar um outro tipo de relação — relação misteriosa e impositiva (não há espaço para a dúvida de algum interlocutor, há apenas a fala única que dispensa qualquer réplica e continua, continua, continua…).

Um dos primeiros acordos entre um leitor e o narrador é o da cumplicidade — um ponto que o texto despreza. Nesses termos, Vou Te Não Contar Uma História é uma provocação em texto e para o texto.

Sobre a resolução da história, o contexto e a estrutura — talvez não importem ou talvez sejam os aspectos mais importantes do conto.

Ou nenhum dos dois.

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