A arte é um manifesto sobre a (falta de) humanidade

O texto abaixo faz parte de um projeto da disciplina de Semiótica do curso de Design do C.E.S.A.R. School.

A arte ao lado é do artista Neilton Carvalho e foi apresentada na exposição “A arte é um manifesto — 30 anos de Devotos” que aconteceu em 2018 no Recife, no Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães.

O impacto que a obra causa logo de cara foi o motivo de ter sido escolhida para essa análise. É nítido o caráter social que ela manifesta.

Inicialmente, a análise será feita apenas na esfera visual, sem a interferência de contextos pré-concebidos.

O desenho mostra o que parece ser um garoto cabisbaixo, sentado no chão com a cabeça entre os joelhos e os braços cruzados. O menino está descalço, aparentemente sem camisa e sua calça apresenta sinais de retalhos. Pela sua posição, é possível sentir um ar de melancolia e abatimento. Juntando esses sinais, a impressão que passa é de que se trata de um garoto que convive com a miséria. Existe também uma atmosfera de solidão, já que o menino se encontra ali triste e sozinho. É difícil enxergar sentimentos positivos nessa composição.

As cores também fazem seu papel na obra. Na idade média, o marrom já era considerado uma cor “feia”, e seu uso nos vestuários estavam limitados aos pobres, camponeses, escravos, servos e mendigos. Coincidência ou não, o marrom e suas nuances é a cor predominante na pintura. É uma cor quente, e é associada à terra, madeira e pedra, o que alimenta uma narrativa que mais tem a ver com o “chão”, a pobreza, do que com a própria natureza em si.

Sobrepondo o desenho, há uma textura que se assemelha a um papel frágil, desgastado e rasgado, que ajuda na elaboração desses mesmos sentimentos na arte.

Na parte superior está o nome da banda da qual Neilton faz parte, Devotos do Ódio (atualmente chamada apenas de “Devotos”), numa tipografia de estilo medieval (tal como as condições de vida das pessoas que precisam subsistir diante da miséria, podemos dizer), colorido com um gradiente azul e branco que facilmente lembra algo celestial, divino, quase como uma salvação. Já na parte inferior estão os dizeres “futuro inseguro”, que deixa um pouco mais perceptível a mensagem da obra: para uma criança nessas condições de vida, o que o futuro lhe reserva? Parafraseando o trecho de uma música do grupo de rap Além Da Loucura, “se for morto, aonde cai? se crescer, pra onde vai?”. Logo acima, em letras pequenas, a assinatura de Neilton.

Neilton e Devotos

Neilton Carvalho nasceu e se criou no Alto José do Pinho, bairro suburbano da zona norte do Recife. Lá conheceu Cannibal e Celo Brown, seus companheiros na banda Devotos.

As letras das músicas contém intensas críticas sociais, originadas da vivência dos próprios integrantes no morro do Alto “Zé” do Pinho. O próprio Neilton quando adolescente construía seus próprios instrumentos musicais, adotando desde cedo a filosofia punk “do it yourself”, mesmo sem estar ciente desse rótulo na época. Fazia pela necessidade, e não pela rebeldia.

“ Eu não tinha dinheiro pra comprar uma guitarra legal, então era mais barato construir.

Em 1997 a banda lançou o álbum “Agora Tá Valendo”, que tem como última faixa a música “Futuro Inseguro”, mesmo nome que está gravado na obra analisada no texto. Abaixo, um trecho da letra:

“Crianças abandonadas / Pedem e roubam na calçada / Sem amor e sem carinho / Os pais morreram, estão sozinhos / Violência sofrida sem razão / Se passam fome, cheiram cola / Alguns viciados pelas drogas / Dizem que é o futuro / O futuro inseguro / Não espantem o menor / Ele sofre que dá dó”

Unindo a análise visual e contextual, as duas se encaixam na mesma narrativa: uma crítica social sobre o descaso com as crianças em situação de pobreza nas ruas e o gradual apagamento de sua humanidade. O modelo econômico capitalista exerce grande parte da culpa nessa história, principalmente pela negligência do Estado ao omitir ajuda humanitária às pessoas que vivem sob condições de vida precárias.