Ovo com Vírgula

Ovo com vírgula é uma peça que me chama, ela tem o mix perfeito de bizarro, a foto foi tirada na Caixa Cultural, obra de Arnaldo Antunes.
Logo de cara percebe-se um ovo com uma vírgula impressa na casca, ele está em pé no centro de um pódio dentro de um aquário cúbico.

Como foi mencionado a obra é bem peculiar, há uma profundidade na simplicidade. Uma imensidão branca com um ponto preto puxando toda a atenção possível nesse universo contido, contido como um ovo. Uma forma oval, limpa, literalmente casca de ovo, fechada de modo que protege tudo dentro de sua superfície dura porém, quebradiça, interrompida por um sinal de pontuação, uma serigrafia invasiva.

Do mesmo modo que um ovo traz uma ideia de segurança efêmera, ele traz de nascimento, apesar da vírgula trazer a ideia de interrupção, pausa, porém, pausa em que? A atenção revertida do branco é o início, porém a forma que a vírgula estabelece uma pausa na casca, ela estabelece uma pausa no pensamento.

Trazendo pro contexto gramatical “ovo” além de ser um monossílabo, é um palíndromo, não podendo ser dividido, se nada houver para dividi-lo dessa forma, um elemento gramatical deve ser aplicado de outra forma para trazer essa pausa. Apesar disso duas perguntas surgem dessa compreensão. Primeiro, por que? Segundo, para que?

Por que usar gramática para partir a lógica de um ovo? Para responder essa pergunta é importante declarar que gramática é linguagem, linguagem é comunicação, a única forma de conceder sentido ao mundo, uma vírgula representa uma pausa na lógica, um signo que para a lógica e abre janelas para a próxima oração. Um ovo é uma falsa fortaleza, uma figura de linguagem. Retomando a pergunta, por que? Por que a lógica vazia do branco e da falsa segurança deve ser pausada por uma vírgula? Porque, diferente de um ponto, uma vírgula não é o fim, é só uma pausa, um momento para respirar, refletir.

Para que refletir sobre a casca branca com uma vírgula? Afinal, não há nada para ser analisado. Seria o que passa de primeira na mente de alguém, culminando em desinteresse, porém esse pensamento não poderia estar mais errado. Abaixo da casca há uma infinidade de possibilidades assim como no branco há uma infinidade de cores. Para que refletir sobre a casca? Para poder dar valor ao muito que o pouco oferece.

Para poder ler as entrelinhas que estão divididas nos micro poros de uma falsa fortaleza de nada além de puro branco e uma, única, pausa, para observar.

SEMIÓTICA - Turma 2018.1

Publicação da disciplina de Semiótica da CESAR School, turma 2018.1.

    yago albert de souza cruz

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    SEMIÓTICA - Turma 2018.1

    Publicação da disciplina de Semiótica da CESAR School, turma 2018.1.

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