A relação com os territórios (teste)

Mapa Caminho das Águas PA Umarizeiras / Itatira
Uma das coisas que chamou muito a atenção foi como tem uma grande diferença da realidade de um assentamento para outro mesmo sendo bem próximo um dos outros. Tem assentamentos com grandes potencias de recursos hídricos com rios perenes e com grandes condições de produção por irrigação, que é o caso do Assentamento Nova Ladeira, que tem um grande recurso hídrico e produz frutíferas à base ecológica com defensivos orgânicos, tudo à base ecológica, e enquanto isso alguns assentamentos bem próximos estão sofrendo com a escassez de água. Uma coisa constante que nunca tinha visto em outros assentamentos é a quantidade de problemas e os tipos de problemas que tem em muito dos assentamentos daqui de Quixeramobim. Observei que tem muitos assentamentos com um número muito pequeno de famílias, de 5 a 10 famílias, e isso também não é muito comum para mim. Todas as famílias que consultei relataram que o esgoto é a céu aberto e isso é bem preocupante, mas não é só isso, conversando com um dos assentados do assentamento Monte Castelo, ele relatou que usa veneno nas plantações, o matamata, e que não faz mal nenhum para a saúde mesmo sem usar nem um EPI, equipamento de proteção individual, pois nunca sentiu nada; e o que eu achei mais absurdo foi ele dizer que no veneno tem um produto que aduba a terra e por isso não prejudica a terra — e ele relata que quem falou isso para ele foi um técnico; então fiquei abismado com tamanha desinformação por parte desse agricultor e que isso poderá lhe prejudicar, e muito, futuramente. Observei também que a saúde é bem precária, pois os atendimentos nos assentamentos são só uma vez por mês e a maioria deles fica, o local onde é feito o atendimento, fica bem distante do assentamento. relatório de estágio na ATER de Francisco de Souza, Assentamento Lisboa — São João do Piauí/PI
Legenda
O curso possibilitou integrar a escola com os territórios/comunidades da Reforma Agrária através da troca de conhecimentos e o fortalecimento do vinculo do educando com a comunidade e a organização da qual faz parte. O curso traz em sua organização curricular a prática em vigilância em saúde, através do (re)conhecimento da produção da vida nos territórios camponeses, identificando e analisando as condições de vidas das famílias que vivem naquelas comunidades e quais formas de intervenção para melhorar essas condições. Os trabalhos dos Tempos Comunidades possibilitaram a integração dos conhecimentos a partir dos Módulos, através da realização das atividades teórico-práticas e de investigação e construção de uma proposta participativa com a comunidade — o território em que cada educando/a esta inserido/a. relatório da Caravana do Oeste Paranaense, dezembro, 2013)
as diversas atividades de campo realizadas de forma coletiva permitiram aos educandos vivenciarem experiências de diversos territórios, em diversas formas, seja trazendo a leitura do seu território, interagindo com os educandos e educadores sobre outras vivências, seja desenvolvendo suas atividades em outro assentamento, na realização de intercâmbios, na vivência de integração curricular e voltando ao início ressignificando o seu próprio território, o que permite o movimento combinado e sucessivo de maiores distanciamentos e aproximação de seu assentamento, com um novo olhar e novas potencialidades. Este método estabelece através da práxis, a construção de um conhecimento que permite a análise crítica e a constituição de consciência sanitária, ambiental e política, enquanto sujeito sociohistórico. relatório de sistematização do Eixo Saneamento Ecológico e Habitação Saudável.

Esta é uma história de lugares. De territórios. De movimentos. De pessoas que caminharam para estudar, refazendo sua geografia de vida.

É, inclusive, uma história que se repete quando falamos das juventudes do campo: uma geração “de muitas complexidades” situada no movimento de nosso tempo.

Por isso entrar neste fascículo da Relação com os Territórios é lembrar que os passos em direção a esta história foram dados de muitos lugares e/ou situações: no sol, na chuva, na seca, no calor e no frio; nos vales, nas planícies, nos mares, nas matas e trilhas.

Esses passos, assim como as trajetórias das jovens pessoas que os deram, passaram por estradas de asfalto e de terra, de carro, de ônibus ou de pau de arara, passaram por rodoviárias ou pelo ar, de avião, por aeroportos; passaram pela Caatinga, repleta de vida adormecida, esperando a chuva, misturada com poeira.

Vieram dos rincões do Ceará, Piauí, Maranhão, Tocantins, Bahia, Alagoas, Pernambuco; do vale do rio Tocantins, da Ilha, a Maria da “Ilha”, atingida pela barragem de Estreito, na divisa com o Maranhão.

Vieram ainda pela PI-141, que cruza o Assentamento Lisboa, no Piauí; ou da Zona da Mata baiana, no extremo sul da Bahia, lugar dos antigos barões do cacau, da mata cacaueira, que hoje ainda permanece misturada com a mata costeira ameaçada pelo turismo das elites, pelos portos e ferrovias.

Alguns vieram do agreste alagoano, microrregião de Arapiraca, onde a mineração também existe e cresce.

Outros, de forma solitária, saíram do extremo oeste de Pernambuco, também do sertão, de cidade importante, Ouricuri, polo gesseiro e passagem da Transnordestina; ou vieram de Caruaru, terra das feiras e forrós, lugar importante do vale do Ipojuca, incrustado no planalto da Borborema.

E muitos deles vieram do Ceará, dos sertões ao litoral: vieram de reassentamentos forçados, o Alagamar, em Jaguaretama no médio vale do Jaguaribe, mas também do seu trecho baixo, já em Limoeiro do Norte, no Tomé, lugar das bananas e melões envenenados ― onde muito conflito já surgiu, até morte de liderança, o Zé Maria, razão que motiva o Movimento 21, para lembrar sua morte, o dia 21 de abril de 2010; e há ainda quem veio do noroeste cearense, de Santa Quitéria, um lugar ameaçado pela mineração de urânio ― conflito atual, que pede um alerta da sociedade para não se transformar em mais sacrifícios.

Mas estes passos passaram também pelas terras frias do Sul do Brasil, região de muitas contradições e lutas históricas. Jovens e adultos moradores e agricultores de assentamentos e de terras tradicionais, como os faxinais, cruzaram o ecossistema da Mata de Araucárias.

Muitos são filhos e filhas das grandes ocupações de terra no Paraná, muitas das quais as maiores do país. Nasceram onde hoje estão os maiores assentamentos de reforma agrária da América Latina. E assim, partiram dos assentamentos Ireno Alves, Marcos Freire, Oito de Junho e Celso Furtado, terras ocupadas pelas maiores mobilizações do MST no Brasil. Luta grande frente ao latifúndio madeireiro Giacomet-Marondim, hoje Araupel. Saíram de lá.

No nordeste paranaense, os passos também foram dados. De Imbaú a Ortigueira, municípios impactados pelos desertos verdes e pelas fábricas de celulose. No centro, de Jardim Alegre, Turvo, Laranjal e Boa Ventura de São Roque, caminharam desde os assentamentos cobiçados pela especulação.

Outros vieram mais solitários, de Santa Catarina, compor a turma Josué de Castro, no Paraná. De Passos Maia, Calmon e Caçador, na divisa com o Paraná, e de Taió, na região central do estado catarinense.

Todos esses passos, articulando juventudes, territórios, movimentos, constituíram essa caminhada coletiva na qual MST, MAB, Articulação Puxirão dos Povos Faxinalenses, Movimento 21, a Articulação Anti-Nuclear e o Movimento dos Pescadores e Pescadoras Artesanais puderam solidariamente e em sintonia com as lutas de cada lugar contribuir para a formação e o engajamento de jovens do campo por meio do Curso Técnico em Meio Ambiente/CTMA.

Este fascículo, que aqui apresentamos trata dessa experiência, aprofunda a dimensão da territorialidade e o território enquanto categoria, trabalhados durante o CTMA, e enseja que, a partir dos elementos aqui trazidos, se possa inspirar processos reflexivos e contribuir com outras lutas nos muitos lugares ou movimentos em que se encontram as juventudes do campo no país, sobretudo as que se organizam pelo efetivo direito a uma educação e saúde do campo de qualidade.Contudo, a despeito de haver convergências entre a matriz teórica da politecnia — que é a base da proposta pedagógica da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio/EPSJV, tal como já apontamos no Fascículo 1 — e a Pedagogia do MST, a operacionalização do cotidiano não se fez sem desafios. Dentre os quais, por um lado, a própria compreensão do Método e, por outro, sua abertura para que instituições parceiras participem da sua construção — tendo em vista que geralmente as instituições que fazem parceria com o MST através da realização de cursos concentram suas energias nos momentos de tempo-aula, resultando em que os outros elementos do Método Pedagógico do MST terminam por virar um currículo oculto.

O CTMA, no entanto, incorporou o Método Pedagógico do MST em ambas as turmas (Ceará e Paraná) — e para ele também contribuiu. É a partir desse mote que refletimos a seguir de que modo se estruturou essa formação e quais as contribuições para esse próprio Método, bem como para a educação e saúde do campo, no cerne de sua necessária articulação para o empoderamento de trabalhadores e trabalhadoras, das juventudes rurais e das comunidades em seus territórios.

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