O território e as denúncias

A perspectiva da qual estamos falando tem a ver com a identificação de contextos e processos que convergem para um contínuo e progressivo avanço da lógica do capital por meio da expropriação de terras, contaminação de águas, solos, de recursos pesqueiros, de acessos, de formas de organização. São os vetores do desenvolvimento, como costumam ser chamados pelos planejadores, investidores e empresários, os projetos de mineração, do agronegócio, das monoculturas, das fábricas de celulose, dos perímetros irrigados, das usinas eólicas, das fazendas de camarão, da pulverização aérea. Se para estes setores esses são “vetores da economia nacional”, “vetores do mercado”, para aqueles locais — isto é, as populações vulnerabilizadas e atingidas — são vetores de adoecimento, pois criam uma paisagem vulnerável que ameaça a produção social do espaço camponês, de pescadores/as, de marisqueiras, de comunidades inteiras, e impõe condições precárias de trabalho, alteram os usos do território, restringem o acesso à natureza, aumentam o controle e a vigilância sobre lideranças e comunidades. Porque, afinal, trata-se de relações assimétricas entre projetos, intencionalidades e atores.

Estas iniquidades — certamente evitáveis se não fosse o modelo de desenvolvimento hoje em curso em todos os cantos do país — vêm aprofundando perfis diferenciados de adoecimento, sejam eles mais ligados aos aspectos materiais, produtivos, relacionados ao trabalho, sejam eles mais ligados aos fatores simbólicos, culturais e psíquicos, relacionados ao modo de vida, de organização, de identidade e sentidos de pertencimento com o território.

Esta dimensão da denúncia, implicada nas disputas pelo uso, acesso e apropriação do espaço, de seus recursos, de suas riquezas, fizeram parte dos trabalhos de campo, nos três tempos-comunidade — e foi diferentemente percebida pelos/as educandos/as na forma de ameaças à vida, ou seja, naquilo que é percebido como “doença”, como adoecimento, ou como potencial para adoecer. Neste sentido, pretendemos, aqui, mostrar um exercício sistemático de mapeamento das ameaças registradas nos TCCs, na forma de mapas, mesmo sabendo que nem todas elas estarão contidas e espacializadas nos mapas mostrados a seguir.

por Eduardo Barcelos
Por Eduardo Barcelos