Saber, fazer e aprender

Compreendendo o CTMA como um processo que não começa em setembro de 2012 e nem acaba em dezembro de 2013; compreendendo a saúde do campo como uma dimensão própria, singular, cujas bases vêm sendo construídas na luta dos movimentos sociais, dos profissionais e setores da saúde comprometidos com as lutas da Reforma Sanitária e da Reforma Agrária, pelo reconhecimento dos territórios dos povos tradicionais, entre tantas outras lutas no Brasil; compreendendo ainda o empenho de muita gente, tanto da sociedade civil como do serviço público, com uma visão mais ampla do conceito de saúde … temos um longo percurso nem sempre fácil de trilhar, algumas vezes mesmo tortuoso, mas certamente rico e prenhe de significados ao longo dessas últimas quatro décadas.

A tentativa de sintetizar esse caminho para poder compartilhá-lo levou-nos à criação de uma árvore, uma árvore da vida — uma árvore da vida do CTMA na relação com esses processos de construção de uma concepção emancipada de saúde do campo.

Escolhemos a árvore porque esse símbolo esteve tão presente nas representações de quem passou pelo CTMA — desde o nome da turma no Ceará (Raízes da Terra) até mesmo ao que significou, do ponto de vista de processo, para quem nele se formou — que não nos pôde passar despercebido. Ademais, a árvore é um símbolo universal que retrata justamente, a partir de seus vários elementos e de sua capacidade de renovação, os ciclos por que passam os diversos organismos vivos, dentre os quais o próprio ser humano.

Raízes

Nesse sentido, tudo que antecede os processos desenvolvidos diretamente nos territórios no período compreendido entre setembro de 2012 e dezembro de 2013 se encontra nas raízes. Nelas encontramos o que dá sedimento, a terra onde se fincam os sustentáculos do CTMA, nem sempre numa relação direta e à primeira vista perceptível, contudo imprescindível para uma compreensão mais ampla do que estamos tentando comunicar — e diretamente vinculado aos processos de luta pela saúde do campo.

O tronco

O tronco dessa árvore é o CTMA propriamente dito. Tudo aquilo que o constituiu, sua inserção nos territórios, os módulos, eixos, o regime de alternância entre tempos-escola e tempos-comunidade, enfim: é o Curso! Quando dizemos isso é na compreensão de que o CTMA é, em termos de processos mais amplos, o fio condutor desses 5 Fascículos que estamos a compartilhar — mas, como já dissemos, o CTMA é também o mote a partir do qual estamos problematizando a questão da saúde do campo e suas relações com os territórios, os ambientes, as condições de trabalho, de produção e de geração de renda, as políticas públicas pensadas para o campo, os aspectos étnicos, sociais, culturais e de gênero.

A copa

A copa dessa árvore, por sua vez, está constituída, dentre outras coisas como vamos ver, sobretudo pelas pessoas formadas nesse processo: Técnicas e Técnicos em Meio Ambiente/TMA com ênfase em Saúde Ambiental das Populações do Campo. Aqui vamos procurar dar a saber de onde são, o que estão a fazer e de certo modo perceber o que todo esse caldo de processos conseguiu colocar em movimento nos sujeitos que dele fazem parte.

Os frutos

Quanto aos frutos, alguns já são bastante visíveis, tais como o fortalecimento dos processos organizativos nos territórios de base desses/as TMA’s e a a sua inserção qualificada nos Coletivos do Setor de Saúde do MST e/ou dos movimentos outros de quefazem parte. Outro aspecto é a orientação de grupos e sujeitos nos seus territórios quanto a questões relacionadas a formas de produzir que considerem verdadeiramente a equação custo/benefício, no sentido de uma relação mais equânime com o meio ambiente relativamente às formas de produção/habitação/consumo/geração de renda; Destaca-se ainda os convites recebidos por vários técnicos formados para atuarem em equipes de Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER).Outros frutos, porém, advirão dessa aposta no futuro que é no que se constitui todo processo de educação.

A tentativa de sintetizar esse caminho para poder compartilhá-lo levou-nos à criação de uma árvore, uma árvore da vida — uma árvore da vida do CTMA na relação com esses processos de construção de uma concepção emancipada de saúde do campo.

Ao longo dos Fascículos, e não de uma só vez, vamos aos poucos nos familiarizando com todos os sujeitos envolvidos e aspectos, nunca de forma conclusiva mas de modo a nos instigar outras leituras. Isso porque os 56 estudantes formados/as ao final dos 14 meses de trabalho intensivo são significativos, enquanto referência, de processos que passam, entre outros:

  • pela luta do Movimento da Reforma Sanitária Brasileira, que tem como marco a 8ª Conferência Nacional de Saúde; pela constituição do Setor de Saúde do MST e seu conceito ampliado de saúde;
  • pela criação do Grupo da Terra e pela importância decisiva de setores ligados à luta pela reforma agrária e saúde do campo; 
    pela própria trajetória do Laboratório de Educação Profissional em Vigilância em Saúde/LAVSA e pelas experiências desenvolvidas com as populações do campo;
  • pela cooperação, também, entre a Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio e o MST que já tem realizado várias experiências pedagógicas buscando encontrar caminhos possíveis para a educação profissional em saúde do campo;
  • pelo envolvimento, enfim, de um sem-número de parceiros, com especial destaque para o Núcleo Tramas da UFC e a Universidade Federal Fronteira Sul/UFFS-PR e o CEAGRO no Paraná — parcerias essas, como veremos, encontradas em vários estados do país, para além daquelas por onde o CTMA passou ou aconteceu.

Partilhar esse caminho, no entanto, ou essa árvore da vida, mais do que um “prestar contas” do que foram esses processos todos e os esforços que vimos empreendendo nesta experiência, tem um recado muito direto para os governos e a para a sociedade: a importância e a necessidade de se pensar profissionais técnico-militantes para atuar na saúde do campo, vinculados com os territórios e exercendo sua ação a partir do conhecimento articulado entre ambiente e saúde. Vejamos o que isso significa!Nesse sentido, ao longo dos Fascículos, e não de uma só vez, vamos aos poucos nos familiarizando com todos esses aspectos, nunca de forma conclusiva mas de modo a nos instigar outras leituras.