Selo de autoridade apenas ou “pagou e publicou”?

Sempre me perguntei se existia algo além dos critérios preestabelecidos pelas editoras para a escolha de artigos selecionados para compor um fascículo de periódico. As publicações divulgam suas regras, os candidatos a autores se enquadram nelas e o processo de publicação segue seu rumo.

Há poucos dias, um colega de mestrado postou na página da nossa turma no Facebook uma chamada de artigos sobre o tema “avaliação da ciência” para o periódico “El Profesional de la información”.

Pareceu-me interessante, até porque, entre inúmeros assuntos aceitaria artigos sobre indicadores bibliométricos e avaliação acadêmica entre outros. Não que eu pretenda publicar lá, mas os assuntos me interessam.

Fui checar as informações sobre publicação de artigos desse periódico. Todos os artigos dessa revista passam por uma dupla avaliação cega, realizada por 2 ou mais membros do comitê científico internacional da revista, bem como por outros avaliadores, que imprimem um “selo de autoridade”. Conferido pelos profissionais mais atuantes, conhecedores daquele assunto e, em geral, referência acadêmica da área em questão, serve para referendar aquele artigo que está sendo avaliado. Ok, bem normal.

Então, segui consultando os critérios para autores: que surpresa! Vejam, não basta apenas passar pelo crivo do comitê de avaliação. Ao chegar nesse ponto — ter o artigo aceito –, é necessário efetuar o pagamento de 200 euros por artigo para que o mesmo seja publicado pela revista! E como “prêmio”, o autor tem acesso gratuito ao conteúdo da revista relativo aos anos de 2000 a 2015. Durante 1 ano apenas! Ah, se pagar mais 300 euros — o que dá um total de 500 — o autor terá seu artigo liberado para o acesso livre…

A revista ainda informa que, se os autores desejarem, adicionalmente, publicar seus artigos num segundo idioma, os mesmos devem ser perfeitamente traduzidos e revisados por um nativo do idioma escolhido. E… pagar mais 150 euros para publicar esta versão!

Então, volto à questão: selo de autoridade? E se o autor não se dispuser a pagar pelo artigo selecionado? Vão selecionar aqueles de qualidade inferior, cujos autores se sujeitam a pagar? Que selo de autoridade é esse?

Cito como exemplo, um texto que encontrei na internet, e acho que vale a pena ler (http://dererummundi.blogspot.com.br/2014/11/as-peripecias-de-um-matematico.html). Em resumo, trata, além da opinião do autor sobre os modelos de publicação em voga, de uma estratégia usada para provar como um “personagem acadêmico” criado por ele obteve a aprovação de um artigo inconsistente em alguns periódicos na área de matemática. Pois bem, 3 periódicos aceitaram sem ressalvas o artigo. Mas, para serem publicados, solicitavam o pagamento de taxas, que variavam entre 225 a 758 dólares!

Na área de botânica, o periódico Taxon cobra 50 euros por página, sendo que as 4 primeiras são grátis. Isto para os não-associados, já que ela é editada pela International Association for Plant Taxonomy. Caso o artigo contenha pranchas (ilustrações botânicas), é necessário pagar 300 euros por uma apenas!

Conheço pesquisador que não publicou nesta revista por não poder pagar, já que a instituição se negou a tal. Então ele perde, a instituição perde e os leitores perdem…

Pode ser que, daqui a um tempo, o selo de autoridade não seja apenas o único meio de legitimar a escolha desse ou daquele artigo para publicação. Parece que o “pagou, publicou” começa a emergir como mais um critério.

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