Á luz dos olhos

Diante do repórter, seus olhos mostravam raiva. Talvez por ver tanto branco e azul, o jogando doze anos no passado, quando essas mesmas cores inundaram esses mesmos olhos de lágrimas e desespero. Sentir essa impotência, tanto lá atrás como aqui na frente, o fizeram descarregar no microfone o que carrega desde aquela partida em Lisboa . Quando o monstro alviceleste apareceu na sua frente, fechou os olhos e fingiu ser outra coisa. E pegou mal.

Para o público geral, a ascensão dos vikings brancos e azuis, colecionando glórias e a simpatia de um continente, enquanto o craque e seus meninos escorregavam, ainda que para frente, era lição suficiente. Mas para o público mais exclusivo, do camarote acima das nuvens, havia ainda mais a aprender.

A bola se tornou planeta e girou sobre si, em uma rotação de 12 anos que o colocou no cenário que sempre quis viver, que sempre quis mudar. Os sinais de intervenção lá de cima, no entanto, já começavam a aparecer. As situações, dessa vez, eram invertidas.

O azul nem era necessário, mas lá estava para provocar seus olhos, que acordaram atentos, focados, dispostos; mas que cedo, cedo demais, se enchiam de lágrimas. Sentiu, caiu, levantou, tentou, mas não conseguiu escapar do que os reais mandatários do futebol o tinham reservado.

Lembremos, por um momento, das mães, que por diversas vezes se veem em situações em que devem, mesmo com um aperto no coração, cercear a liberdade de seus pequenos, para que estes saibam usá-la quando dela gozarem novamente. Tomar de juiz para dar juízo.

Juízo este que teve o árbitro, com o mesmo aperto no coração, ao chamar a maca à campo na marca de ¼ de jogo.

Mães tem essa sabedoria mística, essa segurança de visar — e atender — somente o melhor para os seus. E o que parecia um castigo dos piores, das mazelas mais agudas, virou das mais valiosas lições.

De um dos lugares mais estranhos a ele, foi que teve a maior clareza. Como se em um milagre daltônico, o vermelho de seus meninos foi virando, quem diria, azul e branco. E no meio dos giros: do planeta, da bola, do relógio, os olhos, estes quase a girar, se inundaram novamente. O desespero já não lhe trazia nada senão o desconforto de uma joelheira.