Nutricionista e filha dão dicas importantes para quem quer ser vegetariano

Kátia e Carol, mãe e filha que juntas viraram vegetarianas

Em entrevista, mãe e filha contam sobre a transição que fizeram juntas e as dificuldades enfrentadas por serem vegetarianas

Por: Carlos Eduardo, Gabriela Maraccini, Julia Rohrer e Juliani Souza

Fazer a transição para uma dieta vegetariana ou vegana não é uma tarefa fácil. Requer muita dedicação, pesquisa, força de vontade e, é claro, seriedade. Mas para Kátia Martins e sua filha, Carolina, não houve grandes desafios. Em entrevista, a nutricionista e a estudante de Psicologia contam como foi a transição para elas e dão dicas importantes para quem pensa em começar uma vida sem carne.

Tudo se iniciou quando Carol ainda tinha seis anos de idade. A carne bovina raramente fazia parte das refeições da família e, com o tempo, frango e peixes também foram sendo descartados. “A Carol não chegava para mim e falava que não queria mais comer bichinho”, revela Kátia. “Ela só falava que não queria mais comer carninha, que não queria mais comer franguinho”. Quando sua filha completou sete anos, foi quando ela parou definitivamente de comer carne. “A última vez, me lembro até hoje, eu fiz um filé de frango, dividimos em três pedaços — um para cada (incluindo seu marido) — e, naquele dia, sobraram dois filés de frango. Então eu falei ‘chega, ninguém está querendo mais’”.

Foto de Kátia, a nutricionista

Preocupada com o desenvolvimento de Carol, Kátia conta que foi atrás de informações para uma transição balanceada que não prejudicasse o crescimento de sua filha. Foi assim que toda a família acabou se tornando ovo lacto vegetariana (vegetarianos que ainda comem ovo, leite e seus derivados). “Foi fácil para a gente porque já tínhamos uma alimentação mais equilibrada”, a nutricionista confessa. “Eu já gostava de comer legumes, então para mim foi fácil”, completa Carol.

Mas a família Martins é uma exceção. É muito comum que pessoas em transição sintam muita dificuldade em adaptar a alimentação e que acabam engordando ou desenvolvendo anemia por comer mais carboidratos do que proteína. Com base nisso, Kátia dá dicas importantes de nutrição para quem quer começar uma vida sem carne: incluir nas refeições mais grãos e folhas escuras, que são alimentos ricos em ferro, assim como as folhas verdes, ricas em cálcio.

“Hoje em dia temos uma variedade de alimentos muito grandes, como chia, que tem uma quantidade altíssima de cálcio, sete vezes mais que o leite”, Kátia explica. “E o leite, hoje em dia, não é um leite tirado diretamente da vaca. É um leite que a indústria modificou totalmente sua composição para poder durar na embalagem TetraPack”.

Sobre os alimentos ricos em proteína, a nutricionista lista os grãos que ela mais come em suas refeições: Grão de bico, feijão fradinho, feijão azuki, lentilha, lentilha síria, feijão branco, ervilha seca. Além disso, ela ressalta que leguminosas e vegetais também tem uma pequena quantidade de proteína em seus nutrientes.

Kátia também faz uma crítica aos nutricionistas que exaltam a proteína de origem animal como a mais importante para a construção dos músculos. “Se você for fazer uma pesquisa científica, não existe comprovação para essa afirmação. Afinal, como é que pode um gorila gigante não comer carne e ter tanta força?”, indaga.

Carol e sua mãe não deixaram de lado um alimento muito usado para a transição, embora não seja o mais recomendável para uma dieta vegetariana: a soja. “Para a soja chegar àquela textura, ela passa por vários processos químicos. Então, você acaba comendo mais química do que alimento”, afirma Carol. Kátia defende que seu consumo é bom para matar a vontade de comer carne para aqueles que estão iniciando os hábitos vegetarianos. “É mais para o processo de transição, porque com o passar do tempo a sua cabeça e o seu paladar mudam”.

Entretanto, nem tudo são flores. As duas revelam que já enfrentaram situações chatas e constrangedoras por serem vegetarianas, tanto durante a vida social, como na família. “A primeira dificuldade que nós tivemos foi com a nossa própria família.”, contou Kátia. “Uma vez fomos à casa de uma prima nossa, estávamos todos nós e o pessoal pegou pesado com a gente na mesa. Tiraram sarro da gente e foi uma situação constrangedora”.

Carol confessa que também já teve dificuldades na escola. Ela conta que, no começo, durante o Ensino Fundamental, ela sentia orgulho de se assumir vegetariana e contava para todos. “Só que eu comecei a ver a reação das pessoas. Elas tiravam sarro, faziam piadinhas. Então eu comecei a parar de falar que eu era vegetariana para evitar esse tipo de situação”. No ensino médio não foi diferente. Muitas vezes ao sair para almoçar com os amigos, Carol escutava os mais diversos tipos de comentários sobre sua alimentação, como “as plantas também sentem dor” e “ai, você só come mato”. “Chegou uma hora que eu parei de almoçar com o pessoal. Eu preferia almoçar sozinha, porque eu não aguentava mais eles enchendo o saco”.

Nesse momento da entrevista, Denis Martins, marido de Kátia e pai de Carol, também compartilhou um pouco da sua experiência, afirmando que uma de suas maiores dificuldades para se assumir vegetariano foi no trabalho. “Existem as mais diversas reações possíveis. Tem gente que acha que você está querendo ser metido, que quer ser ‘diferentão’”, começa. “A pessoa, às vezes se sente menor, ou pega raiva. Então, para evitar esse constrangimento, eu não falo nada”. Denis também revelou um episódio em que, após seis anos sendo vegetariano, fez o consumo de carne por uma questão social. “Cheguei em casa e passei super mal”, expõe. Carol explicou, posteriormente, o porquê de isso acontecer: “quando você para de comer carne, toda a química do seu corpo muda. Então se você come, você passa mal. Solta o intestino”.

É claro que, apesar dessas questões, a família Martins sente muito orgulho de ser vegetariana e recomenda a dieta pelos seus benefícios a saúde. Além de todas as dicas nutricionais feitas por Kátia, Carol completa que é importante buscar receitas de pratos que a pessoa gosta com opções sem proteína de origem animal e cita como exemplo os bolos que faz, substituindo o ovo na receita por chia ou linhaça, que dão a mesma textura fofa. Por fim, as duas ressaltam que é importante pesquisar e se informar com especialistas para atingir uma alimentação balanceada a fim de suprir todos os nutrientes necessários.