
Minha irmã
Minha irmã era diferente de tudo que eu pensava que uma irmã seria. Pra começo de conversa, minha irmã tinha quatro patas, só o primeiro nome — Winnie — e um fraco por doce que confesso, é de família. Minha irmã não nasceu, ela chegou. Ou melhor, nós fomos buscar, lá em Mogi da Cruzes, um dia de manhã bem cedinho. Não sabia quem estava mais assustado. Se era ela, na sua cama que nos últimos anos era do tamanho certo mas que, nesse dia, no banco de trás do Sieana azul da minha mãe, parecia uma king size frente ao tamanhozinho dela. Ou se era eu, pensando como iríamos tomar conta dela. Afinal, agora éramos irmãos.
Minha irmã passou a viagem inteira em silêncio, medindo todo mundo no carro: sua mãe, seu pai e seus dois irmãos. Bastou chegar em casa pra ela se soltar. Esse lance de marcar território, sabe? Minha irmã virou a casa de ponta cabeça. Literalmente. Hora era a gente se contorcendo para tentar impedi-la de fazer xixi embaixo da cama — só tentar mesmo — hora era virando o móvel da sala, para limpar a obra de arte mais recente dela: um cocô bem atrás do som. Não me surpreendia se tivesse tocando U2 e aquele fosse um protesto. Cachorro são espertos, dizem.
A loucura do primeiro dia passou, mas minha irmã ainda tinha seu truques. O primeiro deles foi desaparecer dentro da lava roupa. Como? Eu também não tenho a menor ideia, um mágico nunca revela seus segredos. Uns dias depois, comeu plástico, apesar de nossos esforços em fingir que aquela ração sem gosto era uma delícia. Devido à esse último ato, eu e minha família nos revezamos na madrugada, observando-a dormindo, só pra ter certeza de que estava tudo certo. Naquela época, minha irmã dormia no banheiro dos fundos. Bastou algumas semanas para a cama ir mudando de lugar. Primeiro pra cozinha, depois pra sala, depois pra mais dentro da sala, até entrar de vez no quarto da minha mãe. Como um general destemido, ela foi conquistando território. Suas armas eram olhos grandes, uma cara de dó e uma energia incansável. Que exército resistiria?
Minha irmã foi educada em casa. Foi lá que a ensinamos a subir no sofá, para delírio da minha mãe. Foi onde ensinamos ela a sentar e dar a pata, e alguns depois, até mesmo high five entrou na grade curricular. Aprendendo a mecânica de pular no sofá, ela rapidamente a usou para pular nas nossas camas. “Nossas” que automaticamente virou “dela”.
Minha irmã era corajosa. Latia para labradores, borders, weimaranes, berneses e goldens. Quanto maior, mais atrevida. Mas quanto menor, menos ela ligava. O que causava grande raiva nos salsichinhas e schnauzers que faziam de tudo pra provoca-la. Minha irmã era como um bom zagueiro em Libertadores. Não caia em provocações.
Minha irmã sabia correr. Isso ela não aprendeu comigo, veio de fábrica. E como corria. Por praias, jardins e parques, dando baile na gente e deixando o rosto dos espectadores estupefatos. “Como ela corre” eles diziam, enquanto ela parava, língua de fora e uma cara que dizia “eu sei, eu corro pra caralho e vocês nunca vão me alcançar”.
Minha irmã era companheira, como uma boa irmã deveria. Um dia, depois de uma grande desilusão amorosa, em que fiquei horas chorando no quarto, foi o barulho do fucinho dela na porta que me trouxe da realidade. Quando eu girei a maçaneta, ainda sentado na cama aos prantos, ela entrou devagar, pulou na cama e deitou no meu colo, ficando lá até eu conseguir parar de chorar, apenas algumas horas depois.
Minha irmã tinha um faro incrível. O máximo que eu conseguir farejar era o bolo da minhã mãe, mas ela conseguia ir direto na fonte. Em uma viagem à praia, fui leva-la para passear enquanto minha mãe andava por aí. Ela foi cheirando, farejando e me levando, até darmos de cara com quem? Minha mãe. Infelizmente, sem bolo.
Duvido que minha irmã fosse muito de música, muito menos de Carnaval. Logo ela, tão avessa ao barulho de festas e fogos, mas se por acaso ela tinha uma música favorita deveria ser “Manda Ver” da Banda Eva. Ou pelo menos, uma parte dela, que diz “Vem, estou esperando você, pra gente fazer um auê”. Era abrir a porta pra ela aparecer de onde estivesse, pulando e fazendo festa. Você não seria melhor recebido em um hotel 5 estrela do Taiti com diária de 10 mil dólares. Os recepcionistas desses hotéis são pagos pra isso. Ela, não, apesar de ficar sempre esperançosa por um biscoito de recompensa. E você pode culpá-la?
Agora, não pense que ela deixou de aprontar com o tempo. Nem um pouco. As travessuras continuaram. Ela comia as batatas e as cenouras da casa. Revirava o lixo, truque que aprendeu mais velha, ignorando o velho ditado que cachorros velhos não aprendem truques novos. Minha irmã era malandra. Não gostava de remédios, então, na tentativa de engana-la, minha mãe enrolava a pílula em um queijo ou um presunto. Minha irmã comia tudo em volta da pilula e a devolvia. Mas se ela era malandra, o resto da familia também era. Minha mãe passou a esconder a pilula numa colher de requeijão, que ela lambia inteira, sem suspeitar que tinha sido enganada para o próprio bem. A medida que foi ficando mais velha, minha irmã parou de correr e passou a cultivar um hábito que tinha desde criança: passear de carro. Sob o olhar atento dela do banco do passageiro, fui deixado em tantos lugares por minha mãe: faculdade, clube, vestibulares, entrevistas e muito mais. Quando eu virava meu rosto, após sair do carro, minha irmã estava sempre lá, atenta, me olhando.
Depois de 12 anos, minha irmã se foi. Assim, de repente, do mesmo jeito que tinha chegado. Dessa vez, a casa ficou em silêncio. Nada foi revirado. A máquina de lavar não foi invadida. As batatas e cenouras continuam no lugar. O pote de requeijão ainda tá cheio. Minha irmã se foi, calma e serena, como sempre era. Educada ao extremo — era a primeira a te receber na porta e a primeira a te acompanhar na saída, talvez por querer saber se você a levaria para passear de carro ou não, mas mesmo assim — fez questão de não ir embora na nossa frente, como que para amenizar um pouco a dor.
Certa vez, li sobre uma família que chorava a morte de sua cachorra. O pai, aos prantos, questionou porque os cachorros morriam tão cedo, enquanto que nós ficávamos aqui. O filho, de uns 5,6 anos, respondeu que era porque os cachorros aprendiam a amar mais rápidos que nós. Enquanto eles precisavam de poucos anos, nós demorávamos a vida inteira.
Minha irmã aprendeu rápido e nesses 12 anos, amou sua família com todas as forças e energias. E por mais que eu tenha certeza de que ela brincou, correu, lambeu, comeu, pulo, entrou em máquinas de lavar, roubou batatas, farejou, deu high five e foi muito feliz nesse tempo todo, — e nos deixou muito feliz — uma parte de mim gostaria que ela tivesse sido uma aluna um pouco pior e passado mais um tempinho com a gente, nem que só mais um dia, mais uma hora, mais um high five.