
A cor das vítimas de arma de fogo: uma luta imortal
Em junho, um suposto tiroteio entre policiais militares e criminosos na região da UPP Borel, na Zona Norte do Rio, resultou na morte de Jhonata Dalber Mattos Alves (16 anos). O jovem levou um tiro na cabeça e chegou a ser encaminhado para o Hospital Federal do Andaraí, mas não resistiu.
Infelizmente, o caso de Johonata reforça as estatísticas de jovens negros mortos por arma de fogo no país. Em 2014, a taxa de pessoas com idades entre 15 e 29 anos foi de 92,5 por 100 mil, índice que equivale ao extermínio da juventude.

Dados do Mapa de Violência de 2016 do Brasil, desenvolvido pelo sociólogo Julio Jacobo Waiselfsz, mostram que apenas três estados — Tocantins, Acre e Paraná — matam mais brancos que negros.
O infográfico ao lado mostra a contrastante estatística entre as mortes de negros e brancos. O índice de homicídios é o que mais assusta.
No estudo, entre 2003 e 2014, a taxa de homicídios de brancos caíram 27,1%, enquanto a taxa de a negros aumentou 9,9%. Assim, a vitimização negra do país, foi de 71,7%, em 2003 para em 158,9%, em 2014.
A privatização da segurança
Como nas áreas de saúde e educação, a segurança é vendida àqueles que podem pagar por ela.
Uma pesquisa domiciliar realizada pelo IBGE, em 2011, mostra que famílias brancas possuem uma renda média de 75,2% maior que das negras. A partir disso, desfrutam de uma dupla segurança: a pública e a privada; enquanto as menos abastadas, predominantemente negras, usufruem com o mínimo que o Estado oferece.

Uma herança colonial
Não reconhecer a origem histórica da violência no país e da construção de identidades marginalizadas é combustível para continuar tratando-as como coadjuvantes. Assumir nosso passado colonial de dominância europeia alimenta o estereótipo elitista, que por consequência, naturaliza o negro como ameaça apesar de ser a vítima. Os homicídios atingem 2,6 vezes mais negros que brancos no país.

“O racismo continua sendo uma marca importante e determinante da estrutura da sociedade brasileira e das nossas relações sociais. A ideia de, porque nós não falamos ou tratamos do racismo, o racismo é menor ou, quiçá, não existe de forma estrutural no Brasil, é um dos instrumentos do próprio racismo, que legitima a subalternização de negros e negras na sociedade ainda hoje. O negro não é só “coadjuvante”, ele é permanente lugar de segunda categoria.
Isso é absolutamente naturalizado, e quando a pauta da negritude aparece, ou do racismo, ela é tratada como uma pauta desnecessária, exagerada, deslocada. O Brasil quer acreditar que não é racista, que não funciona sob uma ótica e lógica racistas, mas isso é impossível de ser ocultado, escondido, porque é nítido no dia a dia, no mundo real, é impossível, com um mínimo de esforço, perceber o lugar do negro na sociedade, e as estatísticas, que dizem onde os negros mais estão. Estão morrendo mais, sendo mais encarcerados, ganhando menos, tendo menos acesso a universidade, sendo quase ausentes do corpo docente das universidades, etc.” , afirma Ronilso Pacheco, teólogo, articulador social pelo Viva Rio e ativista, autor do livro recém lançado Ocupar, Resistir, Subverter: igreja e teologia em tempos de violência, racismo e opressão.
No documentário Lutas.doc, o historiador Leandro Karnal mostra que o povo brasileiro é instruído a não reconhecer a sua história. Essa ideia é formada desde a escola, quando estudamos os principais conflitos territoriais. Geralmente, os tratamos como revoltas regenciais, o que diminui no imaginário social o peso destes acontecimentos.
“O Estado acredita piamente, por exemplo, na ‘guerra às drogas’, e a declara em alto e bom som permanentemente. Mas a política de guerra às drogas até agora só tem produzido mortes e mais mortes, em que quase todos os corpos envolvidos nessa morte são jovens, pretos e pobres. A imagem de povo alegre e amigável na verdade faz parte de uma característica muito peculiar da sociedade Brasileira que é essa capacidade de dissimulação, como a gente é capaz de mascarar nossas mazelas e conflitos a partir desse nosso jeito de ser. Posando como um povo alegre e amigável, nós mascaramos o racismo, por exemplo, mesmo sendo o racismo um legado ainda presente e permanente de nossa herança colonial e escravocrata. Essa guerra cotidiana é declarada, mesmo que de outra forma. Não é a narrativa da guerra tradicional, da guerra civil, é a narrativa de uma guerra que aponta para outras direções, mas que segue matando a parte mais pobre e destituída de direitos da população.” afirma Ronilso Pacheco.
coclusao