Homicídios por intervenção policial (Foto: Direito livre/Wikipedia)

Detrás dos eventos esportivos do Rio de Janeiro há uma realidade carioca

A veracidade dos projetos desmantelados após promessas de segurança à população que habita zonas de risco

“Rio 40 graus, Cidade maravilha, purgatório da beleza e do caos”, como já dizia a música, o Rio de Janeiro não é só conhecido mundialmente pelas belas paisagens, mas também pela tamanha violência. Mesmo assim, o estado foi palco de diversos eventos, como a final da Copa do Mundo em 2014 e dos Jogos Olímpicos em 2016. Durante esses períodos o governo procurava colorir a vida do carioca com uma realidade fantasiosa, de festa, harmonia e segurança. Hoje, no entanto, um outro lado tem sido cada vez mais apresentado ao mundo externo após esses eventos.

A crise financeira que o estado do Rio de Janeiro enfrenta em diversas áreas mostra o real legado pós-evento. O setor de segurança pública foi um dos mais prejudicados, resultando no aumento da onda de violência, que começou no início do ano e assolou diversas favelas da Zona Norte como o Complexo do Alemão, Jacaré e Lins.

Thais dos Santos, 21 anos, que já morou no Jacaré e atualmente mora no Complexo do Alemão, comenta que ainda sofre com o sentimento de insegurança.

“A rua onde eu moro é mais calma do que a que eu morava no Jacaré, mas de forma geral, quando é dia de operações a tensão é a mesma. Ainda mais, porque trabalhando longe, preciso sempre saber se é seguro voltar ou não para casa. Coisa que era diferente no Jacaré”.

Essa insegurança traduz o sentimento da maioria dos cariocas diante das intensas guerras que se tornaram rotinas entre policiais e traficantes. O que se percebe nisso tudo é um despreparo e uma falta de planejamento para o combate ao crime que, em consequência, elevou o número de policiais mortos no estado, e também, o índice de Homicídios Decorrentes por Intervenção Policial.

Fonte: ISP (Instituto de Segurança Pública)
Fonte: ISP (Instituto de Segurança Pública)
Fonte: ISP (Instituto de Segurança Pública)

No meio dessa guerra, o professor Fábio Cândido expôs que o aumento do número de mortes não quer dizer que seja um ato de segurança e sim de descontrole público que atinge, principalmente, a população desfavorecida das periferias da sociedade.

“O problema é que a fonte do problema é social e remete a uma massa enorme de excluídos que, acastelados em favelas, deixam, por obra de pouco poder aquisitivo aliado à falta de educação, que ricos fornecedores de drogas (políticos influentes, possivelmente) se instalem nesses locais por meio de traficantes, criando uma lógica de crime e violência que, pelos altos valores envolvidos, corrompem também a polícia, criando um ambiente extremamente complexo de ser desfeito”, elucidou Fábio.

Questionada se as mortes em ações policiais traz sensação de segurança, Thais concorda que não resolve. “Porque a morte não traz paz, ao contrário, só traz mais violência, pois muitas vezes aflora sentimento de vingança.”

Porém, a falta de segurança só se torna preocupante aos governantes, quando ocorrem grandes eventos. Pois, noticiários de violência não agregam valor aos espetáculos e afasta turistas, logo a cidade não consegue uma boa receita financeira apesar do investimento. Em 2014 e 2016, anos de Copa e Olimpíada, tiveram um maior projeto de segurança pública no estado. Os números de homicídios foram estáveis no período, com um pequeno aumento nos Jogos Olímpicos.

Fonte: ISP (Instituto de Segurança Pública)

O professor busca explicar também o porquê de não existir uma continuação dos projetos em segurança após os eventos mundiais. “Os investimentos ocorrem por que há interesse financeiro e político. É como ano de eleição. Nessa época, as coisas acontecem. Depois, cessam. Nos outros 3 anos, tudo diminui ou mesmo desaparece. Foi o que aconteceu em cada um desses eventos”, Fábio ainda completou:

“No entanto, há que se conceder que um projeto de segurança para um evento pontual não pode ser comparado a um mais amplo, como o de uma cidade ou de um estado. O certo é elaborar um projeto de segurança permanente e que passe por prevenção, via inteligência e, é claro, educação. Assim, segurança, depende da articulação com outras áreas sociais que, infelizmente, são sempre negligenciadas. A falta de continuidade é reflexo desta dinâmica e, claro, do interesse de tirar dinheiro desta área para outras, além, é claro da ação da corrupção”, concluiu.

De um lado, um professor que leciona em faculdades, de outro uma balconista que por anos viveu na região do Jacaré e que atualmente mora no Complexo do Alemão. Ambas as partes concordam na questão que as mortes não amenizam a violência, apenas apresenta um descontrole na segurança que resulta em mais mortes para ambos os lados.

Por: Cássia Moura e Yuli Santana