No Brasil, 42% não consomem cultura com frequência

Por: Luana Rios

A média de frequência em atividades de cultura e a opinião de um especialista sobre os espaços culturais e suas ocupações. Além do fator financeiro, a educação afeta diretamente no interesse por essas manifestações artísticas.

A última pesquisa sobre como os brasileiros consomem cultura foi realizada em 2014. A desatualização dos dados reflete a triste realidade sobre o interesse da população em atividades culturais e a falta de conhecimento sobre as manifestações artísticas.

Outro dado de destaque no estudo é que, para combater a exclusão cultural total, a educação é um fator mais importante que a renda. Apesar de alguns alegarem os valores acima da média como fator para não frequentarem atividades culturais, outros apontam a falta de interesse como maior motivo. Entre esses entrevistados, a maioria possui de ensino fundamental ao ensino médio. Gabriel Cardoso, pós-graduando de Jornalismo Cultural pela UERJ explica.

Existe a cultura como lazer / entretenimento que o teatro e as artes proporcionam, e existe a cultura como mecanismo de construção do imaginário, aquela que incentiva as pessoas a frequentarem determinados espaços, através de uma série de instrumentos de persuasão (mídia, publicidade, interesses do grupo no qual se insere etc). Aposto que estes entrevistados nunca foram ao teatro, mas vão com certa frequência ao cinema. Porque o incentivo ao cinema é muito maior, entende? É uma linguagem mais simples, de uma leitura mais objetiva, inseridas num espaço de aspecto visual menos “elitizado”. É conveniente esse incentivo porque o cinema movimenta milhões, assim como é conveniente reforçar o incentivo à leitura quando eventos como a Bienal estão se aproximando no calendário. Mas essas pessoas que nunca foram ao teatro talvez amem teatro e não saibam disso. Ocorre que, durante o seu desenvolvimento, elas não tiveram acesso à cultura para perceber que existem muitos outros aparatos culturais para além do cinema, os quais elas nunca foram incentivadas a conhecer. É aqui que entra essa análise de cultura e educação: isso precisa ser feito nas escolas, ambas precisam andar de mãos dadas na formação da pessoa. Essa pessoa precisa entender que existe uma grande diversidade de raças, cores, línguas, crenças, hábitos e costumes, e que isso nos torna diferentes, mas não nos dá o direito de desrespeitar ou odiar ninguém. Cultura ajuda também a construir valores. Ou seja, é preciso fomentar a cultura como lazer e também como potencializador da formação do ser humano. E isso só a retroalimentação que educação e cultura propiciam entre si é capaz de fazer.

Sim! O cinema é o escolhido pela maioria dos que consomem alguma forma de cultura, 93% vão ao cinema pelo menos uma vez ao ano. A predominância é dos cinemas localizados dentro de shopping. Este sempre foi a preferência da população por ter uma linguagem e uma leitura, em tese, mais fácil. O infográfico demonstra os dados detalhados.

Fonte: Panorama Setorial da Cultura Brasileira

Um retrato da falta de incentivo e burocratização por parte do Estado reflete no interesse de cultura em pessoas como, Lidiane Costa, 34 anos, moradora de São Conrado, nos arredores da Rocinha, maior comunidade do Rio de Janeiro. Lidiane contou a reportagem que nunca foi ao teatro, apenas na época de escola frequentou alguns museus e o ano de 2014 foi a última vez em que foi ao cinema, para assistir ao filme brasileiro Alemão. Nos bairros próximos a sua residência possuem pelo menos quatro cinemas e cinco espaços de teatro, mesmo assim Lidiane informa que não tem conhecimento sobre valores de filmes ou peças em cartaz, pois não tem interesse nas atividades.

“Não gosto de ir ao cinema, quando posso não é um lazer que escolho realizar. O último filme que assisti foi em 2014, o Alemão. E prefiro as comédias, não consigo acompanhar filmes legendados, raramente assisto filmes internacionais, quando faço isso sempre escolho pelo dublado. Não tenho interesse em teatro ou museus”, conta Lidiane.

Comparando grandes capitais como Rio de Janeiro e São Paulo, a falta de incentivo em cultura por parte do Estado dificulta o acesso as famílias de classes C e D, que criam a ideia de atividades culturais como teatro, museus, espetáculos etc serem para classes A e B. O governo pode criar um plano para aproximar as pessoas dos diversos tipos de cultura, porquê não faz isso?

Me parece que a burocracia pelo espaço público em São Paulo, durante a gestão Haddad, era menor, porque o antigo prefeito entendia a importância de dar esse incentivo. Vamos analisar a questão das atividades culturais e do incentivo às mesmas tomando como base os eventos de rua: aqui no Rio, é preciso que agitadores culturais, coletivos ou ativistas deem entrada no pedido para ocupar um espaço público com no mínimo dois meses de antecedência, por conta da grande quantidade de documentos necessários pra autorizar a realização de um evento. Com a gestão do Crivella, isso está muito mais acentuado. Há menos editais de fomento. Ou seja, ações como o corte de verba das escolas de samba, o cancelamento dos ensaios técnicos e a inviabilização proposital de manifestações como a Parada LGBT escancaram que a atual gestão não está nem um pouco preocupada em incentivar atividades culturais. Agora com relação a comparação com São Paulo, acredito que na gestão Doria a dificuldade pra realizar atividades culturais está tão difícil quanto no Rio. Em suma, tentam construir essa imagem de que as atividades culturais das ruas não servem pra nada, o que é um grande absurdo. Incentivar a cultura de rua é democratizar tudo aquilo que boa parte da população não tem acesso. Não são todos que tem condições de ir ao cinema ou ao teatro hoje. Tá tudo muito caro. E eventos a céu aberto são a resistência, a luta contra os modelos privatistas da cultura que são inflados dentro de uma lógica de mercado. São mostras de filmes, shows e espetáculos cênicos gratuitos, que quase sempre acontecem sem nenhum tipo de apoio financeiro e se sustentam com doações voluntárias. Afirma Cardoso.

Como explicar a sociedade um motivo pelo qual o Estado não forneça incentivo as manifestações culturais? Pelo contrário busque tornar cada vez mais difícil o acesso a estas. Sabemos que o saldo será sempre positivo tanto para a pessoa quanto para o Estado.

Ocupações culturais representam significativos ganhos socioculturais, por propiciar ao público espetáculos, apresentações e feiras gratuitamente ou a preços acessíveis — e boa parte dos frequentadores é da camada mais humilde da sociedade, provando que não é a falta de educação ou de dinheiro que causam o desinteresse cultural; se tiver um evento e este for acessível, eles estarão lá. São ocupações que também representam ganhos econômicos, (por movimentarem o comércio formal e informal em dias e horários alternativos); simbólicos e políticos (por valorizarem a região ao mesmo tempo em que contribuem para uma reflexão sobre a importância da renovação dos espaços públicos). Ou seja, não tem porque não os incentivar. Explica, Gabriel Cardoso.

Diante da necessidade de ter que escolher entre uma atividade e outra, por conta do custo, normalmente preferem o cinema. Mas atualmente, justificar a preferência pelo cinema porque é mais barato é falacioso. Tem teatros com espetáculos por dez reais. E ocorrem bem ali, na Cinelândia, centro do Rio, com metrô, VLT e pontos de ônibus bem em frente. O que existe é uma teimosia da população em acreditar que um espetáculo que custa dez reais é ruim, mas aí é outra discussão. No momento, é necessário investir em divulgação da cultura e incentivar o consumo.