Ilustração: Ale Kalko

O silêncio agonizante da violência contra a mulher

Por Marina Morena e Karin Antunes

“Ele não me deixava usar roupas curtas ou de cores muito vibrantes. Sempre que podia, segurava forte no meu braço e dizia coisas horríveis no meu ouvido. Quando eu tentava ir embora, ele chorava e me fazia sentir pena dele. Até que um dia que ele ficou com raiva porque eu sorri para o garçom e quebrou meus dentes da frente com um soco. Chorei compulsivamente, mas criei coragem e terminei o relacionamento.”

A história de Bruna, estudante de História, é mais comum do que se pensa. A cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil. E a cada 7 minutos ocorre algum caso de violência contra a mulher. Esses são os dados presentes no 9º Anuário Brasileiro de segurança pública, porém, no anuário só constam os casos que foram registrados como boletim de ocorrência.

O IPEA, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, afirma que apenas 10% das mulheres que sofrem algum tipo de violência, prestam queixa à polícia.

O número de casos de violência contra a mulher no Brasil, tiveram um significativo crescimento no ano de 2016. O disque 180, número da Central de Atendimento à mulher, registrou 76.651 denúncias, enquanto no ano anterior, foram 52.957. Os casos de estupro, assédio e exploração subiu em 44,7%. As ocorrências de violência física são as mais comuns, mas também há a violência psicológica e a violência moral que estão logo atrás.

Infográfico: Marina Morena

Apesar de ser um termo pouco conhecido no Brasil, gaslighting significa manipular e criar dúvidas na mente de outra pessoa como forma de controle do que ela faz, quer ou é. Tem como fundamento inocentar o manipulador da culpa colocando-a na vítima. E isso é muito comum em relacionamentos amorosos em que uma pessoa acha que tem o direito de exercer um controle e uma mudança no comportamento da outra. É uma manipulação da mente e do corpo de forma real e não hipnótica, como nos filmes.

O abuso pode acontecer de diversas maneiras:

Sexualmente: Quando uma pessoa não quer transar, beijar ou ter qualquer tipo de relação física mas é convencida através da manipulação psicológica. Como dizer que se ela não fizer, o amor não é verdadeiro. Ou dizer que não fazer oque ela quer é errado e te fará mal.

Fisicamente: Mesmo que não haja socos, tapas ou chutes, segurar no braço com força e empurrões também se enquadram como violência física.

Mentalmente/emocionalmente: acontece através da inversão de papeis. Como quando o que erra, em vez de reconhecer o erro, transmite a culpa para o outro o fazendo acreditar nisso. Também há xingamentos e o uso de histórias passadas como forma de arma para ferir o outro.

Se a pessoa dita regras como quais roupas usar, com quais pessoas falar, onde se pode ou não ir, o que você pode ou não ter, se ela te causa medo ou te causa insegurança na maior parte do tempo, procure a ajuda de amigos e de um psicólogo. Talvez você esteja em um relacionamento abusivo e não sabe.

Ainda como forma de violência contra a mulher, existe o assédio. Aquele que normalmente é naturalizado como apenas “elogios” mal interpretados. A objetificação, a hiperssexualização e a comoditização do corpo feminino levam à noção de que o valor da mulher está em sua aparência. Isso não apenas dá aos assediadores a certeza de que seus avanços sexuais indesejados são elogiosos, mas também há muitas vítimas que os recebem e entendem como uma validação desejosa. Além disso, esses comportamentos desumanizam as mulheres que, valorizadas apenas pelo valor sexual de seus corpos, são despidas de intelecto, inteligência e sentimentos, ocupando na sociedade um papel ornamental e secundário.

Nova lei traz esperança

A lei que classifica o feminicídio como crime hediondo foi sancionada em março de 2016 pela presidente Dilma Rousseff, que também já foi vítima de estupro quando foi capturada pelos militares, na época da ditadura em 1968. O texto prevê “o aumento da pena em um terço se o assassinato acontecer durante a gestação ou nos três meses posteriores ao parto; se for contra adolescente menor de 14 anos ou adulto acima de 60 anos ou, ainda, pessoa com deficiência. A pena é agravada também quando o crime for cometido na presença de descendente ou ascendente da vítima” de acordo com o jornal Estadão.

Luciana Moura, psicóloga, pedagoga e ativista dos direitos da mulher, expõe sua opinião sobre a nova lei:

“Comecei minha militância pelos direitos da mulher quando percebi o grande número de pacientes que sofriam abusos físicos e psicológicos de seus parceiros, que sempre saiam impunes. Milhares de mulheres morrem por ano vítimas dessa falsa impunidade aos seus assassinos. A nova lei nos traz esperança sobre uma penalidade mais severa para crimes contra a mulher”, declarou.

+DADOS:

Ilustração: Ana Cossermelli

• 29% é o percentual de mulheres brasileiras que afirmam ter sofrido algum tipo de violência física ou verbal, o que equivale a 16 milhões. (DATAFOLHA)

• Em todo o mundo, 52% das mulheres economicamente ativas já sofreram violência sexual, segundo a OIT (Organização Internacional do Trabalho).

  • Metade das mulheres entrevistadas no Brasil disseram que já foram seguidas nas ruas, 44% tiveram seus corpos tocados, 37% disseram que homens se exibiram para elas e 8% foram estupradas em espaços públicos. (YouGov e IBGE)

Confira a evolução brasileira das delegacias especializadas no atendimento as mulheres e da legislação em prol das mulheres vítimas de violência, na linha do tempo abaixo: