A casa construída no lugar de perdão

Jesus foi o maior advogado de defesa do mundo, ainda hoje Ele continua exercendo a profissão (I Jo 2.1), mas quero citar um caso bem específico, que aconteceu enquanto ele caminhava pelas ruas da Judéia.

Uma mulher foi descoberta, pegaram conversas dela e alguns indícios de que ela iria se envolver em um caso extraconjugal. Armaram uma ação controlada e finalmente pegam aquela mulher, pecadora, adúltera e levam ela até o Mestre. O questionamento, além de complexo e cheio de implicações poderia pacificar a situação de Jesus e torna-lo um judeu mais considerado. Porém complicava mais a postura do Deus-homem que veio ao mundo salvar pecadores.

Ela foi pega, e a lei manda mata-la, o que você acha que devemos fazer? A reação de Jesus é uma pausa poética. Ele lentamente se inclina e coloca seus dedos no chão. Talvez em sua mente passasse os dias no Horebe, logo após ter tirado uma multidão do Egito milagrosamente, os dias logo depois do milagre do mar. Jesus lembra que estava lá, que operou tudo isso. E que no Horebe, Seu santo monte, ele, com seus próprios dedos escreveu a Lei. O Seu único objetivo naqueles dias era que o povo se santificasse. Ele deu uma lei santa, justa e boa (Rm 7.12),

Ele mostrou o caminho para si mesmo. Mas os homens se tornaram hipócritas, esqueceram que não havia salvação na lei, Deus era a salvação e para sorte daquela mulher, em sua frente estava Deus. Ela caída, com o rosto abaixado, com lágrimas escorrendo, diante de sua sentença, um nó na garganta, um flash em sua memória, se tivesse feito escolhas diferentes… se tivesse agido diferente… bastava um caminho diferente e ela não estaria ali, diante de Deus, diante da Lei.

Os agressores pressionam, querem executá-la logo, antes que a raiva passe, antes que o zelo pela lei diminua, antes que o peso das pedras enfraqueçam os músculos e diminuam a sentença final da pecadora. É então, que Jesus, o Homem-Deus, que redigiu a lei, e acabara de mostrar que seus dedos ainda podiam fazê-lo, não muda a lei, mas muda os corações, apontando para depravação total.

Por ação do Espírito Santo aqueles homens se convencem do que Deus acabou de fazer. Perdoar, não por que a lei não tivesse sido clara, mas por que, nas palavras de Ed Rene Kvitz, não podemos construir uma sociedade sobre pedras. Deus não se equivocou ao dar uma lei assim, ele deu ao homem uma fagulha do seu amor e o pediu para exercitar em momentos como esse, em que as pedras são usadas para edificar e não destruir.

Parece tão maravilhoso este momento, este cenário, que naquela terra de frente ao templo, uma areia que o vento espalha, que não muitos minutos depois de Jesus ter escrito ali, não havia sinal do que seus dedos fizeram — bem diferente das pedras rochosas em que escreveu a Lei — que para alguns ali, seria o lugar ideal para construir sua morada.

A areia onde Jesus perdoa o pecador, não é o lugar ideal para se viver. O que quero dizer com isso. Somos surpreendidos no pecado, caímos, falhamos e ficamos na pior situação que um humano poderia ficar, choramos, nos inclinamos, clamamos por misericórdia, e o que Jesus faz: Perdoa, aceita de volta, ama, restaura e nos faz filhos. Essa imagem de Jesus, sendo compassivo, “passando por cima” de Sua lei, para demonstrar Sua graça, dá para algumas pessoas um impressão equivocada dEle, vejamos.

Logo depois que os acusadores da mulher foram embora Jesus pergunta: Onde estão seus acusadores? Ninguém te condenou? A graça se manifestou e a mulher foi salva… Jesus continua, eu também não te condeno. Se o texto terminasse aqui, talvez desse todo respaldo para uma construção na areia. Ali, o lugar do perdão, onde a face do Pai das misericórdias foi vista, seria, sem dúvidas um terreno ideal. Mas Jesus prossegue: “Vai. — O lugar do perdão, não é o lugar de morada, vai. Construir sua casa nas areias em que escrevi não é uma boa ideia. Você precisa praticar minhas palavras, você precisa fazer o mais importante. Vai”

A versão mais enfática para este texto, em minha opinião, é da NVI, nas palavras que se seguem Jesus dá uma ordem que define de forma inequívoca seu ministério no mundo: Salvar (I Tm 2.15) — “abandone sua vida de pecado”. Se não houver o abandono, daquele lugar de perdão, se não houver em mim a convicção da Graça que recebi, e de gratidão pelo perdão imerecido, posso querer voltar ali, diante do mesmo Jesus, com os mesmos acusadores e pior ainda, com os mesmos pecados.

A noção de abandono daquele lugar, só pode ser melhor compreendida em outra aula que Jesus deu, lá no monte onde ele nos apresentou seu belo sermão: “quem ouve estas minhas palavras e as pratica é como um homem prudente que construiu a sua casa sobre a rocha” Mt 7.24 — abandonar sua vida de pecado é construir sua casa sobre a rocha em que está estabelecida Sua lei. Não nas areias onde estão apagados seus pecados em perdão.

A lei de Cristo nos convida a cumprir suas palavras. Não há na mensagem de Jesus um salvo conducto no qual posso fazer o que bem entendo, por que ele escreve meus pecados na areia. Em suas palavras há um chamado urgente e inadiável para o arrependimento, ele quer pecadores arrependidos, ele ama pessoas dispostas a abandonar suas próprias vidas com seus pecados — “Quem tem os meus mandamentos e lhes obedece, esse é o que me ama. Aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu também o amarei e me revelarei a ele” Jo 14.21

Da mesma forma que o chamado dele é imprescindível à SANTIDADE. — “Se alguém me ama, guardará a minha palavra. Meu Pai o amará, nós viremos a ele e faremos nele morada.” Jo 14.23 — E neste trecho Jesus está respondendo a pergunta que fará o mundo conhece-lo. Cristo e o Pai habitando em nós e é sabido de todos que Deus é Santo e que requer de Seus filhos que sejam santos.

Por mais que seja tentador permanecer no lugar do perdão, por mais que nossa mente nos instigue a continuar na areia de não praticar a Palavra de Deus, somos chamados, eleitos em Cristo para sermos santos e irrepreensíveis (Ef 1.4), não para ficarmos constantemente na imaturidade. Cuidado onde constrói sua fé.