O Problema com Pokémon Go

Se até esse momento você não sabe o que é Pokémon Go, provavelmente está dormindo debaixo de um Snorlax. Pokémon Go é o aplicativo do momento. É o jogo de realidade aumentada em que você sai para a rua para capturar pokémons, afinal todos querem ser um mestre pokémon.

Talvez você já ouviu falar a respeito, especialmente se você for evangélico, pois provavelmente deve ter visto aquele vídeo de um cara falando que, na verdade, as crianças estão dando brechas para os demônios entrarem na sua casa por meio do aplicativo. Afinal de contas, a câmera do seu iPhone/Android é um portal ambulante para o mundo das trevas. #MEDO. Quanto a isso, não vamos entrar no mérito, porque simplesmente não vale a pena falar sobre isso, e não quero que você perca seu tempo mais uma vez com esse assunto. Como eu disse para uma certa pessoa via mensagem, que estava questionando todo esse lance de espiritualidade e fazendo uma feijoada de Illuminatis, Nova Ordem Mundial e Espiritismo Oriental: “O que é pior: fofocar sobre tudo da igreja via WhatsApp, ou Pokémon Go?”. Obviamente não obtive resposta.

O que quero abordar aqui é sobre um problema real com o jogo. Quero dizer, talvez nem tanto com o jogo, mas com o perfil e comportamento de consumo das pessoas. Não querendo demonizar o jogo, mas há um problema seríssimo que o acompanha.

O jogo utiliza a câmera, o GPS e o posicionamento do seu smartphone (talvez até mesmo os dados do giroscópio do celular). Esses dados criam no usuário a sensação e a ilusão do mundo digital em sobreposição ao mundo concreto. Com isso, você pode até encontrar pokémons na sua casa (mais difícil na última atualização — 1.33). Há PokeStops em lugares históricos, e empresas têm comprado “lures” no jogo a fim de aumentar vendas locais (que aliás é uma ótima ideia de marketing). Na primeira semana de lançamento, o jogo teve milhões de downloads. As estatísticas divulgadas pela Apple para as principais fontes de notícias foram de que, na primeira semana, Pokémon Go quebrou todos os recordes de downloads. Nenhum app na história da App Store teve tantos downloads. Sucesso de saída. De acordo com a reportagem no site “TheInquirer.net”, até o dia 11 de julho, quase 11% dos usuários de Android haviam instalado o jogo. Juntando com as estatísticas coletadas com os downloads no Reino Unido, Pokémon Go já foi mais baixado do que a somatória de todos os downloads, de todas as plataformas, do Tinder, etc. Detalhe: todas essas estatísticas só nos primeiros três dias em que Pokémon Go foi lançado. Sim, tudo isso.

Niantic Labs + Nintendo + Google = Pokémon Go

Entretanto, com todo esse sucesso, as pessoas não fazem a menor ideia do que estão permitindo acontecer no seu bolso. Durante o processo de criação de conta (ou associação com sua conta já existente do Google), sua privacidade foi pro beleléu. Para usuários de iPhone, Pokémon Go tem acesso completo à sua conta do Google. Ainda não se sabe quanto de acesso é liberado no Android (mesmo com os dados dos programadores que decodificaram o app, uma pesquisa rápida no http://reddit.com/ vai fazer você entender melhor), mas se você tem uma conta e aceitou os novos termos da atualização 1.33, a Niantic tem permissões para até enviar e-mails. Além disso, sabe-se que, de maneira geral, o desenvolvedor do jogo tem acesso quase completo à sua conta de Gmail e a seus Docs. E mais, ao analisar o app, foram encontradas várias técnicas de Data Mining, inclusive uma linha que daria acesso à sua conta de Uber, se houvesse vínculo via Google. Não para por aí, eles também podem visualizar seu histórico de navegação e uso do Google Maps. Em nota para http://forbes.com/, o CEO da Niantic, John Hanke, afirma que isso passou despercebido e que o app não estava coletando todos esses dados sensíveis. Ele disse também que a Niantic estaria revisando os termos atuais e criando novos termos para proteger a privacidade dos usuários. O que poderá ser mantido são os dados que você sempre permite serem coletados: sua idade, suas fotos, sua geolocalização e seu histórico de navegação (e talvez algumas outras coisas).

John Hanke da Niantic Labs

Por que isso é preocupante e um problema? Antes de John Hanke ser CEO da Niantic Labs, ele foi responsável pelo departamento de geolocalização da Google (manja Google Street View, Google Maps e Google Earth?). Como ele chegou lá na Google? Ele tinha uma empresa chamada Keyhole, que era financiada pela CIA e colecionava e catalogava imagens geográficas. A Keyhole se transformou em Google Earth em 2005. Em 2007, Hanke era responsável por tudo que envolvia mapas na Google (veja o perfil dele pela revista Wired, de 2007). Esse departamento da Google foi revolucionário no mundo digital e da tecnologia. A Google compartilhou seus recursos gratuitamente para terceiros por meio de um API, e o resultado foi o que temos hoje em 2016, com programas como Waze e Pokémon Go.

As coisas começaram a estreitar em 2010, em abril, quando a Alemanha anunciou publicamente de que os carros da Google que circulavam mapeando as vias estavam também coletando ilegalmente dados de Wi-Fi. O escândalo passou a ser chamado de “Wi-Spy”. Nos EUA, a Google estava coletando dados de Wi-Fi há mais de 2 anos. Até hoje há algumas ações na justiça americana em andamento. Hoje, sabemos que o perfil de empresas que coletam esses dados revendem para terceiros, ou até mesmo para governos (leia sobre Snowden, ex-funcionário da NSA, o qual divulgou o maior escândalo de espionagem da história humana). Obviamente Hanke negou conhecimento de tais fatos, repassando a responsabilidade para a unidade móvel da Google (mobile).

A nota pública inicial da Google foi de que eles não haviam feito nada daquilo que estavam sendo acusados. Duas semanas depois, admitiram que haviam copiado os dados de tráfego de Wi-Fi, mas que foi “sem querer” e eram poucos dados. Resumindo essa longa história, quando tudo foi repassado para a justiça europeia, descobriram que foram coletados todos os tipos de dados, inclusive dados de sites de namoro e preferências sexuais (veja o site da organização “The Center for Public Integrity”). Os carros da Google não estavam somente mapeando as principais vias e pingando os roteadores, mas estavam coletando todos os dados que não estavam protegidos. As principais fontes de jornalismo mundiais ficaram atentas aos descobrimentos e ao processo judicial. Steve Lohr e David Streitfeld publicaram, no The New York Times, o artigo “Data Engineer in Google Case Is Identified”, identificando Marius Milner (hacker famoso e engenheiro) como o responsável pela façanha. Milner confirmou para o site http://theintercept.com/ de que trabalhou com Hanke no projeto, e de que ainda trabalha na Google.

Milner e Hanke tem três patentes registradas pela Niantic, tecnologias que usaram para desenvolver Pokémon Go. A Niantic começou dentro da Google em 2010, como incubadora. A Google e a Nintendo fecharam um acordo de US$20 milhões para alavancar a empresa. Depois do lançamento do Pokémon Go, The Verge, GameSpot e outras fontes de jornalismo focadas para games divulgaram que o app trouxe um valor aproximado de US$7 bilhões para a empresa (dá para comprar pokébolas para a vida toda, e ainda deixar de herança).

Privacidade, pra que?

Com todo esse histórico, a minha pergunta é: por que tantas pessoas deram para um jogo que foi feito para crianças de 10 anos de idade permissão para acessar todos os seus dados? Por que abriram mão tão facilmente de dados, contas, e-mails (que provavelmente serão vendidos para terceiros) para jogar um jogo? O problema é que abrimos mão dos nossos dados e privacidade facilmente.

O problema não é somente com Pokémon Go, mas foi a mesma novela com Spotify e com Windows 10 quando eles foram lançados (também havia nos termos de privacidade o direito de ler todos seus e-mails… todos). Quero finalizar com o problema do usuário, e não das empresas.

Somos usuários ignorantes. Abrimos mão de privacidade para utilizar um programa gratuito. Afinal, é mais importante usar agora o app do momento do que ler as letrinhas e entender o que estão fazendo com todas as fotos que o aplicativo está enviando automaticamente para o Facebook sem você saber. Ou seja, abrimos mão do que é mais importante pelo aqui e o agora. Esquecemos o quanto foi lutado no passado pela nossa privacidade (nacional e internacionalmente). Não nos importamos em colocar nossa vida toda em display para todos, e mais ainda para sermos vendidos. Não pensamos nas implicações futuras. Talvez aprenderemos um dia que as empresas usam as suas fotos e as minhas comercialmente, ou utilizam seus dados para estudos de consumo para sites onde “se compra e vende tudo”. Enquanto isso, vamos alimentando as empresas com as minúcias das nossas vidas, e não vai adiantar postar na sua timeline do Facebook que suas fotos e postagens são de propriedade intelectual. Já era, seus dados foram vendidos. Sua vida foi vendida e está à venda nesse momento. Não para uma Nova Ordem Mundial. Não para controle populacional/demográfico, mas para recursos financeiros mesmo. Sua vida à venda sem você receber um centavo.

Bem-vindo à nova era digital de realidade aumentada.


Obrigado por ler! Escrevo para a geração “Millennial”, que, assim como eu, luta com a fé e sente que algumas coisas precisam ser repensadas. Se puder ❤ este texto! Comente e eu retorno para você em 24hs… se eu não estiver no Snapchat.

Leia no meu site: http://www.danielromagnoli.com/cultura/tech/o-problema-com-pokemon-go/