[02] Conquistar para ser amada.

Nasci em São Caetano do Sul, São Paulo, em mil novecentos e setenta e dois. Meus pais se mudaram para Lambari, Minas, tão logo completei seis meses de idade. Minha irmã tinha cinco anos. Meu pai era lanterneiro e tinha uma oficina, minha mãe era “do lar”. Tenho poucas lembranças da vida até os seis anos de idade. Dos seis aos sete, as lembranças que tenho se resumem a muitas brigas entre meus pais, que culminaram na separação. Ela, que nesse momento tinha uma loja de roupas na pracinha da cidade e estava então mais empoderada para sair de um casamento que a fazia infeliz, vendeu a loja, arrumou as malas e partiu, levando minha irmã e eu para viver em São Bernardo do Campo, em São Paulo.

Tenho em minha memória a tristeza da imagem de nós três, em pé, esperando no ponto o ônibus que nos levaria para São Paulo. Foi um ano difícil, apesar de muitas coisas que eu gostava. Estávamos perto da família da minha mãe, morávamos num apartamento muito agradável, num prédio que tinha muitas crianças, eu estudava numa escola pública em frente e tenho vagas mas boas lembranças desse lugar. Tive, aos sete anos, a melhor festa de aniversário da minha vida e minha mãe fazia tudo o que estava a seu alcance para a nossa felicidade. Mas eu sofria muito.

A cada quinze dias, meu pai vinha nos ver. E foi assim que, devagar e sem levantar expectativas, eles foram começando a se entender novamente. Um ano depois, lá estávamos nós em Lambari outra vez.

As coisas melhoraram entre eles e a vida seguiu seu fluxo. A vida era simples, sem luxos, mas também sem escassez. Tomávamos coca-cola no fim de semana e íamos uma vez por ano para a casa de uma tia em Praia Grande, no litoral paulista. Assim eram as minhas férias, exceto por duas vezes em que passamos alguns dias em Ubatuba e um fim de semana no Rio de Janeiro.

Minha irmã e eu estudávamos em escola pública. Nem havia, aliás, colégio particular na cidade. O que acontecia é que no colegial, que hoje é o ensino médio, os filhos das pessoas com melhores condições financeiras iam estudar em Alfenas ou Itajubá, para se preparar melhor para o vestibular.

Eu era uma boa aluna. Gostava de ler, de estudar, aproveitava realmente o que a escola me oferecia. Quando voltamos de São Paulo, eu estava na primeira série do ensino fundamental. Rapidamente a professora percebeu que eu estava mais adiantada que os meus colegas de classe e propôs que eu fosse transferida para a segunda série. Não aceitei, escolhi ficar com os amigos, pois muitos deles eram os meus colegas do jardim da infância.

Na quinta série, já no ginásio, um dia minha mãe me levou ao salão para fazer uma escova nos cabelos. Naquela noite eu iria com ela à boate da cidade para a colação de grau dos formandos da escola. Fui contrariada, como era de se esperar, afinal tinha apenas onze anos. Fui surpreendida com uma medalha por ter sido a melhor aluna de todas as quintas séries daquele ano. Talvez ali tenha nascido o meu gosto pela competição. Até então, embora gostasse de tirar notas altas, não me lembro de ter sido tão reconhecida e valorizada por isso.

Nesse ponto, cabe fazer uma reflexão que mais tarde faria todo sentido para mim. Eu sempre tive uma certa dúvida do amor da minha mãe por mim. Ela era uma mulher muito forte, guerreira, admirável. Eu me achava tão frágil, tão pequena… Não era possível que uma mulher como aquela pudesse amar uma criança tão vulnerável e sentimental como eu… Assim seriam meus pensamentos, certamente, se eu pudesse ter consciência deles naquela época. O fato é que ser reconhecida publicamente com uma medalha havia feito com que ela sentisse orgulho de mim!

Assim, inconscientemente, comecei a traçar minha estratégia para nunca mais ter dúvida do amor da minha mãe por mim. Cada conquista era uma alegria. A certeza do reconhecimento, da aprovação, do amor da minha mãe.

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