[03] Desde cedo, muito trabalho.

Quando eu tinha catorze anos, minha mãe engravidou. Aos trinta e oito anos, deu à luz mais uma menina.

E foi também aos catorze anos que resolvi que queria trabalhar. Precisava comprovar minha capacidade de ser gente grande e, assim, definitivamente provar para minha mãe que eu não era mais a menina frágil e chorona que, na minha cabeça, talvez ela ainda achasse que eu fosse.

Comecei por um estágio numa associação onde meu pai trabalhava e, pouco tempo depois, fui para um escritório de contabilidade. Até que um dia, durante a aula, a gerente da Caixa Federal veio fazer o convite: estavam com vagas abertas para estágio na agência. Aquele era o emprego dos sonhos de qualquer pessoa. Me candidatei e fui uma das escolhidas. Mal havia completado dezesseis anos e já estava trabalhando numa grande instituição. Agora sim, todos teriam orgulho de mim.

O estágio na agência foi uma experiência muito boa. Pagavam um ótimo salário e havia muitas pessoas realmente interessadas em ensinar. Nesse período, tive o primeiro relacionamento afetivo mais sério.

Concluí o ensino médio e queria fazer Arquitetura. Mas por falta de condições financeiras para fazer um pré-vestibular ou mesmo uma faculdade privada, acabei prestando vestibular para uma faculdade cujas aulas aconteciam somente nos fins de semana, especialmente destinada a um público sem opção, como eu.

Fiz o primeiro ano de Ciências Biológicas dessa forma, estudando às sextas à noite e sábados de manhã, em uma cidade que ficava a uma hora de distância. O relacionamento ia de vento em popa e eu então resolvi ficar noiva. Queria casar.

Minha família não era contra o relacionamento, mas via que eu era uma pessoa determinada a “ir mais longe”, e então começaram a tentar me demover da ideia de casamento. Os argumentos eram, obviamente, o meu potencial, a carreira que eu tinha pela frente…

Não os condeno por isso, talvez eu fizesse o mesmo se fosse a minha filha. Mas é interessante observar, com o benefício dos anos, que havia em mim uma disputa entre ficar e partir, entre construir uma relação ou uma carreira, entre o ter e o ser…

Terminado o estágio na Caixa, fui fazer estágio no Banco do Estado de Minas Gerais. Essa foi uma das experiências mais incríveis que passei, vivida num contexto absolutamente adverso. Trabalhávamos nos divertindo, mas trabalhávamos muito, muito mesmo. Nesse tempo, trabalhar em banco significava ter hora para entrar e não ter hora para sair.

No segundo ano da faculdade, por questionar a qualidade do curso que eu vinha fazendo (ou para comprovar que eu podia mais?), decidi pedir transferência para o curso de Matemática, em uma cidade um pouco mais distante, a noventa quilômetros de casa. E com aulas noturnas, diariamente.

Em plena juventude, enquanto todas as minhas amigas se divertiam pela rua, eu já vivia uma vida cheia de responsabilidades. Trabalhava muito mais do que as horas que me pagavam, e mesmo sendo apenas uma estagiária, comecei a sentir muita culpa por sempre considerar que não estava me dedicando o suficiente. Eu entrava no banco às onze da manhã, sem intervalo de almoço — comia na cozinha em quinze minutos, ficava até às cinco da tarde, corria pra casa e tinha quarenta e cinco minutos para tomar um banho e comer algo, para que às seis estivesse dentro de um ônibus que levaria os estudantes para a faculdade. Voltava à uma da manhã e, no dia seguinte, começava tudo outra vez.

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